ANÁLISE: Das togas às urnas

Política brasileira tem um dia de expectativa com o depoimento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva

Pedro Floriano Ribeiro*, O Estado de S.Paulo

13 Setembro 2017 | 05h00

A um ano da eleição presidencial, a política brasileira tem um dia de expectativa com o depoimento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Poucos no PT acreditam que Lula escapará de ser considerado inelegível – no mais tardar, na deliberação em segunda instância pelo TRF. Enquanto isso, o partido elabora (e desmente) seus planos B, C, D etc., no que se avizinha como seu maior desafio: sobreviver à desintegração política de seu líder.

A condição de Lula como estrela solitária do PT resulta de seu próprio estilo ao longo dessas quase quatro décadas: amálgama a manter unidas as facções petistas, Lula nunca facilitou a emergência de líderes nacionais que pudessem fazer sombra a ele. Por outro lado, a sucessão de escândalos de corrupção abateu diversos herdeiros potenciais da liderança lulista, abrindo uma fissura geracional no partido.

Sem Lula, resta ao PT compor com forças de centro (Ciro Gomes), oferecendo nomes como Jaques Wagner ou Fernando Haddad na condição de cabeça ou vice. A boa notícia para os petistas é que se desenha um cenário de fragmentação na centro-direita (hoje favorita): uma disputa fratricida no PSDB e projetos pessoais de Meirelles, Bolsonaro, entre outros. Se a essa fragmentação somarmos a capilaridade do PT, a identificação de parcelas do eleitorado, e a condição de principal opositor de um governo impopular, abre-se um panorama de competitividade para qualquer candidato petista. 

No outro front, o PSDB se angustia em torno de suas indecisões e de um problema de timing. Se Lula for derrubado, um candidato de perfil conciliador (Alckmin) desponta como melhor nome; se Lula sobreviver, será um candidato competitivo em uma eleição polarizada, empurrando os tucanos para uma retórica anti-PT mais inflamada (Doria). Porém, a decisão judicial sobre Lula provavelmente será posterior à definição do candidato tucano, e o PSDB terá de movimentar suas peças um tanto às cegas. De qualquer modo, tudo passará pelos magistrados antes da decisão dos eleitores nas urnas – algo pouco alvissareiro para qualquer democracia.

*PROFESSOR DE CIÊNCIA POLÍTICA NA UFSCAR

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