Capitão comanda marcha de 10 dias que acaba em massacre final e vitória

Na ofensiva liderada pelo capitão Potyguara, soldados queimaram 5 mil casas e mataram 600 cablocos

Leonencio Nossa e Celso Júnior

11 Fevereiro 2012 | 18h42

O plano do general Setembrino de Carvalho de atacar Santa Maria por meio de quatro colunas em direções diferentes não se cumpriu. O reduto que se espalhava por uma serra seria liquidado por apenas um destacamento. Se os "pelados" (rebeldes) tinham sua tropa de elite, os "pares de França", os "peludos" (militares) partiriam para o massacre da "cidade santa" com um grupo especial.

 

O destacamento seria comandando pelo capitão cearense Tertuliano de Albuquerque Potyguara, 42 anos, que havia se destacado nas primeiras ações da campanha de Setembrino no Contestado. Potyguara conquistou a confiança do general em poucas semanas. O capitão estaria integrado oficialmente à Coluna Norte, comandada pelo coronel Manoel Onofre Muniz Ribeiro, na prática, porém, Potyguara teria poder próprio na chefia de um grupo de cerca de 500 militares e 110 vaqueanos, guias, mateiros e pistoleiros das fazendas.

 

Há duas versões para o que se sucedeu naqueles dias no Contestado. Setembrino decidiu dar poderes especiais a Potyguara e a missão de atacar sozinho o reduto de Santa Maria, após o fracasso de uma missão de ataque em fevereiro, pelos homens do coronel Francisco d´Estillac Leal, comandante da Coluna Sul. Dessa vez, a coluna de Estillac apenas daria apoio a Potyguara. Outra versão é que Potyguara, deveria ter se juntado à Coluna Leste, do coronel Julio Cesar Gomes, na localidade de Chico Melo, quilômetros antes de Santa Maria, mas decidiu tomar outro rumo e partir sozinho para a "cidade santa", surpreendendo a Coluna Sul, de Estillac Leal, que deveria tomar a frente do ataque a Santa Maria. Numa versão ou na outra, o capitão optou em fazer uma marcha forçada e sem descanso.

 

Potyguara pôs sua tropa no caminho de Santa Maria, enquanto os demais 6.500 homens do Exército permaneciam estáticos em seus acampamentos em Canoinhas, União da Vitória e nas matas ao redor da "cidade santa".

 

Na manhã da Quinta-Feira Santa, 1º de abril, Potyguara e seus homens foram surpreendidos por rebeldes na área do rio Caçador Grande. Mais de mil caboclos estavam nos morros e despenhadeiros. Os rebeldes atiram. Os militares reagem. Na travessia do rio, Potyguara perde seu cavalo, acertado por uma bala. Ele escreveria mais tarde ao general Setembrino que o animal recebeu um tiro na testa na "terrível passagem pelo rio Caçador", durante o "horroroso fogo que nos fazia o traiçoeiro inimigo, composto de mais de mil homens numa extensão de mais de mil metros da margem opposta".

 

Após a travessia do rio, os militares mataram uma centena de rebeldes. Caía morta a virgem Maria Rosa. A virgem era a líder da área do Rio Caçador, poder que lhe restara desde que foi substituída por Francisco Alonso no comando-geral do movimento. Potyguara perdeu seis homens. À noite, parou para dormir nos escombros do reduto de Maria Rosa, em meio a corpos e cinzas de casebres e ranchos.

Na Sexta-Feira da Paixão, Potyguara entrou no reduto do coronel Aleixo, numa prévia da tomada de Santa Maria. Os militares bombardearam as barracas. Rebeldes tentarm reagir.

 

Ao relatar ao coronel Manoel Onofre Muniz Ribeiro, em 20 de abril de 1915, a tomada do reduto do Aleixo, Potyguara escreveu que os caboclos eram degoladores. "Foi tal a impetuosidade do ataque dos bandidos e tão grande era o número d´elles que chegavam a intrevellar com a nossa força em altos gritos de Degola! Degola! Matando nos primeiros encontros picados a facão 4 homens da minha vanguarda, ficando os cadáveres em estado lastimável", escreveu. "No entanto, a revanche não se fez esperar, os nossos bravos sedentos de vingança atiravan-se contra os grupos de facínoras de facão e bayoneta armada, em poucos minutos, numa lucta titânica e heróica, via-se grupos de cadáveres de jagunços completamente desfeitos, pela acção terrível da bayoneta e dos afiados facões dos nossos bravos."

 

Nos relatórios do Exército sobre o Contestado, há poucas referências a ataques militares com canhões e metralhadoras. Os oficiais preferiram descrever "memoráveis" e "titânicas" batalhas a facões e baionetas - pequeno sabre - contra os jagunços "facínoras". Não há referências à prática de degola por parte dos militares.

 

O capitão deu um tom épico à sua ação. "Passados os primeiros instantes desta loucura humana que só a penna brilhante de um Euclydes da Cunha poderia discrevel-a em linguagem precisa e impressionante, ordenei o socorro aos feridos e, apóz o combate, o enterro dos nossos bravos mortos e o desarmamento dos 85 bandidos que jaziam no solo completamente desfigurado; depois de um descanso de 30 minutos enquanto eu mandava avançar o comboio e os feridos da retaguarda, preparava de novo a minha vanguarda para entrar de assalto no grande reducto denominado do "Aleixo"."

 

Aleixo conseguiu escapar. A tropa de Potyguara dormiu nos escombros do reduto rebelde. Na manhã do Sábado de Aleluia, 3 de abril, o capitão retomou a marcha em direção a Santa Maria. As baixas no grupo do capitão chegavam a cem, incluindo mortos e feridos.

 

Fazia dez dias que a tropa tinha percorrido 114 quilômetros quando, ainda pela manhã daquele sábado, o grupo de Potyguara se aproximou da "cidade santa". À espera dos militares estavam atiradores, que se entrincheiraram nos despenhadeiros do caminho para Santa Maria. Dezenas de caboclos foram metralhados. Potyguara perdeu mais sete homens.

 

À tarde, o capitão entrou em Santa Maria. Homens, mulheres e crianças já estavam escondidos na mata em volta. Na Tapera, um acampamento improvisado, a seis quilômetros do reduto, estavam o coronel Estillac Leal e seus dois mil homens. Estillac Leal foi encarregado de dar suporte a Potyguara e participar da ofensiva final. A Coluna Sul havia disparado algumas cargas de tiros de metralhadoras nos rebeldes, que não se intimidaram, reagindo com balas de winchester. Estillac Leal estava sem ação.

Logo, Potyguara percebeu que estava cercado pelos rebeldes, entrincheirados na mata. Da floresta, os caboclos atiravam. Foi uma noite de tiroteios esparsos. Pela manhã, o capitão mandou 30 homens furarem o cerco rebelde para levar uma carta a Estillac Leal. Ele pedia socorro e informava que as munições e a comida estavam acabando. À espera do reforço de Estillac Leal, o capitão e seus homens travaram no do Domingo de Páscoa, 4 de abril, mais trocas de tiros com os rebeldes. O apoio não apareceu. Estillac Leal foi humilhado dentro do Exército, ganhando fama de homem gentil e comandante de soldados derrotados.

 

Filhos do diabo. Em seu relatório, Potyguara descreveu que a tropa perdeu o seu único médico, Souto Castagnino. "Às 13 horas (dia 4) fallecia o valoroso Dr. Souto Castagnino, cercado dos gemidos e dos lamentos dos nossos bravos, auxiliada toda esta fúnebre orchestra, com o urro dos innumeros animaes que feridos mortalmente iam pouco a pouco morrendo sem que ao menos se podesse afrouxar algumas silhas apertadas sobre as suas carnes doloridas", relatou.

 

Potyguara continua seu relato épico. "A nossa resistência homérica havia por certo espantado aqueles homens assassinos, pois era a primeira vez que uma força do Exército atravessava uma zona daquellas, de 19 léguas, dominada por elles, que a consideravam invulverável, sendo de admirar que este pequeno destacamento nunca desse um recuo nem houvesse o menor desfalecimento por parte dos mais fracos soldados ou vaqueanos. Nos seus cérebros embotados pelo crime, elles talvez nos julgassem filhos do diabo vindos do inferno, pois jamais viram brigar com tanta bravura, com tanta audácia e com tanta intrepidez."

 

Morreu também um líder de guias. "Às 14 horas fallecia o chefe vaqueano Leocadio Pacheco, que recebeu uma bala na testa, sendo o seu corpo sepultado perto de um pinheiro, próximo ao Dr. Castagnino, na baixada do comboio, como a baptisei. Approximava-se a tarde e já haviam sido enterrados os mortos e os 2/3 dos nossos bravos continuavam avançando em perseguição ao inimigo, que n´este momento só existia na nossa retaguarda e que já se sentia desanimado e desmoralizado com tantas perdas que sofrera, tendo se encontrado próximo às trincheiras 75 mortos, quase todos ainda armados."

 

No final da tarde de domingo, uma parte dos homens da Coluna Sul, cerca de 600, chegaram para reforçar o grupo de Potyguara. Os militares tomam todo o reduto de Santa Maria. Os rebeldes se afastaram. Adeodato, chefe dos caboclos, e integrantes de sua tropa de elite escaparam pela mata. Em meio à fumaça e ao barulho do bombardeio, grupos de mulheres e crianças esquálidas se aproximaram dos atiradores para se render. Os últimos atiradores rebeldes abandonaram suas armas.

 

Nas primeiras horas da Segunda-Feira, enquanto uma parte dos soldados reunia os prisioneiros numa clareira na mata, outro grupo manteve a ofensiva contra rebeldes que escapuliam e um terceiro já colocava fogo nos casebres de palha e saqueavam barracas.

 

Os dez dias de marcha de Potyguara foram de destruição e sangue, nas palavras do próprio capitão. "Queimamos perto de 5.000 casas e ranchos de palha e matamos em combate uns 600 jagunços, além do grande numero de feridos que naturalmente tiveram, decido aos innumeros rastilhos de sangue deixados pelos bandidos nas matas."

 

Telegrama."Vosso esposo escreveu página brilhante na história", disse o general Setembrino à mulher de capitão Potyguara. Logo após a tomada e destruição de Santa Maria, em abril de 1915, o general Setembrino de Carvalho, escreveu à mulher do capitão que arrasou o reduto rebelde para parabenizar a família pela postura do oficial do Exército. "Madame Capitão Potyguara, peço permissão para apressentar a VEx. effusivas felicitações pelo feito brilhante da colluna sob o commando do vosso heróico esposo, capitão Potyguara, que escreveu uma página brilhante na história militar", escreveu.

 

Potyguara havia escrito dias antes a Setembrino, também em telegrama, que a situação da tropa após o combate de Santa Maria era delicada. O capitão destacou que o grupo tinha perdido 19 cavalos e estava "a pé". "O meu pessoal se acha completamente cansado e estropiado, motivo pelo qual peço-vos ordem para seguir com todo meu destacamento com urgência para Porto União", solicita o capitão.

 

No telegrama, o capitão informa que entre os chefes jagunços mortos pelas tropas estava Elias de Moraes, que exercia o poder morador no movimento caboclo. Também tinham morrido nos combates Manoel Machado, Olegário, Joaquim Luiz e Bento Ferreira. Todos teriam sido reconhecidos pelos "vaqueanos" que serviam de guia e apoio para o Exército.

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