Ativistas contestam lista de desaparecidos

Grupo Tortura Nunca Mais acha precipitada identificação, em Petrópolis, de 19 corpos que seriam de mortos pela ditadura

Wilson Tosta, de O Estado de S.Paulo,

27 Janeiro 2011 | 23h01

RIO - O governo federal acredita ter indícios de que 19 desaparecidos políticos durante a ditadura de 1964-85, depois de torturados e mortos, foram enterrados clandestinamente em Petrópolis (RJ), mas a publicação da suposta descoberta abriu uma crise entre a Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência e ativistas do setor.

 

O Grupo Tortura Nunca Mais do Rio (GTNM-RJ) diz ser precipitada a lista com nomes dos presumivelmente sepultados em dois cemitérios do município, divulgada no livro "Habeas Corpus - que se apresentem os corpos", editado pela secretaria na gestão passada. Responsável pela pesquisa desses nomes, Ivan Seixas reconhece que não há ainda comprovação de que os restos localizados sejam dos militantes citados - ele diz que há apenas "possibilidades" - mas defende o trabalho como passo importante nas buscas. Alguns listados estiveram presos na "Casa da Morte", centro clandestino de tortura mantido na cidade nos anos 70.

 

"Há suspeitas de que 19 pessoas enterradas nos cemitérios de Petrópolis sejam na realidade desaparecidos que passaram pela Casa", disse Seixas, ele mesmo um ex-preso político e filho de um militante.

 

Seu pai, Joaquim Alencar de Seixas, integrava o Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT) e, em São Paulo, foi morto por agentes do governo militar na prisão, segundo outros presos. Ivan trabalhou para o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) em pesquisa sobre desaparecidos políticos, assessorando a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos. "O livro é apenas e tão somente um registro de todas as pistas que se tem sobre desaparecidos no País inteiro, para que as buscas continuem de algum ponto", defendeu.

 

Semelhanças

 

Os restos mortais que poderiam ser dos desaparecidos foram selecionados na pesquisa por terem características semelhantes: mortos em geral por ferimentos na cabeça, encontrados na rua e em datas às vezes próximas de desaparecimentos de presos. Apesar de o livro falar em 19 pessoas, dá nomes de 18 - pelo menos algumas teriam recebido novas identificações. Um seria Aluísio Palhano Pedreira Ferreira, da Vanguarda Popular Revolucionária, talvez enterrado como José Neves Filho. Outro seria Ivan Mota Dias, ativista da VPR supostamente sepultado como um desconhecido encontrado morto na Estrada União-Indústria. Ambos estão no Cemitério de Petrópolis.

 

Um terceiro corpo seria de Ísis Dias de Oliveira, que foi da Ação Libertadora Nacional (ALN) e teria sido identificada como Celita de Oliveira Amaral no Cemitério de Itaipava.

 

"Com o pouco levantado pela pesquisa em Petrópolis não se pode fazer ilações", disse Cecília Coimbra, do GTNM. Para ela, "é leviano afirmar o que está no livro. Em história, não se pode fazer ilações. É preciso testemunho e documento."

 

Lista

 

Outros militantes que, diz o livro, poderiam estar em Petrópolis são: Paulo Stuart Wright, David Capistrano, Celso Gilberto de Oliveira, Luiz Almeida Araújo, Heleny Teles Guariba, Sérgio Landulfo Furtado, Paulo Ribeiro Bastos, Umberto Albuquerque Câmara Neto, Honestino Monteiro Guimarães, Caiupy Alves da Costa, João Batista Rita, Joaquim Pires Cerveira, José Roman, Thomaz Antônio Meireles e Paulo Celestino da Silva. "Não sei de onde esses nomes foram tirados, pergunte à secretaria", disse Cecília. As buscas foram feitas em registros dos dois cemitérios, requisitados pelo Ministério Público Federal.

 

A Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência informou que apenas a primeira edição do livro, de 500 exemplares, mencionava a participação do GTNM-RJ, mas a menção foi retirada da segunda tiragem. A Secretaria, hoje comandada por Maria do Rosário, não comentou o conteúdo do livro, editado quando o secretário era Paulo Vannuchi, no governo passado.

 

Veja íntegra da lista dos desaparecidos:

 

 

1) Aluísio Palhano Pedreira Ferreira

Integrava a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e desapareceu em maio de 1971. Foi visto na Casa da Morte em 13 de maio de 1971

 

 

2) Ísis Dias de Oliveira

Era da Ação Libertadora Nacional (ALN). Foi presa em 30 de janeiro de 1972 e foi vista com vida pela última vez em março do mesmo ano

 

 

3) Paulo Stuart Wright

Dirigente da Ação Popular Marxista-Leninista (APML). Desaparecido em 1973

 

 

4) David Capistrano

Integrante do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Sumiu em 1974, depois de preso

 

 

5) Celso Gilberto de Oliveira

Foi da VPR. Desapareceu em 1970, depois de preso por integrantes do Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica (CISA), em 24 ou 25 de dezembro daquele ano

 

 

6) Luiz Almeida Araújo

Ativista da VPR. Desaparecido desde 24 de junho de 1971, quando foi capturado em São Paulo

 

 

7) Heleny Teles Guariba

Era militante da VPR. Foi presa em 12 de julho de 1971 por agentes do Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) do Rio de Janeiro. Foi vista na Casa da Morte em julho de 1971

 

 

8) Sérgio Landulfo Furtado

Militava no Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8). Desapareceu depois de preso, em 10 de julho de 1972, por agentes do DOI-Codi-RJ, no bairro da Urca, no Rio de Janeiro

 

 

9) Paulo Ribeiro Bastos

Também integrante do MR-8, foi preso com Sérgio Landulfo

 

 

 

10) Umberto Albuquerque Câmara Neto

Ex-dirigente da União Nacional dos Estudantes (UNE), era membro da APML. Preso em 8 de outubro de 1973 pelo DOI-Codi-RJ

 

 

11) Honestino Monteiro Guimarães

Foi presidente da UNE e integrante da APML. Capturado em 10 de outubro de 1973, no Rio de Janeiro

 

 

12) Caiupy Alves da Costa

Militava no PCB ao ser preso pelos órgãos de segurança no Rio de Janeiro, em 21 de novembro de 1973. Nunca mais foi visto

 

 

13) João Batista Rita

Integrou o Marx, Mao, Marighela e Guevara (M3G). Vivia na Argentina, onde se exilara depois de ter sido, com outros presos políticos, trocado pelo embaixador da Suíça no Brasil, Geovani Enrico Bucher, que fora sequestrado pela VPR. Rita foi capturado clandestinamente em Buenos Aires, em 11 de dezembro de 1973, por desconhecidos que falavam português, chefiados por um homem cuja descrição física correspondia à do delegado Sérgio Fleury, do Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo (DOPS-SP)

 

 

14) Joaquim Pires Cerveira

Major cassado do Exército Brasileiro, chefiara a Frente de Libertação Nacional (FLN) e saíra do Brasil em 1971, também trocado pelo embaixador suíço. Foi sequestrado no mesmo episódio em que João Batista Rita foi capturado. Ambos foram posteriormente vistos por outros presos políticos no DOI-Codi-RJ, amarrados juntos e com sinais de espancamento

 

 

15) José Roman

Desaparecido em 1974, no mesmo episódio que David Capistrano. Militava no PCB

 

 

16) Thomaz Antônio Meireles

Ativista da ALN. Desapareceu depois de preso em 7 de maio de 1974

 

 

17) Paulo Celestino da Silva

Integrava a ALN ao ser preso, em 12 de julho de 1971, no mesmo episódio em que foi presa Heleni Guariba. Foi visto na Casa da Morte. Depois desapareceu

 

 

18) Ivan Mota Dias

Era da VPR ao ser preso em 15 de maio de 1971. Um dos torturadores da Casa da Morte, conhecido pelo codinome de Dr. Guilherme, anunciou que Ivan seria preso e posteriormente relatou a execução do militante

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