JOSÉ LUCENA
JOSÉ LUCENA

Após ser detida, ex-primeira-dama do Rio é levada para o presídio de Bangu

Adriana Anceldo é suspeita de lavar dinheiro desviado pelo marido e ex-governador, Sérgio Cabral; desvios em obras públicas chegariam a R$ 224 milhões

Mariana Sallowicz, O Estado de S. Paulo

06 Dezembro 2016 | 23h00

A advogada Adriana Ancelmo, mulher do ex-governador Sérgio Cabral,  foi transferida da Superintendência da Polícia Federal para o Presídio Joaquim Ferreira, no Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu, zona oeste do Rio. Adriana deixou a sede da PF pouco depois das 20h. Antes de seguir para Bangu, ela foi levada para o Instituto Médico Legal, onde passou por exames de corpo de delito. Adriana se recusou a prestar depoimento aos policiais federais. 

A mulher do ex-governador do Rio, Sérgio Cabral Filho (PMDB), foi presa nesta terça-feira após investigações apontarem sua suposta “posição central” em organização criminosa que seria chefiada pelo marido. No mesmo dia, a ex-primeira dama, o peemedebista e mais 11 pessoas viraram réus da Operação Calicute.

A Calicute é um desdobramento da Lava Jato que apura desvios de pelo menos R$ 224 milhões de contratos de quatro grandes obras, como a reforma do Maracanã.

A prisão preventiva de Adriana foi determinada pelo juiz Marcelo da Costa Bretas, da 7.ª Vara Federal Criminal do Rio, atendendo a pedido do Ministério Público Federal. A decisão ocorreu 19 dias após Cabral ter sido preso – na ocasião, o magistrado negou o pedido de prisão da advogada por falta de indícios suficientes. Mas, após o aprofundamento das investigações, teria sido revelado que Adriana seria uma das principais responsáveis por ocultar recursos recebidos indevidamente por Cabral. Ela teria utilizado seu escritório de advocacia, Ancelmo Advogados, para isso.

O magistrado cita indícios de que Adriana teria envolvimento direto no esquema de lavagem de dinheiro que teria movimentado mais de R$ 6,5 milhões para aquisição de joias de alto valor entre 2007 e 2016.

Sistema. Segundo os procuradores, por meio de contratos fictícios, o escritório de Adriana e consultorias lavavam dinheiro de corrupção obtido pela quadrilha. Ao todo, na denúncia que envolve os 13 investigados, são relacionados 21 fatos criminosos de corrupção passiva, lavagem de ativos e pertencimento a organização criminosa.

As investigações indicam que o esquema de corrupção desviou dinheiro de contratos de quatro grandes obras públicas – Maracanã, Arco Metropolitano, PAC das Favelas e Comperj – entre janeiro de 2007 e abril de 2014. Os contratos foram celebrados com a Carioca Engenharia e a Andrade Gutierrez.

O juiz determinou também a busca e apreensão de joias, pedras preciosas, objetos de arte, documentos, mídias e dinheiro em espécie com valor igual ou superior a R$ 30 mil ou US$ 10 mil sem origem comprovada no apartamento do casal.

O texto do mandado de prisão afirma, ainda, que a suposta organização criminosa teria apoio de parentes. Na avaliação do juiz, essas pessoas poderiam ser acionadas pela organização criminosa para atrapalhar investigações. Bretas cita a possibilidade de haver agentes públicos “dispostos a destruir e falsear registros e documentos e vazar informações”, dada a importância das funções ocupadas recentemente pelos investigados.

São citados indícios de pessoas próximas a Adriana atuando para esconder ou destruir documentos. “Se tal ocorre, também por isso é muito provável que esteja em curso movimentação para ocultar bens ilicitamente adquiridos”, afirma o juiz. O documento aponta também que as informações sobre a prisão de Cabral teriam vazado dias antes da Operação Calicute ser deflagrada.

“A permanência de Adriana Ancelmo em liberdade representa evidente risco à ordem pública, sendo grande a probabilidade de que a mesma continuará na prática de ilícitos”, diz Bretas. O magistrado também se posicionou sobre não conceder prisão domiciliar para a advogada, que tem dois filhos, um com menos de 12 anos. “A expectativa é de que a medida cautelar extrema dure pelo menor tempo possível, equiparável talvez a uma confortável viagem à Europa que Adriana Ancelmo viesse a fazer, sem seus filhos, na companhia de amigos.”

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