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Política

Brasília

Bastidores: O apelo dramático de Dilma, no auge da crise

Declaração da presidente de que 'não tem cara de quem vai renunciar' marca tentativa solitária de reação ao agravamento da crise política

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Vera Rosa,
O Estado de S. Paulo

11 Março 2016 | 15h37

Brasília - "Por favor, pelo menos testemunhem que eu não tenho cara de quem vai renunciar". A frase de Dilma Rousseff, dita com um sorriso nos lábios, marca a tentativa praticamente solitária da presidente de reagir  ao agravamento da crise política, na véspera da convenção do PMDB, que ameaça se afastar do governo.

Dilma ficou muito irritada com notícias dando conta de que renunciaria ao cargo. "Nunca isso me passou pela cabeça", assegurou a presidente. Dilma negou enfaticamente que esteja resignada e defendeu o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que teve a prisão preventiva pedida pelo Ministério Público de São Paulo e, ainda, é alvo da Operação Lava Jato.

Na prática, porém, o governo está atônito com os desdobramentos da crise política e não sabe mais o que fazer para evitar o impeachment.

Dilma sustenta que lutará com unhas e dentes para manter o seu mandato. Nos bastidores, no entanto, ela não esconde a decepção com aliados que já estão abandonando o barco, flertando com a oposição.

Foi nesse ambiente que ela decidiu dar uma entrevista, aconselhada pelo ministro da Educação, Aloizio Mercadante, na tentativa de mostrar que o jogo não acabou, embora os últimos lances pareçam dramáticos.

No Palácio do Planalto também existem dúvidas sobre a conveniência de puxar Lula para o governo. Apesar da pressão do PT, há uma avaliação de que isso poderia ser um "tiro no pé" e agravar ainda mais a crise num momento em que novas delações premiadas são aguardadas e podem complicar ainda mais a vida do governo.

Lula telefonou nesta sexta-feira pela manhã para o ministro da Casa Civil, Jaques Wagner, e novamente disse que não aceita ocupar a sua cadeira, uma das ofertas postas na mesa. Amigos do ex-presidente afirmam que ele resiste porque não quer usar cargo no governo como salvo-conduto para se proteger de investigações e ganhar foro privilegiado em eventual julgamento.

Muitos dizem, ainda, que Lula só aceitaria ser ministro se tivesse carta branca para fazer mudanças nos rumos do governo, principalmente na política econômica, o que acabaria provocando constrangimento para Dilma.

Apesar da divisão de opiniões, a maior parte dos dirigentes do PT avalia que somente Lula ainda poderia salvar o governo de Dilma. Nas fileiras do PMDB, os comentários são de que a presidente vive situação "insustentável".

Diante dessa perspectiva de afastamento do maior aliado do governo, Dilma e ministros do PT estão conversando com o vice Michel Temer, presidente do PMDB, e com outros líderes do partido no Congresso. O Planalto faz forte apelo ao PMDB para mais uma chance.

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