ANÁLISE: Despacho mostra que Justiça alcança graúdos da política

A prisão de Lula, se se consumar, representará um passo decisivo na luta contra a corrupção, com a valorização dos procedimentos adotados pela Operação Lava Jato

Marco Aurélio Nogueira, O Estado de S.Paulo

06 Abril 2018 | 05h00

Com a prisão de Lula decretada pelo juiz Sérgio Moro, encerra-se um ciclo político na vida nacional. Um ciclo em que um partido de esquerda chegou aos píncaros da glória e perdeu uma extraordinária oportunidade de reformar a sociedade em sentido progressista, deixando-se capturar pelos mesmos esquemas oligárquicos e corruptos que ele tanto denunciou.

A imagem de Lula continuará a ser ativada pelos milhões de brasileiros que o seguem, muitos dos quais de maneira quase religiosa. Militantes petistas também se encarregarão de manter o estandarte de Lula tremulando alto, mas nesse caso mais por cálculo político e falta de opções. Lula preso, porém, mesmo que somente por alguns meses, representará uma guinada que não se imaginava possível alguns meses atrás.

Uma guinada simbólica, antes de tudo. Será a primeira vez que um ex-presidente irá para a prisão. E mostrará que os graúdos também podem ser alcançados pela Justiça, revertendo a visão que a sociedade tem dos procedimentos judiciais. 

Lula continuará a ter admiradores fervorosos e adversários furiosos. O PT precisará refazer às pressas sua estratégia política e eleitoral. O mundo político, por sua vez, terá de se perguntar se a prisão não é tão somente a ponta de um iceberg que terminará por devorar a todos os implicados em esquemas de corrupção ou lavagem de dinheiro. Se o poderoso Lula se curvar a Moro, o que será dos demais, com seus cacifes políticos bem menores?

A prisão de Lula, se se consumar, representará um passo decisivo na luta contra a corrupção, com a valorização dos procedimentos adotados pela Operação Lava Jato. Trata-se, porém, de uma batalha que só alcançou uma parcela dos implicados e ainda não quebrou as pernas do mecanismo. Precisará seguir em frente, esgrimindo resistências e reações.

A polarização e a celeuma não cessarão. Desaguarão de algum modo nas eleições, num desdobramento que ainda não se tem como prever. Abriu-se uma alameda para a democracia brasileira. Polêmicas jurídicas à parte, é uma oportunidade histórica para que se reformule o sistema de Justiça do País e se dê um basta aos abusos da corrupção, que sangram o Estado e a comunidade.

Não se trata da punição de um líder popular que não teve como resistir às oligarquias, mas do resgate das possibilidades de que se reorganize o país e o Estado, liberando a grande política para que cumpra sua missão.  

 

*PROFESSOR TITULAR E COORDENADOR DO NÚCLEO DE ESTUDOS E ANÁLISES INTERNACIONAIS-NEAI  

DA UNESP

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