Wilson Pedrosa/Estadão
Wilson Pedrosa/Estadão

Campanha na prisão rende novo mandato a Lula Cabeleira

Político de Delmiro Gouveia enfrentava suspeita de participar da morte de vereador

Leonencio Nossa - O Estado de S.Paulo

12 Outubro 2013 | 16h00

Luiz Carlos Costa, o Lula Cabeleira, é um sertanejo baixinho, que fala pouco, olha desconfiado até para os mais íntimos e não sai de casa sem fincar medalhas de santos na camisa engomada. Calvo, herdou o apelido Cabeleira de um irmão, Ernesto Cabeleira, que causou espanto no sertão conservador quando, na adolescência, deixou os cabelos crescerem. O estilo introspectivo não impediu que Lula conquistasse no ano passado, pelo PMDB, o quarto mandato de prefeito de Delmiro Gouveia, maior cidade do semiárido alagoano, de 48 mil moradores.

Ele foi motorista de táxi e caminhoneiro. Depois de rodar o Brasil, voltou ao sertão com uma frota de dez carretas. Antes de entrar para a política, já era dono de quase toda Delmiro Gouveia. Em 1996, com a morte do chefe político local, José Bandeira, Cabeleira concorreu pela primeira vez a prefeito e se elegeu. Voltou a ganhar em 2000, 2008 e 2012. A eleição mais difícil foi em 2008, quando fez parte da campanha preso.

A Polícia Civil apontou sua participação no consórcio liderado pelo então deputado estadual Cícero Ferro, que teria matado o vereador Fernando Aldo.

O Supremo Tribunal Federal rejeitou pedido de impugnação da candidatura de Lula Cabeleira baseado na Lei da Ficha Limpa. E a Justiça de Alagoas avaliou que não havia prova de ligação dele com os matadores.

A presidente Dilma Rousseff, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e o senador Fernando Collor (PTB-AL) já participaram de eventos eleitorais do prefeito. Foi na casa dele que Renan comemorou, no ano passado, o aniversário.

Em janeiro, o Estado teve acesso ao gabinete do prefeito. "É a primeira vez que eu dou uma entrevista", disse. Foi questionado sobre o suposto envolvimento na morte de Aldo. Reclamou de armação política. "Isso não só me prejudicou politicamente, como moralmente e mentalmente. Nunca tive história de violência na vida. Fiquei machucado."

Uma assessora demonstrou nervosismo com a conversa, mas Lula Cabeleira aceitou falar sobre o que nunca havia comentado. Na época do crime, foi aconselhado a fugir. "Não saio de Alagoas, porque não devo."

O prefeito não usa a origem pobre na política. A falta de diploma nunca foi um valor em seus raros discursos. Na campanha passada, destacou a construção de um câmpus na cidade, parceria com o governo federal. Para viabilizar o projeto, doou um terreno da família. Não fará falta. À Justiça, ele declarou patrimônio de R$ 8,5 milhões - foi o candidato mais rico do interior de Alagoas. Tem maioria na Câmara e estima-se que seja dono de 50 mil votos no sertão.

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