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Marianna Holanda e Victoria Abel, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

06 Maio 2018 | 22h00

Relatórios produzidos por bancos internacionais para clientes e investidores estrangeiros apontam um elevado grau de incerteza no quadro eleitoral brasileiro e a preocupação com a “estagnação” de presidenciáveis da centro-direita, classificados como “reformistas”. A seis meses das eleições, a pulverização de candidaturas também gera apreensão em relação à disputa presidencial, conforme os documentos das instituições financeiras.

Nos últimos dias, o próprio presidente Michel Temer – que se coloca como pré-candidato à reeleição – passou a admitir a união do chamado centro político em uma candidatura competitiva. Temer e o ex-governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB), pré-candidato tucano à Presidência, voltaram a se aproximar.

Nos relatórios dos bancos, divulgados nas últimas três semanas, há uma clara preferência por aqueles presidenciáveis considerados “reformistas”.

Em um vídeo distribuído para clientes, o economista-chefe do BNP Paribas no Brasil, Marcelo Carvalho, resume o momento político em três questões principais: para onde vão os votos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – preso e condenado na Operação Lava Jato –; se o deputado Jair Bolsonaro (PSL) atingiu, de fato, o “teto” de votos; e se Alckmin pode ainda decolar.

“Historicamente, é por volta de abril e maio que o eleitor do Sudeste começa a olhar mais de perto para a eleição. A gente está olhando se nas pesquisas o Alckmin começa a subir até meados de maio”, disse Carvalho. No relatório, a instituição ainda coloca o ex-prefeito João Doria (PSDB) como alternativa na disputa presidencial.

No documento do banco americano JP Morgan, os analistas também demonstram preocupação com o fato de candidaturas de centro estarem estagnadas. “A baixa performance de todos os candidatos de centro reformistas reforça os desafios no nosso cenário de referências ‘market friendly’”, diz trecho do documento de seis páginas.

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O estrategista-chefe do banco Mizuho no Brasil, Luciano Rostagno, cita Alckmin e o ex-ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. “À medida que o Alckmin e o Meirelles não decolam nas pesquisas, estão estagnados com intenções de voto de um dígito, aumentam-se as chances de que se eleja um governo reformista, mas com base fraca no Congresso.”

Na mesma linha, o relatório do Banco Nomura defende que o discurso pró-reforma deve ser acompanhado de um partido robusto, com estrutura, e cita Alckmin como o candidato que melhor encaixa nesse perfil. “O mercado também olha para a plataforma de mais longo prazo do candidato, a história dele, o que foi dito e o que ele vem pensando ao longo dos anos”, disse o estrategista para América Latina da instituição, João Pedro Ribeiro.

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Dúvidas. Já o banco de investimentos MUFG, em documento distribuído a clientes na quarta-feira passada, chama atenção para o resultado das pesquisas eleitorais. “Em um cenário sem o ex-presidente (Lula), pesquisas podem ser muito incertas, uma vez que o voto dessas pessoas pode colocar um candidato inesperado no segundo turno e mudar o resultado final apontado nos levantamentos. Em resumo, há um alto grau de incertezas nas eleições”, diz o texto.

O mais recente relatório do banco francês BNP Paribas é uma apresentação detalhada de 85 páginas, com uma foto na capa do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa. A instituição trata o ex-ministro, potencial pré-candidato do PSB, como um “outsider” na corrida presidencial.

O BNP destacou que o ex-ministro tem a mais baixa das taxas de rejeição entre os principais candidatos. “As visões econômicas de Barbosa parecem moderadas – Brasil precisa de reformas e uma injeção de ‘capitalismo de verdade”, diz o texto.

Para o JP Morgan, a proibição de financiamento empresarial de campanha fará com que não apenas partidos “concentrem seus esforços nas candidaturas que têm mais chances de ganhar, mas também serão necessárias alianças para a disputa presidencial”.

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Quanto ao partido do presidente, o BNP diz que é “improvável” que tenha candidato, mas lhe atribui um papel fundamental na costura política. “(O MDB) Tem um papel central nas coligações, graças à sua influência no Senado, na Câmara e nos governos locais”. / COLABOROU NATHÁLIA FABRO

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'Centro-direita se encontra com chances maiores de fragmentação', diz cientista político

Rafael Cortez, da Tendência Consultoria, também rebate a tese de que um outsider pode ser reformista; Um candidato com este perfil, não tem experiência necessária e 'histórico de gestão política multipartidária'

Nathália Fabro, especial para O Estado, O Estado de S.Paulo

06 Maio 2018 | 21h54

O campo da centro-direita está fragmentado e deve permanecer assim durante este primeiro semestre. A avaliação é do cientista político da Tendências Consultoria, Rafael Cortez. Ele explica que, diante do cenário eleitoral incerto, os planos de investimento são baixos e o risco político, cada vez mais precificado.

++ Bancos internacionais veem estagnação de candidatos 'reformistas'

Cortez rebate ainda a tese de outsiders nas eleições de outubro. Segundo diz, um candidato neste perfil dificilmente conseguirá ser reformista, pois não tem experiência necessária e "histórico de gestão política multipartidária".

Veja abaixo os principais trechos da entrevista:

Como o sr. avalia o cenário?

Devido ao potencial de diversidade de candidatos, a eleição será marcada por forte incerteza. No atual estágio do quadro eleitoral, a centro-direita ainda se encontra com chances maiores de fragmentação. O trabalho pré-eleitoral é mais complicado para o PSDB com isso, visto que a centro-direita está muito concorrida. As candidaturas vão competir para esse voto. 

As candidaturas de centro-direita têm se mostrado estagnadas. Como analisa isso?

As candidaturas de centro-direita não devem crescer até o final do primeiro semestre. O desempenho de todos nas eleições fica afetado por essa sensação de incerteza. Diante disso, os planos de investimento são baixos. O risco político é cada vez mais precificado. O PSDB, particularmente, ainda não se desassociou da administração Temer, visto que apoiou o impeachment e permaneceu na base aliada por muito tempo. Além disso, teve as denúncias e desdobramentos das investigações. Por exemplo, Jair Bolsonaro (PSL), Marina Silva (Rede) e Joaquim Barbosa (PSB) são nomes que despontam e têm distância de investigações recentes.

Como o sr. avalia a possível entrada de Barbosa na disputa presidencial?

Barbosa tem pouca participação em temas de intrigas. Ele dialoga com o eleitor antipetista, tem que adaptar seu discurso econômico para esse eleitorado. Isso deve limitar bastante a capacidade reformista da administração dele. No geral, outsiders têm mais capital político, mas as expectativas são um pouco irreais e frustradas quando chegam em medidas difíceis. Eles apresentam riscos na aprovação de reformas, pois não têm histórico de gestão política multipartidária. 

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