Barômetro Político volta a mostrar o desencanto com o sistema

O monitoramento traduz com riqueza o humor da sociedade e nos dá pistas sobre o que podemos antever em termos de comportamentos e aspirações nacionais

Danilo Cersosimo, O Estado de S.Paulo

26 Novembro 2017 | 05h00

O objetivo do Barômetro Político Estadão-Ipsos é monitorar a percepção que a opinião pública brasileira tem dos principais atores políticos. É um importante termômetro no cenário das eleições de 2018, mas não se trata de uma pesquisa de intenção de voto. Aprovação ou desaprovação são medidas de imagem, que podem ou não serem convertidas em potencial eleitoral. Obviamente, os resultados indicam tendências nessa direção. Mais que isso, assinalam nomes com força para pautar a agenda, potencializar apoios políticos ou coligações e traduzir sentimentos da sociedade.

É interessante ressaltar que o Barômetro faz parte de um monitoramento de opinião pública mais amplo que é conduzido pela Ipsos desde abril de 2005, o Pulso Brasil. Esse conjunto de indicadores políticos, econômicos e sociais – muitos dos quais já publicados aqui no Estadão ao longo dos últimos anos – traduzem com riqueza o humor da sociedade e nos dão pistas sobre o que podemos antever em termos de comportamentos e aspirações nacionais.  

As figuras do Judiciário são um bom exemplo dessa tradução. A aprovação tanto de Sérgio Moro quanto de Joaquim Barbosa está em linha com o forte apoio da opinião pública à Lava Jato, o que via de regra resultou em forte aprovação a esses nomes (vistos como sinônimos do combate à corrupção aos olhos da opinião pública). Por outro lado, a desaprovação a outras personalidades do mesmo Judiciário pode ser interpretada pela descrença generalizada nas instituições. 

Os resultados do Barômetro Político Estadão-Ipsos de novembro mais uma vez exprimem o forte sentimento de antipolítica e de desencanto com o sistema, que toma conta dos brasileiros. 

A alta em aprovação do apresentador Luciano Huck, de 43% em setembro para 60% em novembro, é o melhor exemplo desse anseio de parte da sociedade, que prefere uma alternativa fora da política ou que rechaça as duas opções com maior potencial eleitoral nesse momento: Lula e Bolsonaro, a julgar pelas últimas pesquisas eleitorais. Cabe enfatizar que os bons resultados obtidos por Huck nessa tomada indicam simpatia a sua imagem, mas não necessariamente significa que ele seria eleito se as eleições fossem hoje – após a divulgação no Barômetro de novembro, Huck já sinalizou a pessoas próximas que não pretende concorrer.

O Barômetro Político Estadão-Ipsos de novembro mostra também a consolidação dos indicadores de aprovação de Jair Bolsonaro em 24% (com 60% de desaprovação), após uma sequência de crescimento desde abril deste ano. Já o ex-presidente Lula, que vem liderando as pesquisas de intenção de voto, conta com desaprovação similar (56%) e mantem-se numa aprovação crescente, agora com 43% – a maior de sua série histórica. Importante ressaltar que o ex-presidente teve desempenho parecido em março desse ano, que foi seguido por alguns meses de piora e retomada do crescimento da sua avaliação positiva a partir de agosto, tendo desde então convertido 10% de desaprovação em aprovação.

À luz do atual contexto, a análise dos dados e dos fatos da política indicam uma grande chance de convergências de forças políticas mais ao centro – o que quer que isso signifique no Brasil de hoje. A previsão de uma eleição altamente pulverizada em 2018 pode não se confirmar dependendo das costuras que estiverem sendo feitas nessa direção e da confirmação ou não do ex-presidente Lula no pleito.

*Danilo Cersosimo é sociólogo pela Universidade de São Paulo e mestre em Estudos Urbanos pela University College London (UCL). Atua há mais de 20 anos em pesquisa social e opinião pública.

 

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