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Bornhausen sai da cena política e diz que oposição está sem líder

Christiane Samarco, de O Estado de S. Paulo

10 Maio 2011 | 23h 30

Para o ex-presidente nacional do DEM, nem Aécio e nem Serra preencheram vácuo deixado por Fernando Henrique Cardoso

O ex-presidente nacional do DEM, Jorge Bornhausen, deixa o partido e a atividade política convencido de que a oposição está sem rumo e sem líder. "Houve um vácuo na oposição e a liderança do presidente Fernando Henrique Cardoso ainda não foi preenchida", diz Bornhausen, para quem nem o tucano José Serra, nem o senador Aécio Neves (PSDB-MG) conseguiram se credenciar como líderes da oposição.

 

A seu ver, o maior equívoco dos três partidos de oposição - DEM, PSDB e PPS - foi o de se meterem em disputas internas. "Com isto, estão perdendo, a oportunidade de formar uma única agremiação e de ter as condições necessárias para atuar como oposição responsável e fiscalizadora", analisa. Em entrevista ao Estado, ele admite que a fusão não teria impedido a criação do novo PSD, mas afirma que certamente a nova legenda não teria crescido como cresceu. A seguir, a íntegra da entrevista.

 

Depois de fazer a dissidência, criar o PFL e fundar o Democratas, não é frustrante ver o DEM esvaziado e com dificuldade de sobreviver?

Nós criamos uma dissidência em um ato de coragem, porque todos estávamos sujeitos à perda de mandato, e conseguimos formar a Aliança Democrática junto com o PMDB, para eleger Tancredo Neves. Isto possibilitou uma bela página na história brasileira, que foi a transição para a democracia plena. Tivemos outras vitórias, mas eu destacaria a eleição de 1994, como passo fundamental para que Brasil pudesse ter uma moeda estável e derrubar a inflação, com o apoio do PFL. Em 2006, quando decidi não mais disputar eleições para abrir espaço a uma nova geração no Estado, também dei um passo para a renovação do partido e para sua denominação definitiva, que foi o DEM. A partir daí, minha participação passou a ser mais de conselheiro, que qualquer outra coisa. Agora, dou por concluída também a minha vida partidária.

 

O senhor acha que cometeu algum erro na sua sucessão?

Erro todos nós cometemos, mas não é hora de fazer balanços nem de culpar quem quer que seja. Eu desejo que o Democratas encontre um caminho e possa continuar sua existência como um partido político respeitável. Não é hora de voltar para trás e provocar discussão, mas de desejar sucesso a um homem de grande valor na vida pública, que é o presidente do DEM, senador José Agripino (RN), e ao presidente do Conselho Político do partido, Marco Maciel, que considero o político mais completo e de qualidade da minha geração.

 

O que ocorreu com a oposição que, depois da terceira derrota, passa à opinião pública a imagem de estar se dissolvendo, quando o PT só se fortaleceu com as três derrotas do Lula?

Hoje, na verdade, o grande líder da oposição no Brasil ainda é o presidente Fernando Henrique Cardoso e ele já não tem mais a atuação partidária e eleitoral que possa dar fôlego á oposição. Ele foi injustiçado até por parcelas da própria oposição que não sustentaram os grandes feitos do seu governo.

 

O senhor está dizendo que a oposição está órfã de um grande líder nacional que a conduza?

Houve um vácuo na oposição e a liderança do presidente Fernando Henrique ainda não foi preenchida.

 

Mesmo sendo mais identificado com o grupo de José Serra, o senhor fez o gesto de aproximação do senador Aécio Neves. Depois da conversa com ele, como o senhor vê a liderança de Aécio no cenário futuro?

Eu respeito os dois como políticos de sucesso, um como governador de Minas e outro de São Paulo. Na eleição, eu sempre achei que a vez era do Serra em função das pesquisas eleitorais. Posso até ter me equivocado porque não ganhamos, emas eu respeito a posição dos que achavam que Aécio era o melhor candidato. Cabe ao PSDB, afinal, dizer quem é o líder e quem vai ser o candidato.

 

Hoje setores majoritários no DEM e no PSDB dizem que o favoritismo de Serra se inverteu e Aécio está em vantagem. O senhor pensa assim?

Eu acho que será o líder aquele que souber melhor se conduzir daqui até 2014.

 

Mas a avaliação geral é de que existe uma fila e Aécio está na frente.

Não é uma questão de fila. Ser o Aécio tivesse sido candidato a vice-presidente da República, esta fila seria automática. Mas acho que até o Serra teria ganho a eleição.

 

Como grande crítico do presidente Lula, passados quatro meses de governo o senhor acha possível dizer que a presidente Dilma é diferente?

Acho que ela tem agido de forma racional, técnica e procurando gerenciar o governo, ao contrário de seu antecessor que era espetaculoso e não tinha compromisso com a verdade nem com a postura do cargo. Neste período de carência de início de governo ela está tendo um comportamento adequado, em uma luta muito forte contra a inflação, com a vantagem de ter a seu lado um político muito hábil e experiente, que pode ajudá-la muito, que é o ministro Palocci.

 

O presidente Lula fez campanha em Santa Catarina pregando a extinção do DEM, que venceu as eleições. Porque o partido vencedor está acabando no Estado?

Assim como eu, o nosso grupo, liderado pelo governador Raimundo Colombo, entendia que o correto seria a fusão das oposições, transformando os três partidos de oposição em um grande partido, com um belo tempo de televisão, um bom fundo partidário. Desta forma, poderia praticar a receita dada à oposição pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, no artigo que foi mal compreendido. Mas havia resistência em todas as legendas e eu não tinha como não liberar os companheiros para decidir fazer o que era preciso. Eles decidiram ir para o PSD e eu decidi encerrar minha atividade na vida partidária.

 

Tem espaço para três partidos de oposição na vida política nacional hoje?

Nesse momento, os partidos de oposição estão divididos externa e internamente e, com isto, não estão cumprindo sua razão de ser ditada pelas urnas: quem ganha governa, quem perde faz oposição. Metidos em disputas internas, os partidos estão perdendo a oportunidade de formar uma única agremiação e com isto ter as condições necessárias para atuar como oposição responsável e fiscalizadora. FHC fez a radiografia perfeita da oposição e deu a receita que muitos não entenderam.

 

Se dividida já estava difícil, como será agora com no PSD, que já nasce sem feições definidas, na medida em que não é governo nem oposição?

Você tem que perguntar a quem está ingressando nesse partido, o que não é meu caso. Eu estou me retirando da vida partidária, depois de já ter me retirado da vida política eleitoral. O futuro vai nos dizer se eles estão certos ou errados. Eu não tenho razão para incriminar os que tomam esta atitude, que foi muito pensada. Eles devem ter olhado bem mais à frente do que eu posso enxergar em matéria política (risos)

 

Mas o senhor é o conselheiro deles todos...

Eu considero que a vitória do meu querido amigo Raimundo Colombo foi a transferência definitiva da liderança em Santa Catarina. Portanto, hoje eu sou um liderado dele e acatei a decisão dele. Só não vou tomar uma posição partidária porque não cabe mais na minha vida pública uma outra iniciativa partidária. Mas sou solidário com meus companheiros de Santa Catarina.

 

Isto quer dizer que o PSD não é uma iniciativa partidária nos moldes que o senhor idealiza, mas apenas o possível de se fazer no momento? É isso?

Aqueles que estão ingressando no PSD, tomaram uma decisão por diversas razões.

 

Uma delas, dizem eles, é porque o DEM não tem futuro. O senhor concorda com este veredito?

Não posso concordar nem discordar. Espero que tenha futuro. Não posso desejar o contrário. Agora em Santa Catarina, minha posição é de inteira solidariedade com o governador.

 

Mas o senhor acredita que os três partidos possam sobreviver na oposição? O DEM minguado não é o que corre mais risco de sobrevivência?

Não sei. O que eu acho é que a visão menor tem prevalecido, com exceção de figuras ilustres como FHC, Marco Maciel e José Agripino. A opção de uma fusão partidária ainda me parece muito distante.

 

O governador Colombo colocou que, se houvesse ele não sairia do partido. Com a fusão teria havido PSD?

Se houvesse a fusão o PSD não teria crescido como cresceu.

 

Políticos do seu grupo dizem que a liderança do ex-governador José Serra está minguando junto com o DEM. O senhor concorda?

Não posso fazer avaliação de lideranças da política nacional. A vida política se modifica dia-a-dia. A política é arte dinâmica e a popularidade é uma gangorra que sobe e desce. Fazer uma previsão agora sobre um político nacional em relação ao que vai ocorrer em 2014 seria de minha parte uma leviandade.

 

Mas seus companheiros entendem que existe uma fila no PSDB e que Serra não está mais na frente. O primeiro lugar estaria com Aécio Neves.

O que é hoje pode não ser amanhã. Não há nada como aguardar. Antes de 2014 haverá 2012. Eu espero que a oposição construa um nome que possa ser eleitoralmente capaz de disputar de igual para igual uma eleição.

 

O PSD estará nesta construção ou já tomou outro caminho?

Não posso falar pelo PSD porque não estou em seus quadros nem vou ingressar. Mas eu considero o prefeito Gilberto Kassab um político muito hábil e inteligente, e ele tem colocado que o caminho para o qual se prepara o PSD é 2018.

 

Dirigentes do DEM dizem que Serra está por trás do PSD. Estão corretos?

Não acompanhei isto tão de perto, embora também não tenha sido coadjuvante nesse processo de fundação do PSD. Apenas quando procurado por companheiros de partido, ajudava-os a ver sua própria posição, cada um com suas circunstâncias. Em momento algum vi o ex-governador José Serra participar de atividades de criação do PSD. Ele como eu fizemos força para que o prefeito Kassab ficasse no DEM.

 

Uns acusam Serra de estar por trás, e outros dizem que ele foi traído por Kassab. Afinal, ele traiu ou foi traído?

Nem traiu, nem foi traído, como também não foi surpreendido. Repito, ele fez um esforço para que Kassab permanecesse no Democratas.

 

O que determinou a saída de Kassab foi a briga interna com a direção de Rodrigo Maia ou a avaliação de que o DEM não tinha futuro?

Vários fatores tiveram influências. Tanto as questões internas, quanto as de São Paulo. De minha parte, ele disse que ficaria no partido se eu fizesse um apelo e eu respondi que não cometeria um abuso de amizade. Eu tinha mais de 70 anos e ele, 50. Ele que tinha que ver o futuro dele, que não poderia ficar amarrado a uma amizade que muito me honra e é recíproca.

 

O senhor também não vê futuro no DEM.

Eu desejo que tenha futuro.

 

Deseja, mas não vê?

Eu desejo... e espero que venha a ter. Tudo é difícil, mas nada é impossível.

 

Quem é o dono do PSD? É o Kassab?

Partido não pode ter dono. Tem líder. Quem iniciou o processo foi o prefeito Kassab, que é um dos principais líderes. Mas não é o dono.

 

O talento político de Kassab já está comprovado. Mas sem ter a força do caixa da prefeitura de São Paulo por trás, seria possível partir para esta empreitada de construir um novo partido?

Em primeiro lugar, devo dizer que não há uso de caixa da prefeitura. Ele é um político correto, que cumpre bem o seu mandato. Evidentemente, o cargo que ele ocupa - primeiro fruto de uma substituição e, depois, de uma vitória eleitoral - evidentemente dá a força política para com sua capacidade e habilidade, conseguir criar um partido mesmo sem ter tempo de televisão. Ele está criando uma legenda procurando líderes que já tem seu espaço e novos líderes que saberão cumprir seu papel na sociedade.

 

O DEM catarinense venceu o Lula no confronto direto. No plano nacional, quem derrotou o DEM foi o Lula ou o Kassab?

Não posso dizer que o DEM está derrotado. Ele vive uma crise que nasceu do problema surgido em Brasília e que, de forma preconceituosa, foi denominado na imprensa Mensalão do DEM. Este episódio que levou a um desgaste de imagem profundo e repito, de forma incorreta, já que na ocasião o partido tomou as providências adequadas.

 

É difícil explicar que o presidente do Conselho Político do DEM, que é oposição, participa do conselho de duas companhias da prefeitura de São Paulo, quando o prefeito é apontado como predador do DEM?

Em primeiro lugar, quero dizer que presenciei o convite de Kassab, ainda no ano passado, quando ambos estavam no Democratas. Mas este convite não foi de ordem política. Foi feito a uma pessoa de vida pública exemplar, que foi presidente da Câmara, senador, governador, ministro e vice-presidente da República. Acho que é uma honra para os paulistanos ter uma pessoa da qualidade do senador Marco Maciel no conselho de uma empresa. Deveríamos é bater palmas pela escolha excelente que fez Kassab.

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