Hudson Freire/Arquivo Pessoal
Hudson Freire/Arquivo Pessoal

Casal investe em 'loja fashion' para atrair clientes em favela no Rio

Presença de UPPs incentiva donos de pequenos negócios a tentar buscar novos consumidores

Júlia Dias Carneiro, BBC

20 Dezembro 2010 | 13h36

Quando Ivone Duarte perdeu o emprego em uma clínica veterinária, quatro anos atrás, começou a investir na ideia de vender roupas em casa, no morro Santa Marta, e colocou um espelho e uma arara em um cantinho da cozinha para compor uma miniloja.

As clientes que chegavam da rua tinham que passar pelos traficantes armados que controlavam a comunidade. "Eles perguntavam quanto elas queriam comprar, se queriam fumar, cheirar. Aquele era o primeiro impacto", lembra Hudson Freire, marido de Ivone.

A situação mudou depois que o Santa Marta virou a primeira favela do Rio a receber uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), dois anos atrás.

Os negócios melhoraram tanto que, em janeiro deste ano, Hudson deixou o emprego em uma agência de publicidade em Niterói para ajudar a esposa, e eles compraram um imóvel na Praça do Cantão, na parte baixa do morro, para abrir uma loja.

"Vi que o negócio ia andar com a comunidade pacificada. Comecei a imaginar as clientes vindo da rua", conta Freire.

Depois de uma reforma caprichada, o casal abriu, em fevereiro, a Comunidade Fashion, e a proporção de clientes se inverteu: "Hoje, 60% vêm de fora (da comunidade) para comprar aqui", estima Freire.

O casal está no processo de constituir uma empresa formal para impulsionar os negócios. "Vamos fazer um CNPJ para poder vender com a máquina de cartão de crédito e débito. É importante, a gente perde vendas de clientes casuais e de gringos que vêm visitar a comunidade", diz Hudson.

Segurança

Morador da Cidade de Deus, o comerciante Carlos Alberto da Silva Vichelo acaba de passar pelo mesmo processo. Há dez anos, ele tem um trailer bem em frente à sede da Central Única das Favelas (Cufa), onde vende salgados, bolo e refrigerante. Só agora regularizou a empresa.

"Agora pago impostos, graças a Deus. A gente fica mais seguro de poder trabalhar sem risco de a fiscalização bater aqui e querer fechar tudo", diz, exibindo, orgulhoso, o boleto de cobrança do imposto simplificado, no valor mensal de R$ 57,10.

Vichelo regularizou seu trailer, onde vende salgados

Após a chegada da UPP, em fevereiro de 2009, Vichelo diz que o dia a dia no trailer ficou bem mais seguro.

"Melhorou 100%. Agora trabalho mais tranquilo. Já tive que me esconder deitado atrás do trailer enquanto vinham tiros de bandidos de lá e da polícia de cá", diz, apontando para os dois lados da rua. "Graças a Deus estamos aqui até hoje."

Moradora da mesma comunidade, a jovem Bárbara da Silva conseguiu seu primeiro emprego um mês atrás, em um dos projetos sociais que chegaram à comunidade na esteira da UPP.

Bárbara foi uma das pessoas que resolveu cadastrar seu currículo durante a visita do Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes do Rio para recrutar mão de obra local, no dia 19 de novembro.

No mesmo dia foi encaminhada para uma entrevista, e no mesmo dia começou a trabalhar. Virou garçonete do bar Garota do Pechincha, em Jacarepaguá. Ela mora com a mãe na Cidade de Deus e tem um filho de quatro meses.

"Precisava de emprego por causa do meu filho. Mas estava muito difícil arranjar", conta Bárbara, que estudou até o primeiro ano do ensino médio.

Qualificação

Também da Cidade de Deus, Márcia Gorete já havia trabalhado como auxiliar de cozinha no refeitório de uma fábrica na Estrada dos Bandeirantes, perto da comunidade, mas estava desempregada havia nove anos.

Márcia Gorete conseguiu emprego em refeitório de creche

Em outubro do ano passado, a inauguração de uma creche gerou 60 empregos na comunidade e Márcia foi uma das contratadas.

"Pensava que nunca mais ia conseguir emprego. Foi uma bênção mesmo para mim", diz ela, que agora trabalha preparando a refeição das crianças de quatro meses a quatro anos da creche.

No Morro da Babilônia, na zona sul, a moradora Nívea Mendes diz que lá, também, se vê um novo fluxo de empregos.

Ela coordena a CDI Comunidade Dignitá na Babilônia, uma parceria entre duas ONGs para promover a inclusão digital, palestras e cursos de qualificação.

Apesar de considerar as iniciativas bem-vindas, ela cobra esforços para habilitar moradores a empregos mais qualificados.

"O pessoal acha que quem mora na comunidade só serve para ser auxiliar de serviço. Os cursos que o governo oferece são de camareira, de auxiliar de barman... Entendo que isso é por causa do nível de educação. Mas por que então não colocar uma boa escola, um bom curso de profissionalização?", questiona.

"A minha reivindicação maior agora é essa. A comunidade precisa se educar e qualificar para ter emprego", completa a moradora. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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