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Ato no Rio relembra 'Grande Comício' de João Goulart

FELIPE WERNECK - Agência Estado

12 Março 2014 | 19h 25

Cartazes espalhados pelo centro do Rio convocam para um "Grande Comício" programado para as 15 horas desta quinta-feira, 13, na Central do Brasil, em comemoração ao histórico discurso realizado há 50 anos no mesmo local pelo então presidente João Goulart, pouco mais de duas semanas antes do golpe militar que o derrubou. A estudante de ciência política da Uni-Rio Tayná Paolino, de 22 anos, presidente da União Estadual dos Estudantes do Rio (UEE-RJ), criou uma página no Facebook para divulgar o ato, sob o slogan "Lembrar é resistir!", que tinha 400 confirmações de presença até a tarde desta quarta-feira, 12. O comício de 13 de março de 1964 reuniu cerca de 150 mil pessoas ao redor da estação ferroviária.

Jango discursou por mais de uma hora, defendendo as chamadas reformas de base que pretendia implementar no País e o fim dos "privilégios de uma minoria". Terminou seu discurso atacando o que classificou de "democracia dos monopólios nacionais e internacionais" e "forças poderosas que permaneciam insensíveis à realidade nacional". Tayná reconhece que a mobilização pela rede social não teve o resultado esperado, mas afirma acreditar no sucesso do ato. "O foco das centrais sindicais não é a mobilização pela internet, elas usam outras ferramentas", disse a estudante, que é filiada ao PCdoB. Mais de 30 entidades assinam a convocação para a manifestação desta quinta, entre elas a CUT, a UNE, a OAB e o MST, além de partidos como PT, PSOL, PSB, PSTU, PDT, PCB e PCdoB.

"Não faz sentido refazer o comício da Central, é muito datado. Tende a ser um ato nostálgico. Embora fosse progressista, a agenda de março de 1964, das reformas estruturais, está superada", avalia o professor titular de História Contemporânea da UFRJ e do Iuperj Francisco Carlos Teixeira da Silva. Para ele, a ditadura e maio de 1968 "modernizaram a esquerda brasileira, que era muito conservadora". "A agenda da esquerda hoje é muito mais avançada." Tayná tem opinião diferente. "Estamos 50 anos atrasados. As reformas de base, que poderiam fazer o Brasil avançar, até hoje não aconteceram. Vamos continuar lutando para que o pobre pague menos e por reformas agrária, da educação, da saúde e da mídia."

Em 1964, entidades financiadas por empresários organizaram as chamadas Marchas da Família, com Deus, pela Liberdade. O objetivo era levantar as classes médias contra o que classificavam de "perigo comunista". Pelo Facebook, estão programadas para 22 de março manifestações definidas como um "retorno" dessas marchas. "Aí tem outra dinâmica, essas marchas são diferentes da nostalgia do ato na Central. Por trás do discurso anticomunista, a direita colocou uma agenda conservadora que está na pauta, com temas como união civil de gays, aborto e maioridade penal", avalia Teixeira.