Análise: A moral e o morismo

Sem incorrer em superinterpretação, dá para afirmar que o 4 de dezembro significou o primeiro ato público nacional em favor de Moro e sua cria dileta, a Operação Lava Jato

Dawisson Belém Lopes*, O Estado de S.Paulo

05 Dezembro 2016 | 05h00

Sob a surrada bandeira da luta contra a corrupção, o brasileiro foi à rua neste domingo, 4. Em números nem tão expressivos como os de outrora, é bem verdade. Ainda assim, fez-se barulho. Alega-se que Calheiros, Maia e Temer seriam os destinatários nominais do protesto. É como se se quisesse dizer aos homens que lideram o Legislativo e o Executivo: “comportem-se, pois estamos de olho; a porta de saída é a serventia da casa.”

Desconfio dessa versão. Os gestos e equívocos recentes dos políticos brasileiros ajudam, sim, a engrossar o caldo, mas não bastariam para inflamar a turba e deslanchar o ativismo presenciado em 4 de dezembro. Não é de hoje que se estabeleceu no País a narrativa que associa a salvação da pátria à “caça aos corruptos”. O raciocínio é sobejamente conhecido: na terra em que, em se plantando, tudo dá, como pode não haver prosperidade? A resposta à pergunta, quase invariavelmente, ignora os condicionamentos institucionais e concentra-se nas variáveis “culturais”.

Um discurso fortemente moralista sustentou Getulio Vargas na Presidência, contra as lideranças da República Velha, a economia do latifúndio e o federalismo estadualista. Jânio Quadros, candidato cujo marketing eleitoral baseava-se na vassourinha que prometia “limpar a sujeira do País”, teve vitória consagradora em 1961. A ditadura dos militares defendeu a família, a tradição e os bons costumes, fazendo espantalho da ameaça comunista, durante a Guerra Fria. Fernando Collor formulou discurso de perseguição aos “marajás” do serviço público. Ganhou a eleição direta, em 1989, com esse slogan.

Os males da nação não são a saúva e a saúde, como supunha Monteiro Lobato, e sim os crimes contra a administração pública. Eis o entendimento da classe média tradicional, vocalizado ad nauseam por órgãos da imprensa e partidos políticos mais à direita do espectro. Entretanto, se o impedimento de Dilma Rousseff, movido por pretexto moralizador, foi o que canalizou a indignação dos manifestantes em março e abril do corrente, agora a agenda parece menos difusa e mais programática.

Neste novo contexto, corporações profissionais do Judiciário, do Ministério Público e da Polícia Federal encontram terreno fértil para levar adiante o seu “mandato tácito” e avançar sobre outros poderes e interpretações convencionais dos textos jurídicos. Sérgio Moro, juiz federal e professor universitário, é a liderança do movimento. Por encarnar as capacidades “correcionais” reclamadas por segmentos da opinião pública, já é percebido como um ator político. Ingênua ou não, a crença estruturante do morismo é de que só Sérgio, e ninguém mais, poderá salvar o Brasil das garras dos Renans, Rodrigos e Michéis do Planalto Central.

Sem incorrer em superinterpretação, dá para afirmar que o 4 de dezembro significou o primeiro ato público nacional em favor de Moro e sua cria dileta, a Operação Lava Jato. Eu não descartaria, portanto, a hipótese de que, de agora em diante, o juiz passasse a ser mais seriamente considerado como opção para 2018. Os moristas estão chegando.

* É professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais 

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