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Análise: Gols contra na vida do País diminuem o charme da Copa

Marco Antonio Teixeira - O Estado de S. Paulo

13 Junho 2014 | 02h 02

O que mudou de outubro de 2007, quando o Brasil foi anunciado como sede da Copa - como apoio de cerca de 80% da população - até junho de 2014, momento em que o índice de apoio popular à competição declinou para menos de 50%?

A economia brasileira, em 2007, cresceu cerca de 6% enquanto uma grave crise econômica já atingia os países desenvolvidos. O Brasil chamava atenção do mundo com a descoberta do Poço Tupi, no âmbito do pré-sal, que lhe abria os horizontes para se tornar potência econômica, e internamente já despertava brigas entre Estados e municípios pela partilha dessa nova fonte de receita. Eram tempos de consolidação de Eike Batista como megaempresário e da realização dos Jogos Pan-Americanos no Rio de Janeiro, e o grande êxito no acúmulo de medalhas contribuiu para engrossar o conjunto de notícias positivas.

Assim, naquele momento, realizar a Copa em 2014 também era visto como estratégia na busca de maior protagonismo do País nos organismos internacionais, como o objetivo de conquistar uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU. Convém lembrar que governadores de todos os partidos, de oposição e situação, batiam regularmente nas portas da Fifa e do Palácio do Planalto, na tentativa de garantir que seus Estados tivessem jogos da Copa - e, também, para faturar politicamente com o evento.

Nos últimos dois anos, porém, o contexto socioeconômico trouxe alguns gols contra nesse projeto. A expectativa de crescimento do País para 2014 é quase nula. Eike Batista perdeu parte significativa de seu patrimônio e foi chamado a prestar contas à Justiça. A Petrobrás, vista como orgulho do País, vem perdendo valor de mercado e se vê cercada de suspeitas de irregularidades.

O Brasil de 2014 não exibe mais ao mundo o vigor que se vislumbrava em 2007. Suas pretensões no jogo de poder global enfraqueceram. A preocupação é a manutenção do emprego e da renda e como revigorar a atividade econômica, num cenário de intensa desconfiança dos agentes econômicos.

Com isso, a Copa perdeu seu charme e passou a ser questionada por parcela da sociedade que viu conquistas recentes ficarem sob ameaça. Não por acaso, políticos de oposição, antes favoráveis à Copa, passaram a dar declarações tímidas sobre o evento. E a fatura política da atual imagem negativa da Copa está sendo paga apenas pelo governo federal.

Marco Antonio Teixeira é professor de ciência política da FGV-SP

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