ANÁLISE: País pode não se acalmar nem mesmo com eleições diretas

Ninguém tem uma resposta clara e segura sobre como sair da crise. Vivemos uma situação perigosamente incerta. Nossa realidade é muito fluida e repleta de nuances. Mesmo pensando em eleições diretas, que acredito ser a solução mais adequada, existe um fator de desequilíbrio e de acirramento das tensões: a possibilidade de eleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Fábio Wanderley Reis*, O Estado de S.Paulo

19 Maio 2017 | 05h00

Existe uma clara tensão entre o que chamamos de opinião pública e o eleitorado. São elementos diferentes nesse debate. A opinião pública, embora não hegemônica, é claramente contra aquilo que o Brasil viveu nos últimos 14 anos (PT, Lula e Dilma). Essa opinião pública se contrapõe à tendência hegemônica do eleitorado popular, que é propenso a acreditar no PT, no ex-presidente Lula e na presidente cassada Dilma. Ou seja, temos um embate entre opinião pública e eleitorado.

Isso cria uma situação peculiar e perigosa. Temos aqui a raiz do que hoje entendemos como polarização, uma polarização odienta, diga-se de passagem. Do lado da opinião pública está a classe média, uma parte da população com mais recursos e informação; do outro lado, temos um eleitorado pouco atento e desinformado. No fim, quem vence eleições é esse eleitorado. A dinâmica da nossa sociedade está claramente prejudicada por essa dicotomia.

Temo até por soluções mais radicais, como alguma onda militarista, para dissolver esse conflito. Não é algo provável, mas também não pode ser totalmente descartado.

Na democratização, chegamos a acreditar que o processo eleitoral iria diluir todos os conflitos e tensões. Hoje, descobrimos que o próprio processo eleitoral traz consigo essas tensões e conflitos. Além disso, a aposta que alguns setores fizeram de que seria possível fazer o impeachment, manter o PMDB no controle do governo e conseguir arrumar a casa revelou-se, claramente, uma aposta errada.

Como vamos superar o erro dessa aposta? Se as eleições acontecerem agora, a tendência é que Lula seja eleito, a menos que haja a exclusão de sua candidatura. Com uma possível vitória de Lula, teremos uma reação da opinião pública em contraposição ao eleitorado. Ou seja, só irá intensificar a polarização que vivemos hoje. Sei que a ideia era falar sobre “como sair da crise’’, mas vivemos um momento tão problemático e de tantas incertezas que mesmo a possibilidade de eleições diretas pode não ser legitimadora e acalmar o país. Podemos resolver um problema criando outro. 

*CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR EMÉRITO DA UFMG

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