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Às vésperas de deixar governo, Cabral recebe Dilma no Rio

Luciana Nunes Leal

02 Abril 2014 | 09h 51

Apesar de desavenças entre PT e PMDB no Estado, visita da presidente é considerada sinal de simpatia ao governador, que renuncia para disputar as eleições

RIO - Na véspera de assinar a carta de renúncia, depois de sete anos e três meses de mandato, o governador Sérgio Cabral (PMDB) recebe nesta quarta-feira, 2, no Rio a presidente Dilma Rousseff. Entre os aliados do governador, a visita foi comemorada como um sinal de prestígio a Cabral e de simpatia pela candidatura do vice-governador, Luiz Fernando Pezão, que assumirá o cargo definitivamente na sexta-feira e tentará a reeleição em outubro.

PMDB e PT do Rio estão em guerra desde que o senador petista Lindbergh Farias lançou-se candidato ao Palácio Guanabara. Apesar das desavenças, Cabral e Pezão anunciaram apoio à reeleição de Dilma. A presidente visitará as obras da linha 4 do metrô (que ligará Ipanema e Barra da Tijuca), no canteiro em frente à favela da Rocinha, a maior do País. Antes, Dilma assinará o contrato de concessão do aeroporto internacional do Galeão.

Provável candidato ao Senado, Cabral encerra o governo como começou: com a preocupação central na segurança pública. Em um roteiro de despedida com inaugurações no interior e na região metropolitana, o governador tem feito discursos de resgate da própria administração e procura mostrar os avanços no combate ao crime, apesar de enfrentar a pior crise do carro chefe de seus dois mandatos, as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs).

Cabral envia nesta quinta, 3, a carta de renúncia ao presidente da Assembleia Legislativa, Paulo Melo (PMDB), e Pezão assume interinamente por um dia. O novo governador tomará posse às 9h de sexta-feira, 4, véspera da ocupação pelo Exército do Complexo da Maré - conjunto de 16 favelas com 130 mil moradores, na zona norte da capital. O pedido de reforço federal foi feito por Cabral a Dilma depois de uma série de ataques a UPPs e de um saldo de 11 PMs mortos em áreas pacificadas, em menos de dois anos.

A história se repete: no dia 19 de janeiro de 2007, 500 homens da Força Nacional chegaram ao Estado, autorizados pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Cabral havia tomado posse no dia 1º, em meio a uma onda de violência entre facções rivais que deixou mais de vinte mortos em dois meses.

Em muitos discursos feitos nas últimas semanas, o governador exalta a instalação de 38 UPPs em favelas onde vive 1,5 milhão de pessoas e a redução dos índices de criminalidade. O número de assassinatos no Estado caiu de 6.133 em 2007 para 4.761 em 2013, mas houve aumento de 16,7% em relação aos 4.081 homicídios de 2012.

"Não é fácil quebrar a hegemonia do crime que durou trinta aos. Essa política de segurança não tem volta, acabaram os acordos com a bandidagem, é esse Estado que vou deixar em muito boas mãos", diz Cabral.

Nas visitas principalmente a bairros pobres, onde teve os maiores porcentuais de votos nas duas últimas eleições, o governador ressalta também o recorde de investimento em obras no Estado - R$ 14,4 bilhões em menos de dois anos. E bate na tecla da parceria com a União, nos governos de Lula e Dilma, a quem chama de "amigos do Rio".

Em baixa. O governador tenta reagir à impopularidade, acentuada depois das manifestações de junho passado. Os altos custos da reforma do estádio do Maracanã - que saiu por R$ 1,2 bilhão, quando a previsão em 2010 era de R$ 705 milhões; a relação de amizade com empreiteiros como Fernando Cavendish, da construtora Delta; o uso de helicóptero do governo para levar a família, a babá e o cachorro para a casa de praia em Mangaratiba e as viagens suntuosas para a França foram alguns dos fatores de grande desgaste do governador.

"Cabral acertou na grande política, mas errou na pequena política. Mudou a relação do Estado com o governo federal, quando estabeleceu a parceria com Lula, no segundo turno de 2006. Houve muito dinheiro federal investido no Rio, que virou um canteiro de obras. Mas o governador errou na simbologia, que tem um peso grande na política. O proximidade com empresários que participam de licitações do Estado, o estilo de vida rico, extravagante, não são bem vistos. Cabral foi ingênuo em achar que os adversários não iam explorar isso", diz o pesquisador Cesar Romero Jacob, da PUC-Rio.

Dois dos maiores aliados de Cabral no Estado, o presidente do PMDB-RJ, Jorge Picciani, e o presidente da Assembleia Legislativa, atribuem a falhas na comunicação do governo os baixos índices de avaliação positiva de Cabral - apenas 18% de bom e ótimo em dezembro, segundo o Ibope. "Cabral promoveu enormes avanços na segurança, na saúde, na educação, o Orçamento deixou de ser uma fantasia. Por falta de sorte ou incúria, se viu envolvido em episódios que os opositores aproveitaram.

Houve um momento em que ficou isolado no palácio, com bons técnicos, mas sem tanta visão política. A comunicação do governo foi muito fraca, não conseguimos mostrar o que fizemos e muito menos comparar com os governos anteriores", diz Picciani.

Ao contrário de Cabral, Picciani apoiará o tucano Aécio Neves na disputa pelo Palácio do Planalto, em represália à candidatura de Lindbergh a governador. "Em 2010, só fiz campanha para Lindbergh senador porque o Cabral praticamente nos obrigou. Cabral fez um governo revolucionário, Pezão foi partícipe disso, a população sabe da vida real", afirma Paulo Melo.