Análise: Clima quente e nuvens negras

No lusco-fusco do apagar do ano, tórrido início de verão, os espíritos clamam por ar fresco, aquietar a mente e relaxar o corpo. O mais provável é que o tempo apenas passe, fechando um período, abrindo outro e renovando o calendário. Em tese, a semana entre o Natal e o Ano Novo serve para procrastinar um tantinho a vida. Mas, por estas veredas, nem no mormaço destes dias há sossego: a crise transformou-se no normal e cotidianamente exala sua sensação térmica de 50 graus!

Carlos Melo*, O Estado de S.Paulo

28 Dezembro 2016 | 03h00

E assim, mais uma vez, a Polícia Federal foi às ruas, espalhou seu pavor entre partidos, operadores, políticos e governos; aumentou a desconfiança de que 2017 não será diferente de 2016, similar a 2015. O clima de incerteza permanecerá e a única coisa certa é que, no Ano Novo, as nuvens negras remanescerão sobre o sistema político, sobre o governo e, por decorrência, sobre a economia do País que não terá o necessário suporte que suplica à política em frangalhos.

O círculo vicioso ou virtuoso – depende a quem envolve – se estabeleceu: a Lava Jato descobre novos elementos de corrupção que regaram o financiamento de campanhas, mormente da chapa vencedora “Dilma & Temer”. Essas descobertas amargam ainda mais o fel da opinião pública que, crítica e revoltada, influencia o trabalho de juízes. Pressionados, magistrados dão vazão à Lava Jato e seus congêneres. Reféns de seus malfeitos e da lógica deste ciclo, os políticos mal disfarçam o desconforto.

Com ar blasé, Michel Temer esforça-se para se desvencilhar de Dilma – parceira só para o que convém –; busca ganhar tempo: retomar a iniciativa, preencher, assim, o espaço da crise ocupando a audiência com necessária e incompreendida agenda reformista. Aspira um pouco de ar e nova dinâmica econômica que empurre o tempo até que o clima arrefeça e novos juízes possam julgar sua causa. Mas, com essas nuvens, não há conciliação: elas pairam sobre o Brasil, estão lá, ao seu redor; trovejam e relampeiam na Lava Jato, no TSE... No horizonte de 2017.

*É CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR DO INSPER

 

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