Brasil pequeno

Os dias correm contra Temer, mas não é ele quem paga a conta

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

17 Julho 2017 | 05h00

O tempo é o maior inimigo de Temer. Para fechar um bom negócio -  foi a isso que a política brasileira se reduziu -, a primeira pergunta é: "O tempo corre a favor de quem? Do comprador ou do vendedor?". Na barganha pela Presidência, Temer tem muito mais pressa e urgência do que Rodrigo Maia. Cada semana traz a promessa de novas delações contra o presidente. Simultaneamente, projeções do próprio governo mostram a economia encolhendo, encolhendo. Tudo tende a piorar, é questão de tempo.

Sabendo disso, o procurador-geral Rodrigo Janot fatiou a denúncia contra Temer. Significa que os deputados alugados pelo Planalto terão que se desgastar múltiplas vezes ao declararem voto no presidente mais impopular desde Sarney. Três vezes, até. Os mais malandros faltarão na primeira votação. Ausentar-se em todas, porém, só os candidatos ao Oscar de cara-de-pau coadjuvante. Quem quiser safar a sua terá que dá-la a bater.

Mas demonstrações públicas de coragem estão encarecendo. Depois do recesso de julho, os deputados voltarão a Brasília com uma medida precisa do tamanho da resistência de suas bases eleitorais ao apoio que venderam ao presidente. A chance de não entregarem o prometido à Turma do Pudim aumenta. O bilhão de reais em emendas parlamentares liberado por Temer pode revelar-se o mais inútil da dispendiosa história parlamentar nativa.

Na semana em que o governo comemorou a condenação de Lula e a vitória na Comissão de Constituição e Justiça durante votação da denúncia contra Temer, a maior derrota foi do Planalto. Os pudinzeiros queriam votar a denúncia também no plenário da Câmara, rejeitá-la antes do recesso. Comandante da Casa, Maia jogou parado, como de hábito, e deixou o tempo correr. O governo não conseguiu reunir deputados suficientes para antecipar a votação. Ela ficou, na melhor das hipóteses, para agosto.

Corre o tempo, escorre a sorte de Temer. Novas denúncias vêm aí. Com elas, mais detalhes das tenebrosas transações, mais malas de dinheiro, mais noticiário negativo para a turma engolir. Haja pudim. Se sobreviver à primeira, Temer terá chances cada vez menores de sobrevivência nas subsequentes. O planador presidencial faz piruetas enganadoras, sugerindo um voo sustentado, mas quem paira sem motor sempre termina no chão.

Se o destino é previsível, o custo do passeio temerário é crescente e exponencial. Quem há de investir no Brasil se não pode garantir quem ocupará a Presidência daqui a três meses? 

A política sequestrou a economia e não vai libertá-la enquanto não se encontrar solução para a crise. Não a deflagrada pelas investigações da Lava Jato, mas a crise de representação. O sistema eleitoral e partidário que perpetua currais dinásticos e multiplica siglas de aluguel é o maior entrave à modernização do Brasil. Reformar a política é mais urgente que qualquer reforma.

Mas não há grupo de interesse agindo para restringir o número de partidos, não há lobby para diminuir a influência do dinheiro no resultado da eleição, não há pato, prêmio ou panela que pressione os políticos a diminuírem seus privilégios. Nem Temer nem Maia nem nenhum interino vai patrocinar essa reforma. Muito ao contrário, são criaturas e criadores desse sistema.

Os dias correm contra Temer, mas não é ele quem paga a conta. Quem perde tempo é o País. Tempo e dinheiro. A economia definha, a receita escasseia. Falta verba para passaporte, para a polícia, para cultura, para aposentadoria. Direitos emagrecem. Áreas de proteção da floresta amazônica encolhem. Tudo se reduz, na mesma proporção da vergonha dos poderosos. O Brasil se condena a ficar do tamanho de seus governantes.

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