Adriano Machado/Reuters
Adriano Machado/Reuters

Análise - A lógica é simples: maior a bancada, maiores os recursos

'As vantagens oferecidas se sobrepõem a qualquer coisa ruim ligada a imagem do partido'

Glauco Peres, professor de Ciência Política da USP

15 Abril 2018 | 22h30

Migração partidária sempre existiu, mas nesse momento ela tem um incentivo maior pensando na eleição. Tanto partidos quanto deputados têm incentivo para apoiar esse movimento e a lógica é simples: quanto maior a bancada, mais recursos ela terá.

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O exercício que a sociedade precisa fazer é imaginar como ocorre essa negociação, o que o partido oferece para atrair um deputado de outra sigla. Essa movimentação reflete também a confiança dos deputados de que aquele partido cumprirá com as promessas feitas. Mas, de imediato, a moeda de troca da janela partidária está na eleição e isso será cobrado.

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Também é provável que muitos candidatos estejam preocupados com a questão do foro privilegiado. Assim, o partido que oferta uma parcela generosa de recursos para aqueles que podem ser julgados com certeza conseguiram convencê-los da troca, afinal, a intenção é a reeleição para permanência do foro.

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Com isso em jogo, eventuais manchas na imagem do partido ficam em segundo plano. A bancada aumenta, a entrada de dinheiro também, o possível candidato ganha mais condições de concorrer com recursos. As vantagens oferecidas se sobrepõem a qualquer coisa ruim ligada a imagem do partido. Se isso é bom ou ruim é uma outra discussão, o fato é que os representantes fizeram as contas e viram que compensava. Há também o raciocínio de que por aqui não é preciso ter um monte de votos. Se as condições oferecidas pelo partido são boas e a lista de candidatos também parece promissora, entra a lógica de um voto que puxa o outro. Dois candidatos fortes em determinado Estado dão conta e eleger vários outros porque o que temos no Brasil não é “puxador” de votos, é “empurrador”.

Por outro lado, temos a movimentação da sociedade civil, que demanda mais mudança na política. É um eleitorado mais sensível a temas polêmicos como corrupção, o que pode equilibrar essa balança. O impacto exato disso nós não sabemos, mas essa é mesmo a eleição da suposição.”

*GLAUCO PERES É PROFESSOR DE CIÊNCIA POLÍTICA DA USP

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