Jefferson Bernardes/AFP
Jefferson Bernardes/AFP

Em discurso em Porto Alegre, Lula aumenta tom de enfrentamento

Na cidade do julgamento, ex-presidente critica mercado, imprensa, governo Temer e pede mais reação em sua defesa

Marianna Holanda, Ricardo Galhardo e Vera Rosa, O Estado de S. Paulo

23 Janeiro 2018 | 20h15
Atualizado 23 Janeiro 2018 | 23h53

PORTO ALEGRE- Na véspera de seu julgamento pelo Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou nesta terça-feira o mercado, a imprensa, os adversários e o governo do presidente Michel Temer. Em um ato com militantes do PT, partidos de esquerda e movimentos sociais, em Porto Alegre, Lula adotou tom de comício, pediu mais reação de seus aliados e partiu para o enfrentamento em um discurso alinhado com o da cúpula do PT.

“Penso que eles estão destruindo e nós não estamos reagindo com a força que deveríamos”, disse Lula, que foi condenado pelo juiz Sérgio Moro, da Lava Jato, a 9 anos e 6 meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do triplex do Guarujá (SP). 

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O ex-presidente viajou na terça-feira a Porto Alegre em voo fretado. A previsão era que ele retornasse ainda na mesma noite a São Paulo para acompanhar hoje seu julgamento no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo.

Lula, que pode ficar inelegível a depender do resultado do julgamento, atacou o mercado, com quem havia se conciliado na eleição de 2002. Ele disse que o sistema financeiro “tem medo” de sua candidatura. “Eu não sei se é medo do Lula voltar em 2018. Se for medo, é bom. O mercado tem medo do Lula, mas eu não preciso do mercado, eu preciso de empreendedores, de empresas produtivas, de agricultores familiares.”

O petista evitou tratar diretamente do julgamento, mas voltou a alegar inocência. “Não vou falar do meu processo. Não vou falar da Justiça. Primeiro, porque tenho advogados competentes que já provaram minha inocência. Segundo, porque eu acredito que aqueles que vão votar (desembargadores da 8.ª Turma do TRF-4) deverão se ater aos autos do processo e não às convicções políticas de cada um.”

Seguindo a estratégia do PT de afirmar que o jogo não acaba com o julgamento, seja qual for o resultado, Lula afirmou que segue na disputa mesmo que seja condenado. “Qualquer que seja o resultado, vou continuar lutando para que as pessoas tenham mais respeito e dignidade”, completou o ex-presidente diante de militantes na Esquina Democrática, no centro histórico da capital gaúcha.

As autoridades locais não fizeram estimativas sobre o público presente no ato em solidariedade ao ex-presidente no centro de Porto Alegre. No evento que reuniu além de petistas possíveis adversários nas urnas como o PC do B, PSB e integrantes do PSOL, Lula criticou o governo Temer e a imprensa. Desta vez, além de atacar os veículos de comunicação e seus donos, Lula também criticou os jornalistas.

“A imprensa não tem compromisso com a verdade, é covarde, não respeita as famílias”, disse o petista, que elogiou veículos estrangeiros como o The New York Times e El País.

‘Gasolina’. O tom elevado de Lula tem ressonância na cúpula petista. “Se condenarem o Lula vão apagar fogo com gasolina”, disse ao Estado o presidente do PT paulista, Luiz Marinho. “Depois, arquem com as consequências.” Pré-candidato do PT ao governo de São Paulo, Marinho é o terceiro petista a adotar discurso beligerante. Recentemente, a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, disse que, para prender Lula, seria preciso “matar gente”, mas depois alegou ter usado “força de expressão”. Depois, o líder do PT no Senado, Lindbergh Farias (RJ) defendeu “uma nova esquerda, pronta para o enfrentamento e lutas de rua, e não uma esquerda frouxa”.

Marinho disse que o PT não terá controle sobre as reações da população. “A toda ação corresponde uma reação. Nós não estamos falando em pegar em armas, mas não vamos aceitar uma prisão para tirar o Lula da disputa”, insistiu Marinho. / COLABORARAM JULIA LINDNER e RENAN TRUFFI

 

 

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