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Caso de política

Logo agora que Dilma Rousseff engrenou no discurso incisivo sobre o combate à corrupção, levando ao centro da campanha um assunto evitado até que o ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa inaugurou o que já se configura o início de uma fila para firmar acordos de delação premiada com a Justiça, a própria presidente e seus aliados começam a pôr em dúvida suas palavras.

Dora Kramer

28 Setembro 2014 | 02h02

Ao menos no que tange à atuação da Polícia Federal, celebrada como independente e apontada por ela como uma das razões pelas quais há tantos escândalos. Sempre que se toca no assunto, Dilma explica: não há mais corrupção, o que há é mais controle. Como se descobre mais, os crimes aparecem mais. Portanto, os instrumentos de fiscalização estão funcionando direito. PF inclusive. Acima de interesses dessa ou daquela natureza.

Pois na última semana a instituição já foi alvo de suspeita de agir mediante motivação eleitoral por políticos que, embora atuem no campo da presidente, não compartilham da opinião dela sobre a conduta republicana da PF nem ela parece acreditar nas próprias palavras.

Por ordem de importância dos porta-vozes, comecemos pelo ex-presidente Luiz Inácio da Silva. Na opinião dele, a divulgação do fato de a polícia tentar há sete meses ouvi-lo (como testemunha) sobre a acusação feita pelo operador do mensalão de que teria intermediado um repasse ilegal de R$ 7 milhões da Portugal Telecom para o PT tem objetivo "eleitoral". A informação é da PF que, por deferência, atua com diplomacia tentando por intermédio do advogado Márcio Thomaz Bastos que Lula atenda ao convite.

Uma "pessoa comum" - para usar expressão do ex-presidente - já teria sido intimada. O uso eleitoral aí não teria razão para entrar no seu radar caso tivesse atendido à solicitação em fevereiro. Lula alega não ter recebido convite. De fato, pois a PF o está tratando com reverência, mas fazendo o seu trabalho. Não recebe, no entanto, a mesma colaboração.

No segundo caso temos a inusitada reação do vice-presidente da República, Michel Temer e do presidente do Senado, Renan Calheiros, protestando em nota oficial e mobilizando a presidente da República e o ministro da Justiça para que tomem providências contra a equipe da PF em Imperatriz (MA), que ousou averiguar uma denúncia anônima de que haveria transporte de dinheiro irregular no avião do senador e candidato ao governo do Estado, Edison Lobão Filho.

A alegação foi a de que a operação visava a prejudicar a candidatura. Ocorre que os policiais não encontraram nada de errado e, assim, deram por encerrado o episódio. Não foram negligentes e não prejudicaram ninguém. Ao contrário. Pode-se dizer até que o senador recebeu um bom atestado e a PF fez o seu trabalho. Mas a cúpula do PMDB interveio em prol de tratamento privilegiado.

O terceiro personagem é o petista Alexandre Padilha, candidato ao governo de São Paulo. A Polícia Federal iniciou uma operação para investigar fraudes em licitação na secretaria especial de saúde indígena, ligada ao Ministério da Saúde. O caso ocorreu quando Padilha era ministro e, embora não esteja entre os investigados, já foi logo tratando de dizer que a investigação só pode ter "motivo eleitoral".

Em xeque. Se as pessoas que estão no governo e conhecem como as coisas funcionam lançam com tanta facilidade suspeitas de que a regra não é a adoção de boas práticas, estão pondo em xeque as garantias que têm dado a presidente ao público e, ao mesmo tempo, levantando desconfiança sobre o trabalho realizado pela Polícia Federal.

A corporação sabe em que fogueira a jogaram quando o governo diz, para atender aos parceiros, que vai "investigar a fundo" a origem da denúncia anônima, e a PF responde em sóbria nota que é um órgão de Estado que não "persegue, não intimida, nem se deixa intimidar".

Agora, para agradar ao PMDB, a presidente se contradiz e deixa a Polícia Federal à exposição mais insidiosa do sol e da chuva.

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