NILTON FUKUDA/ESTADÃ?O
NILTON FUKUDA/ESTADÃ?O

‘As pessoas vão defender Dilma em nome de quê?’, diz Marcio Pochmann

Presidente de entidade ligada ao PT diz que País vive ‘caos’ e avança para a recessão mais grave desde os anos 1990

Entrevista com

Marcio Pochmann

Alexa Salomão, Ricardo Galhardo, O Estado de S. Paulo

04 Outubro 2015 | 05h00

O ajuste fiscal é a causa da recessão, deve ser abandonado e a presidente Dilma Rousseff precisa de uma política de longo prazo para governar e recuperar o crescimento. Em síntese, essa é a proposta do polêmico documento Por um Brasil Justo e Democrático, divulgado na semana que passou pela Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT. “As pessoas vão defender Dilma em nome do quê?”, questiona Marcio Pochmann, presidente da entidade. Os economistas que apoiam o ajuste, porém, viram na iniciativa uma manobra do PT para se dissociar de medidas econômicas impopulares e contornar a crise política. Apesar de admitir que o governo errou, Pochmann diz que a origem da crise é outra: “A oposição não deixa governar”. 

A publicação indica que o PT não apoia a política econômica de Dilma?

Ela não tem relação com o PT.

Mas na resolução da executiva nacional, semana retrasada, antes de o documento ficar pronto, falou-se exatamente o que está aí: que o PT é contra o ajuste fiscal. 

Quando digo que não tem nada a ver no sentido que não é um documento do PT. Participaram da elaboração quase 200 pessoas. Tem gente do PSB, do PC do B, do PSOL.

É um documento da esquerda?

Pode chamar assim. Vamos ter debates com sindicatos, associações de bairros, partidos políticos. Estamos preocupados em mobilizar a sociedade num projeto de longo prazo. 

Economistas críticos ao governo falam que o documento...

...é uma porcaria? Não dá para ser usado no banheiro? Não dá mesmo. Não é poroso. 

Eles consideram que as medidas implodiriam a economia e veem no texto um posicionamento não só do PT, mas do próprio Lula, de que não apoiam Dilma. 

As pessoas falam da economia sem olhar o longo prazo. Com o ajuste que está aí somos reféns do curto prazo. Mas a maioria diz “não li e não gostei”. O ex-presidente deve ter recebido o documento depois de concluído. Não foi privilegiado. Nada foi discutido com ele. Os economistas que estão falando deveriam apresentar as suas propostas. 

Mas há maioria política para implementar essas mudanças?

Sem maioria não tem condições. É o desespero. Então, mesmo que a presidente concorde com o que está aí, ela não tem como implementar? Não dá para saber ainda o resultado da composição ministerial que ela está fazendo para estabilizar a relação com o Congresso. Mas hoje a estabilidade é em nome de quê? As pessoas vão defender a presidente Dilma em nome de quê? 

Em nome de quê?

Ela precisa avisar: estamos passando dificuldades agora, em tanto tempo vai melhorar e eu quero entregar o País assim (aponta o documento).

O documento diz que a culpa da recessão é do ajuste fiscal.

Sim. O ministro (Joaquim Levy, da Fazenda) vem dizendo que só há crescimento se houver ajuste fiscal. Nós temos uma outra forma de ver. Estamos vivendo o caos. O ministro da Fazenda, ao anunciar as primeiras medidas, disse que teríamos uma recessão de três meses. Avançamos para a recessão mais grave desde os anos 90, que se prolongará em 2016 e 2017. 

Os defensores dizem que não dá para criticar um ajuste que não chegou a ser efetivado. 

E jamais será porque não tem ajuste fiscal na recessão. 

O sr. está dizendo que temos de conviver com déficits?

Somos favoráveis ao equilíbrio das contas públicas. Ele tem que ser uma meta a ser atingida. Mas ele só é atingido quando há crescimento da economia. Hoje temos desajuste das contas públicas. 

Mas o documento admite que o governo errou. Errou em quê?

Levou uma política anticíclica por muito tempo. Abusamos das desonerações, das isenções fiscais. Nos equivocamos nas decisões de concessão. Para instalar um ciclo de crescimento é preciso tomar decisões muito mais rápidas em relação às parcerias. O governo demorou e quando tomou a decisão já tinha um quadro completamente diferente. 

Dilma está fazendo o contrário do que prometeu na campanha. Ela mentiu?

Não. Ela mudou a estratégia. Desde 2013, vinha com medidas graduais. Não sei se ela foi convencida ou convenceu-se de que as ações de gradualismo teriam se esgotado e adotou a estratégia de choque.

A crise econômica levou à crise política ou o contrário?

Concordo que há uma crise política, que gerou decisões econômicas que, por sua vez, trouxeram consequências desfavoráveis econômicas e sociais. A saída para os problemas não virá dos economistas. Será dita pela política. Na primeira década dos anos 2000, combinamos crescimento econômico, democracia e distribuição de renda. Estamos em 2015 com ameaças à democracia, sem crescimento econômico e piora no quadro social. 

Como ameaça à democracia?

A oposição mudou de postura. Foi derrotada e não aceitou. Questionou no Tribunal Superior Eleitoral e vem com uma campanha de impeachment. A oposição não deixa governar. É um quadro estranho. Por que não tem golpe, não tem impeachment? Porque se tiver a situação vai piorar dramaticamente. Qual é o projeto da oposição? Não é uma questão partidária. O Brasil está há 35 anos sem saber direito o que é crescimento econômico. Que projeto de sociedade é este? 

Mas são 12 anos de governo do PT. O que vivemos não é resultado da política do PT?

No governo Lula temos dois fatos empíricos que mudam a política econômica. O primeiro foi o caseiro. Sem o caseiro não teria saído o Palocci (Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda, que poderia ter sido lançado candidato à Presidência pelo PT). Já na crise de 2008, as medidas que o presidente Lula adotou não estavam em programa nenhum. Então não dá para dizer que isso aqui tudo é da racionalidade do PT: que tirando o PT, o Brasil vai virar uma maravilha. Teremos a desconstrução da Nação. Tira a Dilma mas põe quem? 

A que o sr. atribui a onda antipetista que vemos?

O PT aprendeu a ganhar a eleição. Aprendeu a capturar recursos financeiros como outros partidos – da mesma maneira. Isso é um problema para o PT. Mas parece não ser para os outros partidos. Esquizofrênico dizer isso, pois o PT foi financiado pelas mesmas empresas que os outros partidos. Mas só para o PT é dinheiro roubado. Isso é demagogia.

A Lava Jato é demagogia?

Claro. É selecionada. Ela é demagogia porque não apresenta a totalidade dos fatos. Só tem político do PT com problemas? Numa operação dessa natureza, isso é viés. 

Na sua opinião, por que a posição de Dilma se fragilizou tanto?

A presidente Dilma tem uma forma própria de conduzir o governo, com um núcleo pequeno e pouco diálogo. Há uma reclamação do Legislativo. Também há reclamações de movimentos sociais. A crise exige outro perfil: de diálogo, atenção, escuta. Talvez trocando o núcleo do governo, com outros ministros, possa ter uma postura diferente.

Mais conteúdo sobre:
Entrevista Estadão

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.