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Política

Delcídio Amaral

Base vê acordo entre Delcídio e Renan

Setores do PT e do PMDB avaliam que petista poupou presidente do Senado, também investigado pela Lava Jato, no depoimento prestado à PGR

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Vera Rosa Ricardo Brito / BRASÍLIA,
O Estado de S.Paulo

04 Março 2016 | 07h25

O senador Delcídio Amaral (PT-MS) poupou o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), nas tratativas do acordo de delação premiada com a força-tarefa da Lava Jato. No Palácio do Planalto e no Congresso, ministros e uma ala do PMDB dizem que isso foi feito porque Delcídio tinha uma espécie de “pacto” com Renan, pelo qual o colega trabalharia para convencer os senadores a absolvê-lo no Conselho de Ética. Em troca, o ex-líder do governo não o citaria na delação sobre o esquema de corrupção na Petrobrás.

Em conversa na manhã de ontem com o senador Telmário Motta (PDT-PR), Renan disse que o caso envolvendo o processo de quebra de decoro parlamentar de Delcídio é “muito diferente” daquele protagonizado por Demóstenes Torres (sem partido-GO), que foi cassado em 2012 sob acusação de usar o mandato para defender interesses do contraventor Carlinhos Cachoeira.

“Demóstenes era um senador antipatizado”, disse Renan a Telmário, escolhido para ser relator do caso de Delcídio. Apesar da defesa do presidente do Senado, Telmário deu sinais de que seu parecer será pela cassação do ex-líder do governo.

Tanto Renan como Delcídio negam qualquer acerto nos bastidores. O senador petista desmente até mesmo que tenha feito acordo de delação premiada, mas, de segundo informações obtidas pelo Estado, ele passou quadro dias relatando fatos com potencial de destruir o governo ao Ministério Público. No depoimento, atirou na direção da presidente Dilma Rousseff, do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, de parte do PMDB e da oposição, escancarando o funcionamento do esquema de desvios na Petrobrás.

Avisados de que o teor do depoimento do ex-líder do governo no Senado era explosivo, parlamentares do PMDB que teriam sido citados por Delcídio se rebelaram. Renan, também alvo da Operação Lava Jato, avisou então ao senador petista que não será fácil absolvê-lo no Conselho de Ética da Casa.

Depois desse alerta, Delcídio tentou recuar, uma vez que a colaboração não havia sido homologada pelo Supremo Tribunal Federal. “Todo mundo que me conhece sabe que eu nunca chantageei nem ameacei ninguém e não vou mudar depois de velho”, afirmou ele ao Estado, no dia 22. “Eu posso ser tudo, menos chantagista.”

Foro. O movimento de Delcídio vem sendo feito para preservar o mandato e manter o foro privilegiado de julgamento, no Supremo Tribunal Federal. Se tiver o mandato cassado, o processo cairá nas mãos do juiz federal Sérgio Moro, do Paraná, conhecido por ser duro com os investigados da Lava Jato.

O problema é que o depoimento do senador à Procuradoria-Geral da República vazou para a revista IstoÉ, provocando uma reviravolta no caso. Dirigentes do PT avaliaram ontem que o vazamento partiu do Ministério Público, para criar um fato consumado contra Lula, o partido e o governo.

“Está claro que o senador Delcídio queria que seus colegas o salvassem no Conselho de Ética sem saber o que ele estava dizendo na delação”, afirmou o ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo, que ontem assumiu a Advocacia-Geral da União (AGU). “Ele queria ludibriar a todos para não ser cassado e, ao mesmo tempo, se vingar dos que não o salvaram.”

Cardozo disse que Delcídio mandou emissários procurá-lo, em janeiro, sob a alegação de que, se o governo não agisse para sua soltura, envolveria Dilma, Lula e o próprio ministro num escândalo sem precedentes. “Nós nada fizemos nem poderíamos fazer”, observou Cardozo. “Ainda hoje (ontem), quando foi informada sobre o teor das afirmações de Delcídio, a presidente Dilma Rousseff disse: ‘Nada disso para de pé’”. O novo ministro da Advocacia-Geral da União não tem dúvida, porém, de que o caso agravará a crise política. “Há muito tempo a oposição quer o impeachment e está à procura de um fato”, disse Cardozo.

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