Ao final da gestão, população vê saúde como o principal problema

Em pesquisa feia pelo governo, área foi a mais citada em todas as faixas de renda, bem à frente de desemprego e corrupção

Ligia Formenti e Marta Salomon / BRASÍLIA, O Estado de S. Paulo

31 Dezembro 2010 | 23h01

A seis meses do fim do mandato do presidente Lula, o governo quis saber qual era o principal problema do País. Pesquisa de opinião encomendada pela Secretaria de Comunicação da Presidência - feita em 4.500 domicílios de 240 municípios do País - apontou a saúde como o principal problema. Essa era a percepção de 36% dos entrevistados, porcentual bem maior do que o medido em 2009, quando a saúde era apontada como o principal problema por 22,7% da amostra da população.

 

A saúde apareceu como maior problema brasileiro em todas as faixas de renda, à frente de temas como desemprego, habitação e corrupção. Mas foram os pobres os que mais se queixaram, aqueles que dependem dos serviços públicos, segundo a pesquisa encomendada.

 

Ao longo dos últimos oito anos, estatísticas oficiais apontaram avanços em várias frentes: caiu a mortalidade infantil e aumentou a expectativa de vida dos brasileiros, por exemplo. A melhora dos índices, no entanto, está longe de deixar o País em uma situação confortável na área de saúde.

 

Um exemplo é a mortalidade materna, em consequência do parto. Com queda expressiva, a estatística brasileira mais recente é de 78 óbitos a cada 100 mil nascidos vivos. Um desempenho bem aquém do considerado aceitável pela Organização Mundial de Saúde (OMS), de 20 mortes a cada 100 mil nascidos vivos.

 

As mortes provocadas pela tuberculose também diminuíram, de 4.823, em 2007, para 4.735, em 2008. Ainda assim, o Brasil permanece na lista de 22 países que concentram 80% dos casos de tuberculose do mundo.

 

O combate à Aids manteve o papel de cartão postal da saúde do Brasil, sobretudo depois do licenciamento voluntário do antirretroviral Efavirenz, uma decisão com repercussão internacional. Mas o governo também colecionou derrotas políticas, como o fim da CPMF (o imposto sobre transações financeiras), cuja prorrogação foi derrubada pelo Congresso em 2007.

 

Recuo. Por conta das pressões, o governo recuou das restrições à propaganda de bebidas alcoólicas e avançou pouco na regulamentação de restrições ao tabaco. Tampouco avançou o projeto de Fundação Estatal de Direito Privado, tido como fundamental pelo governo para melhorar a qualidade de gestão e atendimento em hospitais e serviços de saúde. Ao apresentar um balanço da gestão, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, atribuiu à falta de verbas as dificuldades, agravadas, segundo ele, com o fim da cobrança da CPMF.

 

A insatisfação dos brasileiros com o a área da saúde não surpreende a professora da Universidade Federal do Rio Lígia Bahia. "O assunto foi levado em banho-maria durante o governo Lula", avalia a coordenadora do Laboratório de Economia Política da Saúde.

 

Investimentos na área de saneamento, com repercussão direta nos indicadores de saúde, também tiveram resultados pouco expressivos. A rede de coleta de esgoto avançou de 47,8% para 53,3% dos domicílios, sob Lula.

 

Educação. A educação também aparece na pesquisa encomendada pelo próprio Planalto entre os cinco principais problemas do País. Mas, diferentemente da saúde, a preocupação diminuiu um pouco em um ano. Pouco mais de 10% da amostra da população apontou a educação como o principal problema em junho.

 

No balanço dos oito anos de mandato de Lula, o governo comemorou o aumento do volume de verbas públicas investidas em educação, assim como o aumento do número de matrículas, tanto nos cursos de alfabetização de adultos, como na universidade, puxadas sobretudo pelas bolsas de estudo do ProUni, financiadas com incentivos fiscais a instituições privadas de ensino. Mas os resultados nos índices de desempenho da educação não acompanharam o ritmo do aumento de verbas ou de vagas.

 

Sob Lula, o número de jovens e adultos analfabetos caiu apenas um ponto porcentual. O país ainda tem mais de 14 milhões de analfabetos com 15 anos ou mais de idade. Apesar de o programa Brasil Alfabetizado ter matriculado 12 milhões de pessoas desde 2003, a maioria dos analfabetos ficou fora das turmas.

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