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Análise: O embaixador dos EUA que temia 'uma nova Cuba'

Iuri Pitta - O Estado de S. Paulo

06 Janeiro 2014 | 20h 18

Lincoln Gordon recomendava 'ação rápida' no Brasil para evitar o que chamava de avanço comunista

Quando John Kennedy pergunta ao embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Lincoln Gordon, se achava “aconselhável” uma intervenção militar no país sul-americano, em outubro de 1963, a resposta que se buscava era menos algo como “sim” ou “não”, mas algo como “quando” e “como”. Tanto que o diplomata afirma que o ideal seria uma “ação rápida”. Gordon acabaria sendo um dos protagonistas dessa história.

A gravação revelada agora pelo jornalista Elio Gaspari, autor da mais completa reportagem sobre o golpe que derrubou João Goulart há quase 50 anos e o regime militar de mais de duas décadas, reforça a tese de que, se não tivesse sido assassinado 46 dias após essa conversa, JFK teria feito o mesmo que seu sucessor, Lyndon Johnson. Ambos recebiam informes constantes de Lincoln Gordon sobre o risco de Jango se tornar um "ditador populista" nos moldes do argentino Juan Domingo Perón.

O auge disso é conhecido há quase 50 anos. Militares brasileiros depuseram Jango e, soube-se na década seguinte, com apoio americano. Em 1964, os Estados Unidos enviaram navios da Marinha para dar suporte aos conspiradores brasileiros. Era a Operação Brother Sam, revelada em 1976 pelo jornalista Marcos Sá Corrêa. Sem a resistência do “dispositivo militar” de Jango e a rápida deposição do presidente, a frota americana deixou o Atlântico Sul sem ser percebida.

A reedição dos quatro livros de Gaspari serve de estopim para três meses de discussões e lançamentos relacionados aos 50 anos do 31 de março de 1964. Além de obras literárias, há filmes recentes que jogam mais luz ao que se passou meio século atrás. Para ajudar a entender por que o presidente deposto não resistiu ao golpe, tornando desnecessária a mobilização da Marinha americana, vale assistir a Dossiê Jango, de Paulo Henrique Fontenelle.

Quem quiser saber mais sobre o papel dos EUA e de Lincoln Gordon na conspiração deve procurar a O Dia que Durou 21 Anos, de Camilo Tavares, récem-lançado em DVD. O documentário mostra que desde 1962 Kennedy estava atento ao Brasil e ao risco de "uma nova Cuba”, como temia o embaixador americano. Kennedy cogitou uma intervenção militar, como revela Gaspari, muito em função dos relatos do diplomata.

Gordon repetiu a Johnson, no ano seguinte, o que havia dito a Kennedy sobre a importância de os EUA serem ágeis. O embaixador sugeriu que se reconhecesse o novo regime brasileiro rapidamente e de forma “entusiasmada”, enquanto assessores do governo dos EUA preferiam uma mensagem mais comedida – havia dúvidas sobre a legalidade do ato do Congresso que decretou vaga a Presidência da República e já existiam relatos de abuso de poder e prisões arbitrárias. Como Kennedy, Johnson seguiu Gordon.