Dida Sampaio/Estadão, Ed Ferreira/Estadão, Dida Sampaio/Estadão e Ed Ferreira/Estadão
Dida Sampaio/Estadão, Ed Ferreira/Estadão, Dida Sampaio/Estadão e Ed Ferreira/Estadão

Agenda de ministros privilegia aliados

Recém-nomeados para equipe de Dilma dão prioridade a reuniões com correligionários ou com políticos do mesmo Estado de origem

Fábio Brandt, O Estado de S.Paulo

16 Fevereiro 2015 | 02h03

BRASÍLIA - Alçados ao cargo de ministro pela presidente Dilma Rousseff (PT), líderes regionais de partidos governistas usam o novo status para cumprir agendas focadas em aliados e em suas bases eleitorais. Pelo menos quatro recém-nomeados têm adotado a prática, como mostra levantamento feito pelo Estado com base em agendas divulgadas pelas pastas.

Um deles é o ministro da Pesca, Helder Barbalho, filho do senador Jader Barbalho, ambos do PMDB do Pará. Desde que assumiu o posto, em 2 de janeiro, ele tornou públicas 84 reuniões de que participou na condição de ministro com pessoas de fora da pasta. Ao todo, Helder esteve com 91 pessoas, sendo que 42 (46% do total) eram políticos filiados ao PMDB ou ao aliado PT. A terceira sigla que mais aparece na agenda é o PROS, também da base, com quatro filiados.

Presidente em exercício do diretório do PMDB no Pará, Helder recebeu 21 representantes de seu Estado em Brasília - em segundo lugar aparece Santa Catarina, com seis representantes. Entre os paraenses recebidos oficialmente estão dois dirigentes do PMDB em cidades do interior, três vereadores também do interior, três prefeitos, um ex-prefeito, uma deputada estadual, seis deputados federais e dois senadores.

O paulista Antonio Carlos Rodrigues, ministro dos Transportes desde 5 de janeiro por indicação do PR, divulgou 120 reuniões com pessoas de fora da pasta. Recebeu, ao todo, 146 pessoas - incluindo 47 políticos do PR e 17 do PT. O levantamento mostra que foram atendidos também 38 empresários com atividades relacionadas à pasta - menos que a quantidade de correligionários. O Estado mais representado nas audiências com o ministro é São Paulo, sua área de atuação eleitoral - ele já foi vereador na capital e é suplente da senadora Marta Suplicy (PT-SP). Foram 28 paulistas recebidos, quase o dobro da Bahia, que ficou em segundo lugar, com 15 representantes.

A agenda do gaúcho Eliseu Padilha, nomeado ministro da Aviação Civil por pressão do PMDB, também é focada em aliados políticos e em sua região eleitoral. Nas 93 reuniões que divulgou, ele recebeu 89 pessoas, sendo 29 políticos do PMDB e sete do PT. Os empresários do ramo de aviação incluídos nos compromissos oficiais foram 11 e representantes de instituições do setor, oito.

Quando o recorte é por Estado, o Rio Grande do Sul, base de atuação política do ministro, também se destaca. Ao todo, 17 representantes do Estado tiveram audiências com ele. Santa Catarina teve quatro representantes, e São Paulo e Rio de Janeiro, quatro cada um.

Patrus Ananias, um dos principais líderes do PT de Minas Gerais e ex-ministro do governo Luiz Inácio Lula da Silva, é o titular do Desenvolvimento Agrário na gestão Dilma Rousseff. Nas 58 reuniões que tornou públicas, ele recebeu pelo menos 56 pessoas ou representantes de instituições interessadas no ministério. Dos 21 políticos atendidos, ao menos 17 eram do PT - há uma reunião com deputados que não discrimina a sigla dos participantes. E a unidade federativa mais representada na lista de compromissos de Patrus foi Minas, com nove pessoas, incluindo o prefeito de Uberlândia, Gilmar Machado (PT), e três deputados federais do PT mineiro.

Proximidade. Políticos recebidos pelos ministros reconhecem que ser do mesmo partido facilita conseguir a reunião. O ex-deputado Luciano Castro (PR-RR), que já teve duas reuniões com Antonio Carlos Rodrigues em 2015, disse que no ministério comandado por seu partido o "atendimento sempre é mais rápido", mas que isso não significa resolução de problemas. "Poderia ter soluções para outros partidos e não de alguns do PR", afirmou, sobre anos anteriores em que a pasta dos Transportes também era comandada pela legenda.

O deputado Danilo Forte (PMDB-CE) disse que já se encontrou com os ministros de seu partido. "Nos ministérios do PMDB, até que a turma está sendo ouvida, recebida." Forte afirmou que as reuniões que pediu serviram como "cortesia" para os colegas alçados ao primeiro escalão federal.

O deputado Leonardo Monteiro (PT-MG), que teve reunião com Patrus, disse que o encontro serviu para tratar de assuntos de comissões da Câmara ligadas à pasta e da liberação de emendas suas que estão represadas.

Agenda secreta. O levantamento da reportagem foi feito com informações tornadas públicas pelos ministérios. É recorrente entre as autoridades, no entanto, divulgar agendas dizendo que seus compromissos são "reuniões internas" ou "despachos internos", sem dizer o que fazem ou com quem se encontram. Caso emblemático entre os novos ministros da presidente é o do titular dos Portos, Edinho Araújo (PMDB-SP). Desde 2 de janeiro, ele divulgou 29 agendas no site da pasta. Em 22 desses dias, consta apenas a informação de que houve "reuniões internas".

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.