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Brasileiro ainda não sabe com quem mudar

José Roberto de Toledo

O desejo de mudança ou de continuidade é o principal motor de qualquer eleição. Quando o eleitor expressa a vontade de não mudar as coisas, quase sempre o governante acaba reeleito. Quando a maioria quer mudar, aumenta o favoritismo da oposição - mas nem sempre, porém, um candidato oposicionista ganha. Às vezes, o eleitor calcula que o risco de perder o que sobrou não vale a aposta no que ele pode ganhar com a mudança.

O Brasil teve eleições presidenciais em que a ideia do “em time que está ganhando não se mexe” levou o governo à vitória. Foram os casos de 1994 (Fernando Henrique Cardoso era o candidato de Itamar Franco e o pai do real) e de 2006 (reeleição de Lula). Na disputa de 2010, 63% dos eleitores diziam que queriam pouca ou nenhuma mudança no governo. Dilma Rousseff (PT) acabou eleita como uma prorrogação de Lula.

Houve apenas dois candidatos oposicionistas que venceram impulsionados pelo desejo de mudança: Fernando Collor em 1989 e Lula em 2002 (com o seu “a esperança derrotou o medo”).

Mas também houve uma eleição em que muitos brasileiros queriam mudança, porque a economia ia mal, mas o governo venceu. Foi em 1998. Fernando Henrique foi reeleito, derrotando Lula pela segunda vez seguida, porque a maioria achou que o risco de mudar para um governo petista era ainda maior do que o de permanecer com um governo tucano. O medo bateu a esperança.

Em 2014, dois em cada três eleitores têm dito e repetido ao Ibope que querem mudar tudo ou muita coisa no governo federal. Então, como é possível que Dilma continue liderando as pesquisas de intenção de voto? A presidente tem o voto de 7 a cada 10 dos que querem continuidade. Isso seria insuficiente para garantir sua reeleição, pois o minoritário contingente de eleitores continuístas é cada vez menor.

Dilma segue na liderança porque 1 a cada 4 eleitores que querem mudanças declara voto na presidente. Eles são responsáveis por quase metade das intenções de voto da candidata governista. E por que eleitores que querem tanto mudar ainda declaram voto nesse mesmo governo? As pistas para responder a essa pergunta estão entremeadas nas reportagens que compõem este caderno especial.

Não há uma resposta única. Os motivos variam de região para região, de classe social para classe social. Muitas vezes, a mesma razão que leva um eleitor a querer mudança - a piora da percepção sobre a economia - é motivo para ele não querer arriscar seu voto num novo presidente. Ele se apega ao que ainda tem e se torna eleitoralmente conservador. É o medo.

Não por acaso, o discurso eleitoral ensaiado pelos marqueteiros do governo durante a mais recente propaganda do PT no rádio e na TV advertiu os eleitores para o suposto risco de eles perderem, por exemplo, o Bolsa Família. É uma reedição, 16 anos depois, do discurso tucano que reelegeu Fernando Henrique em 1998. Naquela vez, o fantasma era a perda da estabilidade econômica. Agora, são os programas sociais.

Reflexos desse temor se espalham até pelo discurso dos candidatos de oposição. Para contrapor-se a Dilma e diferenciar-se da novidade simbolizada por Eduardo Campos (PSB), Aécio Neves (PSDB) diz que ele representa a mudança com segurança. Hoje, o tucano tem uma penetração equivalente à de Dilma no eleitorado mudancista - 25%, contra 27% -, enquanto o candidato do PSB tem apenas 14% nesse segmento.

Para mudarem essas proporções a seu favor, os oposicionistas terão de convencer o eleitor de que mudar vale a pena, de que o risco de ele perder o que conquistou é menor do que o de ganhar votando na oposição. Ao mesmo tempo, Dilma vai usar Lula em sua campanha para dizer que ela é capaz de promover os necessários ajustes de curso sem afundar o barco de vez.