ANÁLISE: Brasil caminha para impasse

Uma eventual prisão de Lula agravaria a radicalização política; ano de 2018 será marcado por um novo transbordamento da crise para as ruas, com consequências imprevisíveis

Aldo Fornazieri*, O Estado de S.Paulo

25 Janeiro 2018 | 01h12

A condenação do ex-presidente Lula pelo TRF-4 deverá aumentar a tensão política e poderá mergulhar o País num impasse sem precedentes. A crer nas declarações do PT, o partido e Lula irão até o fim com a candidatura. As bases dos movimentos sociais e dos partidos de esquerda mostram uma disposição crescente de caminhar para um enfrentamento nesta questão. A despeito do ano eleitoral, há uma inédita unidade das esquerdas em torno do direito de Lula ser candidato e da defesa da democracia.

Nada indica que a condenação irá ter um efeito negativo nas intenções de voto em Lula. Pelo contrário, reforçar-se-á a percepção de que Lula é vítima de uma perseguição judicial, o que deverá aumentar a sua popularidade. Alguns fatores concorrem para isso: não há prova efetiva de que o triplex seja de Lula; há um efeito saciedade na opinião pública quanto às numerosas acusações de que Lula é alvo e há um contraste entre as ações contra Lula e a falta de ações contra Michel Temer, Aécio Neves e tantas outras autoridades acusadas de corrupção.

A ausência da prova de posse do triplex se choca com as malas de dinheiro, com bunkers com milhões, caixas fortes de joias e contas no exterior, o que gera um sentimento de injustiça e a ideia de reparação, que se traduz em apoio a Lula. Setores amplos da comunidade jurídica nacional e internacional, junto com intelectuais e acadêmicos, reforçarão ainda mais a percepção de que o julgamento de Lula é político.

As lembranças de bons tempos sob os governos de Lula contrastam com o momento atual de grave crise social, de destruição de políticas públicas, de agressão a direitos. Há um mal-estar geral em relação ao governo Temer e a quem lhes dá sustentação.

Por esse quadro, uma eventual prisão de Lula agravaria a radicalização política. O impasse não é apenas político, mas é também institucional, pois as instituições, incluindo o Judiciário, têm sua funcionalidade e legitimidade questionadas. O ano de 2018 será marcado por um novo transbordamento da crise para as ruas, com consequências imprevisíveis.

*Professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP)

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.