América Latina dá fôlego para 'nova censura'

Levantamento feito pelo 'Estado' em 6 países da região mostra escala de ameaças à imprensa, desde as formas mais sutis, como regulamentação abusiva e direcionamento de verbas, até as mais violentas, como os assassinatos em Honduras

Ariel Palacios, de O Estado de S.Paulo

31 Julho 2010 | 06h00

 

BUENOS AIRES - Processos, regulamentação abusiva, direcionamento de verbas, "censura sutil" e até assassinatos. Essas são algumas das ameaças à liberdade de imprensa na América Latina, segundo levantamento feito pelo Estado em seis países da região.

 

Veja também: 

 

Sarney boicota investigação dos atos secretos, revelados pelo 'Estado', e emperra inquérito sobre o maior escândalo do Senado

 

Senado oficializa seus vícios secretos

 

Entrevista com Pedro Simon - 'Senado virou uma casa de amigos'

 

Caso põe em discussão segredo de Justiça

 

Três ministros do STF se dizem contra mordaça imposta pela toga

 

ANJ lamenta episódio e o define como 'absurdo'

 

Memória - 'Estado teve censores na redação'

 

Burocracia forense ajuda sobrevida da mordaça

 

Entrevista com Manuel Alceu Affonso Ferreira - 'Censura é mais grave que no AI-5'

 

Sentenças judiciais determinam retirada de material de blogs

 

Artigo de Isabel Lustosa- Política e imprensa

 

Unesco tem guia para direito à informação

 

Entrevista com Carlos Lauría - 'Assassinatos de jornalistas e ataques violentos provocam autocensura'

 

 

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, implantou um novo modelo para cercear a imprensa, menos violento e mais disfarçado que os usados pelos ditadores que marcaram a história latino-americana nos 60, 70 e 80.

 

Recentemente, a Justiça venezuelana - controlada pelo Executivo, segundo a oposição - ordenou a prisão de Guillermo Zuloaga, dono da TV Globovisión, por "especulação na venda de veículos". O empresário, que tem uma concessionária de automóveis, fugiu do país. Agora, Chávez alega que pode nomear um representante do governo na direção da emissora porque um banco que tem 20% de suas ações está sob intervenção estatal.

 

As relações do governo com a imprensa se deterioraram após a tentativa de golpe de 2002, apoiada por alguns canais de TV. Chávez recusou-se em 2007 a renovar a concessão da emissora RCTV. Em 2009, tirou do ar 34 rádios, alegando que suas licenças estavam irregulares. No mês passado, criou as "guerrilhas comunicacionais", grupos de jovens treinados para contestar "mensagens da imprensa capitalista" na internet e nas ruas.

 

No Equador, onde o presidente Rafael Correa costuma elogiar as ações de Chávez contra o que qualifica de "terrorismo midiático", a ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF) tem manifestado preocupação com o que considera uma campanha de desqualificação pública dos jornalistas.

 

Na Bolívia, o presidente Evo Morales criou 250 rádios comunitárias com apoio financeiro da Venezuela e reaparelhou o canal de TV oficial. Em 2009, ele ameaçou nacionalizar o jornal La Razón, o maior do país.

 

Na Nicarágua, o governo do presidente Daniel Ortega, um aliado de Chávez, está restringindo o acesso de jornalistas a autoridades públicas e cortando publicidade oficial de veículos críticos, disse ao Estado Joel Gutierrez, professor da Universidade Thomas More, em Manágua.

 

Na Argentina estão florescendo mecanismos de "censura sutil", como o direcionamento de publicidade oficial aos meios de comunicação alinhados com o governo. O termo foi aplicado em novembro passado, na reunião anual da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), realizada em Buenos Aires, para indicar uma rede de esquemas criados pelos governos para restringir o funcionamento da mídia.

 

Uma das iniciativas mais polêmicas da presidente Cristina Kirchner foi a Lei de Mídia. Temporariamente suspensa na Justiça, a lei obriga as empresas de mídia a passar por uma fiscalização de suas licenças a cada dois anos.

 

Honduras é o país mais perigoso para jornalistas na América Latina - oito foram mortos neste ano. Segundo entidades como a RSF e o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), o governo de Porfírio Lobo negligencia investigação desses crimes. O ex-presidente Manuel Zelaya foi deposto em junho de 2009. Ao assumir interinamente após a queda de Zelaya, Roberto Micheletti decretou estado de sítio e interveio em vários veículos de comunicação. TVs e rádios da oposição foram ocupadas por militares e tiveram seus equipamentos confiscados.

Mais conteúdo sobre:
Censura América Latina fôlego

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.