A saída é política

Marcelo Odebrecht poderia invocar Luís XIV e dizer: ‘O Estado fui eu’

João Domingos, O Estado de S.Paulo

15 Abril 2017 | 03h00

Os poderes da República, os políticos, os empresários e a sociedade, enfim, o Brasil inteiro, não têm outra alternativa nesse momento a não ser levantar a cabeça e buscar uma saída política para a crise. Crise que vem se arrastando por tanto tempo que é até difícil imaginar o País sem uma, agora agravada pelas delações da Odebrecht. 

A saída é política porque é a única dentro do estado democrático de direito. Qualquer outra que se pense será autoritária, uma ameaça às conquistas democráticas que, em menos de 30 anos, possibilitaram a realização de uma Assembleia Constituinte, eleições diretas em todos os níveis, alternância de poder e o impeachment de dois presidentes, com assunção do vice, exatamente como manda a Constituição. 

A solução política, no entanto, é trabalhosa. Ela pede atitude, desapego, independência, coragem e tolerância. Cobra desprendimento, que se pense no Brasil e não num partido ou num grupo político. Se a saída for uma Constituinte exclusiva para fazer uma reforma política, que os congressistas se esqueçam da manutenção de seus privilégios e não a impeçam de funcionar. 

Haverá no Brasil dirigentes partidários dispostos a assumir esse papel e buscar uma saída para a crise? Essa é a pergunta que muito se ouve, agora que as relações promíscuas entre o público e o privado estão às escâncaras, que parte da legislação brasileira se encontra sob suspeita, pois aprovada a partir de negociações obscuras ou mesmo compradas. 

Caso não apareçam dirigentes partidários e também ocupantes dos poderes da República dispostos a buscar a saída política, a população vai continuar sofrendo por um tempo mais longo os impactos da crise provocada pelo conluio dos partidos com o setor econômico, um conluio feito para achincalhar, chantagear, roubar o dinheiro público e o cidadão. 

Porque a crise pode atrasar votações importantes, como as reformas da Previdência e trabalhista. Goste-se delas ou não, o fato é que sem mudanças na Previdência o sistema quebra. Se a reforma não for feita agora, terá de ser feita pelo próximo presidente, talvez com uma base de apoio menor no Congresso, o que significa uma situação mais difícil.

As revelações dos executivos e ex-executivos da Odebrecht têm deixado o cidadão indignado. E é para deixar mesmo. Percebe-se no depoimento do empresário Marcelo Odebrecht, por exemplo, que ele acumulava poder superior ao dos presidentes petistas Lula e Dilma Rousseff, os dois com os quais conviveu. Tinha uma bancada maior do que a de qualquer partido. Controlava o governo e tinha influência sobre aqueles com perspectiva de poder. Em outras palavras, Marcelo Odebrecht poderia invocar o rei Luís XIV, da França. Só que em vez de dizer “o Estado sou eu”, agora que está preso, ficaria melhor “o Estado fui eu”.

Por que Marcelo Odebrecht acumulou tanto poder? Ora, porque os dirigentes do País o permitiram. Os milhões que circularam para lá e para cá falaram mais alto do que as convicções ideológicas. Que outro empresário pode dizer que seus interlocutores eram Antonio Palocci e Guido Mantega, ministros da Fazenda de Lula e Dilma? Que empresa pode dizer que ajudou a escrever a Carta aos Brasileiros, documento com o qual Lula, candidato em 2002, disse ao capital que não o perseguiria? Lula foi cooptado antes mesmo de assumir.

Uma certeza fica. O eleitor será mais exigente na próxima eleição. Essas figuras carimbadas pelas suspeitas de desvio de dinheiro, chantagem e corrupção, terão dificuldades para se reeleger. Não só porque estarão expostas na galeria dos malfeitos, mas também porque vão encontrar embaraços financeiros para bancar suas campanhas antes milionárias.

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