Aposta do Brasil na África esbarra em concorrentes e críticas

Comércio com o continente atingiu US$ 26 bilhões durante governo Lula, mas concorrência de países como a China são obstáculo.

Pablo Uchoa, BBC

06 Setembro 2010 | 10h36

Alvo de intensos esforços diplomáticos, comerciais e de cooperação durante a Presidência de Luiz Inácio Lula da Silva, a África tornou-se um exemplo de como o Brasil é capaz de ampliar sua presença no mundo.

Mas o continente vem demonstrando também que o Brasil enfrenta obstáculos no caminho para se tornar uma potência emergente, e que ainda precisa vencer desafios como a presença de concorrentes como a China, por exemplo.

O governo brasileiro acredita que a presença na África é importante para garantir espaço entre futuros países consumidores, uma vez que cada vez mais nações africanas vêm deixando para trás histórias de conflito e combatendo a pobreza.

O presidente Lula gosta de lembrar que, desde janeiro de 2003, visitou 27 países africanos, "mais que todos os presidentes da História do Brasil juntos".

"A África deixou de ser um continente problema e está cada vez mais se tornando um continente de oportunidades", afirmou uma fonte do Ministério das Relações Exteriores, resumindo um pensamento que o próprio Lula e seu chanceler, Celso Amorim, costumam repetir.

O valor das relações comerciais entre Brasil e África, que era de US$ 5 bilhões ao final de 2002, mais que quintuplicou em 2008, quando chegou a US$ 26 bilhões.

Os efeitos da recente crise econômica reduziram este volume para US$ 17 bilhões em 2009, mas até julho deste ano o intercâmbio havia superado os US$ 11,5 bilhões.

Entre 2002 e 2008, as exportações cresceram 340% e três quartos delas foram de itens manufaturados.

Os números refletem o dinamismo com que o setor privado brasileiro tem se expandido no continente. Empresas como Odebrecht, Vale e Camargo Correa competem agressivamente com concorrentes por mercados.

Desafio

A segunda maior frente de trabalho da Odebrecht, que tem operações em 27 países africanos, está em Angola. Depois de quase quatro décadas de guerra de independência e civil, o país vem crescendo a uma taxa média anual de 13% desde o fim dos conflitos, em 2002.

O governo angolano prometeu construir até 2012 um milhão de casas para a população de mais baixa renda, e empresas como a Odebrecht, que já tem uma presença de três décadas no país, têm agarrado as oportunidades.

Mas por vezes a presença brasileira encontra concorrentes fortes. O principal deles é a China, que tem se inserido fortemente no mercado africano em busca de recursos naturais para alimentar seu crescimento econômico.

Estima-se que o banco chinês de desenvolvimento tenha investido cerca de US$ 10 bilhões na última década em projetos em Angola - país que é o terceiro maior produtor de petróleo da África.

O valor é mais que o triplo da linha de crédito que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) disponibilizou até agora em linhas de crédito em Angola.

Em Moçambique, os US$ 2 bilhões que a mineradora Vale investe para começar a extrair carvão da mina de Moatize, a partir de janeiro de 2011, parecem pequenos diante dos US$ 15 bilhões que a China investirá no país nos próximos cinco anos - principalmente em projetos de infraestrutura.

Além disso, em 2006, a Vale perdeu para a concorrente chinesa a concessão de um projeto de extração de minério de ferro no Gabão. Comentando esse episódio recentemente na Tanzânia, Lula desafiou os concorrentes chineses e disse que a Vale, se tivesse sido escolhida, criaria mais empregos locais.

"Nada contra os meus amigos chineses. Mas a verdade é que às vezes eles ganham a mina e trazem todos, chineses, para trabalhar naquela mina e fica sem gerar oportunidade de trabalho para os trabalhadores do país", disse, defendendo a empresa brasileira.

Críticas

Empresas brasileiras, entretanto, vêm sendo alvo de críticas na região. Em Moçambique, a Camargo Correa está na berlinda devido a uma barragem, que segundo críticos seria construída sem que estudos de impacto ambiental tenham sido concluídos.

O projeto Mpanda Mkuwa, no valor de US$ 2 bilhões, erguerá uma represa no Rio Zambeze para gerar 2,7 mil megawatts de energia. Apesar de os estudos sobre o impacto na biodiversidade do local só ficarem prontos no fim do ano que vem, o governo moçambicano deu o sinal verde para o projeto no mês passado.

"Esta imagem de que as empresas brasileiras são mais éticas que as outras, por exemplo, as chinesas, é completamente falsa", diz o porta-voz da organização moçambicana Justiça Ambiental, Jeremias Filipe.

Apesar de culpar principalmente o governo de seu país, ele diz que o envolvimento de empresas brasileiras em projetos no interior de Moçambique já levou "uma pequena parte da população" a crer que "as empresas brasileiras são até piores em transparência e respeito aos direitos das comunidades que as empresas dos países desenvolvidos".

"O que se pede é que estes investimentos cumpram com padrões mais preconizados a nível internacional e que os investimentos, para que isso não afete a imagem que a África, que Moçambique tem do Brasil", diz o ativista.

Língua em comum

Menos polêmicos são os projetos de cooperação que o Brasil desenvolve na África. A chamada "diplomacia da generosidade" rende ao país prestígio e liderança em fóruns internacionais.

Segundo a Agência Brasileira de Cooperação (ABC), para o biênio 2009-2010 estão previstos 150 projetos de cooperação na região, com um orçamento total de US$ 38 milhões.

De todo o volume de recursos alocados para projetos de cooperação técnica no continente, 74% estão nos países de língua portuguesa - para os quais o Brasil é uma espécie de "irmão maior", nas palavras do embaixador brasileiro em Moçambique, Antonio de Souza e Silva.

Um dos projetos de cooperação mais importantes do Brasil na África é o chamado Cotton 4, no qual o país transfere tecnologia para aperfeiçoar o algodão em quatro países pobres e altamente dependente das exportações desse produto (Benin, Burkina Fasso, Chade e Mali).

O projeto se tornou tão importante que até a Empresa Brasileira de Pesquisa Agrícola (Embrapa) passou a ter um representante no Mali para coordenar o projeto.

Com custo de US$ 4 milhões para o Brasil, o Cotton 4 permitiu que o governo brasileiro demonstrasse força, ao articular na Organização Mundial do Comércio (OMC) uma retaliação aos EUA por seu protecionismo ao algodão. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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