As razões de Temer

Presidente só vê ganhos em disputar a própria sucessão. E ainda tem a caneta nas mãos

João Domingos, O Estado de S.Paulo

24 Março 2018 | 03h00

O presidente Michel Temer está mesmo disposto a se candidatar à própria sucessão. O curioso é que, ao contrário de outros candidatos, que entram no pleito pensando em vencer a eleição, a vitória não é a prioridade de Temer. Ele pode entrar na disputa para, em primeiro lugar, defender o que considera ataques à sua honra: as duas denúncias do ex-procurador-geral Rodrigo Janot arquivadas pela Câmara, a investigação autorizada pelo ministro do STF Luís Roberto Barroso que vasculha as circunstâncias em que ele assinou um decreto sobre os portos e a quebra de seu sigilo bancário também por Barroso. 

Em segundo lugar, ao participar da eleição, Temer aproveitaria a campanha para defender o legado de seu governo: inflação bem baixa, queda recorde nas taxas de juros, reforma trabalhista, recuperação econômica, mesmo que tímida, busca do equilíbrio fiscal, programa de privatizações e, espera ele que dê certo, a intervenção federal na segurança pública do Rio de Janeiro como um ato de coragem jamais tentado por qualquer antecessor. 

Participar da eleição, para Temer, não envolve nenhuma perda. Pelo contrário, acredita ele, só resultará em ganhos. Não precisará, por exemplo, deixar a Presidência, pois a Constituição permite que ele dispute a eleição no cargo. Contará com um bom tempo de propaganda na TV e no rádio, mesmo que o MDB não faça coligações, participará dos debates que forem realizados, o que permitirá a ele se defender na hora de qualquer tipo de acusação que for feita. Também estará protegido pela legislação eleitoral por ser candidato. Se houver algum ataque a ele no programa eleitoral de qualquer adversário, poderá requerer na hora o direito de resposta. 

Aos que perguntam pelos obstáculos à eleição, como a popularidade baixa e as taxas de rejeição ao governo, Temer costuma invocar a candidatura do ex-deputado Ulysses Guimarães, em 1989. Popular e poderoso, por presidir o então PMDB e a Câmara, ter sido presidente da Constituinte de 1987/88, e de mandar no governo de José Sarney, Ulysses obteve apenas 4,73% dos votos daquela que foi a primeira eleição depois da reconquista do estado democrático de direito. Assim, se conquistar algo em torno do que Ulysses Guimarães conquistou, Temer poderia se dar por satisfeito. 

Ele leva em consideração ainda que a caneta presidencial está em suas mãos, o que não é pouca coisa. E que o MDB é o maior e mais enraizado partido do País. O fato de participar da eleição presidencial permitirá que faça bons acordos para o segundo turno. Entre esses acordos, por exemplo, está a negociação em torno das presidências da Câmara e do Senado. O ideal é ficar com as duas. Mas, se não conseguir, só a presidência da Câmara já garante um poder muito grande para o partido que a detém. O deputado cassado Eduardo Cunha (MDB-RJ), hoje preso, conseguiu tumultuar o governo de Dilma Rousseff durante o tempo em que foi presidente da Câmara. E quando Dilma viu-se enfraquecida e abandonada, ele acatou o pedido de impeachment dela, fazendo com que o processo andasse e culminasse na cassação do mandato da petista. 

As pretensões de Temer de se candidatar à própria sucessão talvez enfrentem obstáculos. Eles virão dos candidatos do MDB à Câmara e ao Senado. A entrada de Temer na disputa terá por consequência imediata a redução nas verbas do fundo eleitoral que serão destinadas aos que disputam vagas no Congresso, pois boa parte delas será drenada para a disputa presidencial. Candidatos a deputado e a senador pelo MDB também costumam vencer suas eleições a partir de acordos regionais, longe do candidato a presidente. Mas Temer domina o MDB. As chiadeiras não farão nenhum efeito. 

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