ANÁLISE: Segurança vira plataforma emergencial para Temer

O único cálculo que parece faltar ao entorno presidencial é o aritmético mais básico: contra uma impopularidade de mais de 70% a depender do instituto de pesquisa, haja reviravolta para tornar essa candidatura viável

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

16 Fevereiro 2018 | 10h33

Sai o desgaste da reforma da Previdência, entra o discurso de ampla aceitação popular da segurança pública. Para um presidente que começa a flertar com a ideia, que antes descartava, de disputar a reeleição, eis uma troca auspiciosa.

Temer passou a ser incentivado a disputar um novo mandato por um grupo que reúne acólitos, marqueteiros em busca de emprego e parlamentares enrolados na Lava Jato. 

O discurso com que tentam convencer o chefe tem vários argumentos: o de que a melhora na economia se fará sentir aos poucos, e mais fortemente próximo à eleição, que ninguém melhor para defender seu legado que ele próprio —se não for para ganhar, algo cuja possibilidade é hoje para lá de remota, ao menos para ter um palanque para elencar suas realizações—, que uma eleição sem Lula torna o resultado imprevisível e, por fim, que ainda não surgiu um nome fora das franjas de polarização da sociedade para galvanizar os votos do chamado centro moderado.

Tudo isso pode até ser verdade, mas nada indica que essa leitura de cenário aponte para o impopular Michel Temer como “o cara” capaz de angariar votos desses órfãos da moderação.

Um discurso de fácil aceitação poderia ajudar. Daí por que, ainda em pleno carnaval, o presidente tenha sido tomado desta preocupação com a segurança. Ainda no domingo de folia ele se deslocou a Boa Vista para comandar uma reunião sobre a questão do fluxo migratório de venezuelanos para o Brasil.

Auxiliares do presidente com os quais conversei pela manhã reconhecem a impossibilidade prática de se decretar uma medida de tamanha magnitude para, poucos dias depois, suspendê-la para votar a reforma da Previdência. Portanto, a morte que já estava anunciada agora ganha uma justificativa de “força maior”. Quase uma saída honrosa para o fato de que o governo não tinha os votos para aprovar a mudança no regime de aposentadorias e pensões.

Para robustecer a pauta da segurança e dar um novo norte político ao governo, entra ainda a discussão sobre a criação do Ministério (que pode ser extraordinário) da Segurança. Algo que vem bem a calhar, inclusive, para trocar de mãos o comando da Polícia Federal, que tem irritado o governo pela contundência, por exemplo, nas perguntas dirigidas a Temer no inquérito que investiga se houve favorecimento político a empresas do setor portuário quando da edição de um decreto na área.

E, assim, voltamos à Lava Jato: por trás do súbito entusiasmo com a candidatura Temer está um grupo (composto por ministros e parlamentares) que quer um biombo para as investigações. Ou “estancar a sangria”, em termos romerojucaanos. Isso entra no cálculo do próprio Temer para cogitar a candidatura: um eventual novo mandato lhe daria a prorrogação da prerrogativa de ter processos sustados enquanto ocupa a Presidência.

O único cálculo que parece faltar ao entorno presidencial é o aritmético mais básico: contra uma impopularidade de mais de 70% a depender do instituto de pesquisa, haja reviravolta para tornar essa candidatura viável. Não parece ser um discurso de segurança surgido com a Quaresma para ressuscitar um político com esses índices.

 

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