A vingança do coveiro: enterrar assassino do neto

Segurança de prefeito matou jovem após discussão

O Estado de S. Paulo

12 Outubro 2013 | 16h00

O coveiro Aloizio Fernandes, de 69 anos, de Milagres (CE), resolveu adiar a aposentadoria com que tanto sonhava. Sem armas, sem dinheiro para pagar pistoleiro nem coragem para vingança, ele esperava, simplesmente, a morte do assassino de seu neto. "Eu disse para a cidade inteira: só deixo meu trabalho no dia em que enterrar o cabra", relata.

Na festa da padroeira da cidade, Nossa Senhora dos Milagres, em plena disputa eleitoral de 2004, o neto dele, Iramilson Fernandes, e um grupo de jovens discutiram com o segurança Geones Correia Lima, que trabalhava para o prefeito e candidato à reeleição Hellosman Sampaio de Lacerda, do PMDB. Hellosman era condenado por violência sexual contra menores. A discussão política chegou ao extremo. Com um revólver na mão, Geones ordenou que os jovens se ajoelhassem e, depois, disparou na nuca de Iramilson.

O caso foi classificado como crime político pelo Tribunal de Justiça do Ceará. Em 2010, o ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal, decidiu transferir o julgamento de Geones para Fortaleza, por causa da pressão política em Milagres. Eleito pela primeira vez em 1982, o médico Hellosman está em seu quinto mandato – 18 anos à frente da prefeitura. No Cariri, ele é conhecido por sua capacidade de persuasão.

Em 2004, a relatora da Comissão Parlamentar de Inquérito da violência e das redes de exploração sexual de crianças e adolescentes, Maria do Rosário (PT-RS) – hoje ministra da Secretaria Especial dos Direitos Humanos –, escreveu no relatório final que Hellosman chegou a usar arma para obrigar um menor a praticar sexo. Geones, segundo ela, foi quem levou o menor para o encontro com o prefeito.

"Durante as investigações, restou apurado que outros adolescentes do sexo masculino também foram vítimas de exploração sexual por parte do sr. Hellosman, o qual se valia do poder econômico e político para mantê-los em silêncio e à sua disposição para lhe satisfazer os desejos sexuais", diz o texto.

Em 2006 e 2010, Hellosman foi o principal cabo eleitoral de Lula em Milagres – apesar de, em 2007, ele ter sido condenado a oito anos e três meses por atentado ao pudor e crime de ameaça a um jovem de 17 anos. Na última eleição presidencial, o prefeito pediu votos para Dilma Rousseff. Hellosman também é apoiado pelo senador Eunício Oliveira (PMDB-CE) e mantém boas relações com o governador Cid Gomes (PROS). "Ele (Hellosman) é um bom gestor, trabalha muito para os pobres, a população gosta dele", diz Eunício.

A cidade venera Hellosman. Ele costuma pagar cestas básicas, contas de energia e água de parte dos 28 mil moradores.

Os santinhos de sua campanha continuam colados até na parede da casa do coveiro Fernandes. "O prefeito é um homem bom. O problema é a turma de vereadores ao lado dele", diz Fernandes, resignado. Foi Hellosman quem pagou as últimas contas de energia da casa. O coveiro não tinha a força de outros parentes de vítimas da violência política para consumar pelas armas a vingança. Mas o ódio, limitado a Geones, continuou – e ele decidiu que só abandonaria o trabalho após enterrar o assassino do neto.

Finalmente, chegou a notícia da morte de Geones. O segurança teria se enforcado. "Os irmãos dele não vieram me pedir para enterrar, porque estavam com vergonha. Mandaram uma velhinha. E finalmente enterrei quem eu queria", relata Aloizio.

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