ANÁLISE: Desafio do PT é garantir espaço eleitoral

Denúncias de corrupção e o impeachment de Dilma enfraqueceram o PT, e isto apresenta um novo desafio ao partido, que precisa evitar o crescimento de outras forças de esquerda que possam ameaçá-lo

Hilton Cesario Fernandes*, O Estado de S.Paulo

24 Setembro 2017 | 03h00

Coligações regionais entre partidos que são adversários na política nacional parecem desafiar a lógica do eleitor, mas o fato é que a realidade nos estados e nos municípios apresenta uma dinâmica política muito diferente à do País.

O cientista político Humberto Dantas, em sua tese de doutorado, mostrou que coligações entre partidos adversários nacionalmente são bastante comuns nos municípios, até porque as forças políticas e as preferências do eleitor estão muito mais ligadas ao personalismo do que aos partidos.

Há anos o PMDB se caracteriza por divisões regionais, especialmente com líderes que dominam os estados, como José Sarney, Renan Calheiros e outros. Estas lideranças do PMDB possuem diálogo entre si no âmbito federal, mas não invadem o espaço do outro nos estados. Daí a dificuldade em lançar um candidato a presidente.

Já o PT possui um comportamento diferente, bem mais centralizado, a ponto de influenciar a escolha de candidatos nos estados e municípios. Entretanto, as denúncias de corrupção e o impeachment de Dilma Rousseff enfraqueceram o PT, e isto ficou evidente nas eleições de 2016. Esta situação apresenta um novo desafio ao partido, que precisa se preocupar em garantir o espaço que lhe restou e evitar o crescimento de outras forças de esquerda que possam ameaçá-lo.

Nunca é demais lembrar que a aliança PT-PMDB nos governos dos ex-presidentes Lula e Dilma ocorreu por conveniência política, e não ideológica. A narrativa do golpe contra Dilma, que é bem aceita entre os militantes de esquerda, não deve ser muito afetada por eventuais coligações regionais.

Afinal, assim como houve uma narrativa para justificar Michel Temer como vice-presidente de Dilma, outras narrativas justificarão as aproximações nos estados.

*CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR DA FUNDAÇÃO ESCOLA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA DE SÃO PAULO

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