1. Usuário
Assine o Estadão
assine

  • Comentar
  • A+ A-
  • Imprimir
  • E-mail
Entrevista. Lindbergh Farias (PT-RJ), senador

Para senador, Dilma se afasta do PT, mas não vai conseguir acalmar os que estão contra ela ‘no andar de cima’

‘A pauta da presidente vai contra a gente’

Luciana Nunes Leal / RIO

Um dos principais porta-vozes da insatisfação do PT com o governo, por causa da política econômica e de propostas como a reforma da Previdência, o senador Lindbergh Farias (PT-RJ), de 46 anos, intensificou as críticas à presidente Dilma Rousseff: disse que ela está motivada por uma tentativa de “amenizar” a pressão pelo impeachment, mas corre o risco de perder o apoio da base e não acalmar os adversários.

Lindbergh Fatias, do PT fluminense
Lindbergh Fatias, do PT fluminense

Segundo Lindbergh, as críticas ao ajuste fiscal serão intensificadas especialmente depois da aprovação do projeto do senador José Serra (PSDB-SP) que retira da Petrobrás a condição de operadora única e o mínimo de 30% na exploração do pré-sal.

Como se chegou a este ponto de tensão entre o PT e a presidente?

Minha tese é que a pauta que a Dilma está escolhendo vai contra a gente. É um movimento, na minha avaliação, consciente por parte da presidente de se afastar das nossas políticas, dos nossos programas. A reforma da presidente colide diretamente com o movimento sindical, com as nossas bases. Estamos no meio de uma guerra, a guerra do impeachment. E tem uma luta nas ruas inclusive. A presidente escolheu uma pauta que vai contra os nossos.

A reforma da Previdência é o ponto central da discordância?

E a reforma fiscal que foi apresentada pelo ministro Nelson Barbosa (Fazenda) que congela até a política de valorização do salário mínimo, que fala em redução do salário do funcionalismo. Essa política de reforma fiscal vai no sentido oposto do que a gente acha para a economia. A gente utiliza a experiência (da crise) de 2008 e 2009. O que o Lula fez? A gente aproveita esse momento em que as famílias estão economizando, as empresas também. O Estado tem que ampliar os investimentos e os seus gastos sociais. Em 2008 e 2009, o governo gastou mais.

Mas como gastar mais se o governo enfrenta uma grave crise? De onde vai tirar recursos?

Em 2014, nós pagamos R$ 300 bilhões de juros. Em 2015, foram R$ 500 bilhões. O espaço para gastar mais é o espaço de baixar a taxa de juros. Achamos que há caminho. Lula aumentou gastos porque baixou juros. Quando você baixa, sobra dinheiro, porque o impacto fiscal é muito grande para incentivar a economia. O maior problema para a gente não é fiscal. É o desemprego, a recessão. Se Dilma for nesse caminho, podemos em dois anos perder as conquistas de 12 anos.

Por que a presidente insiste nas propostas das quais o PT discorda?

O afastamento é muito mais dela do que nosso. Fico pensando até se não é algo consciente, se afastar do PT, tentar construir uma agenda com parte da oposição, o que a gente viu na votação do pré-sal foi isso. Quer passar a ideia de que é a presidente de todo País. Ela tem a ilusão de que pode diminuir essa raiva contra ela, a favor do impeachment, apresentando uma agenda desse tipo, se rendendo a um outro projeto. Ela acha que vai acalmar e pacificar o País com isso. Ela nem vai conseguir acalmar os que estão contra ela no andar de cima e pode acabar perdendo a base dela. Vai ter um ato no dia 31 de março, contra o golpe, contra o impeachment, mas vai ser diferente, vai ter como centro pautas contra a reforma da Previdência, contra o ajuste fiscal, em defesa da Petrobrás. Vai ser um ato com tom muito mais crítico a ela, dos movimentos sociais. Ela está conseguindo algo impensável, se afastar de sua base. Ela não vai amenizar o andar de cima. Esse pessoal quer tirá-la do governo. Ela está se oferecendo para esse pessoal e esquecendo sus base. Você sabe que no Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa, o personagem Riobaldo tenta oferecer a alma ao diabo, mas o diabo ignora.

O que aconteceu na votação do projeto do pré-sal?

Achava que o rubicão dessa relação difícil com a Dilma ia ser em abril, quando ela apresentasse a reforma da Previdência e a reforma fiscal, porque nosso pessoal não vai aceitar. Essa pauta de retirada de direito dos trabalhadores é desnecessária. Mas foi antecipado para a votação do pré-sal, houve uma grande decepção com o que aconteceu. Não era um projeto qualquer. Eu estive de manhã no Palácio, com Berzoini (Ricardo Berzoini, ministro da Secretaria-Geral da Presidência), a orientação era contra o projeto, íamos ganhar. De uma hora para outra chegou Romero Jucá (PMDB-RR, relator do projeto) e anuncia apoio do governo. A gente se sentiu abandonado no meio de uma guerra. O governo mudou de lado, nós perdemos porque o governo mudou de lado.

Qual o futuro do PT, diante dessa tensão com o governo?

A gente só tem um nome, que nos unifica, do presidente Lula, que está sendo violentamente atacado por causa das eleições de 2018. Como acreditamos que ele vai sair ileso disso tudo, ele tem que ter uma narrativa para 2018. Qual é a narrativa? O seu governo.

Acredita que a presidente possa deixar o PT?

Espero que não, o que a gente quer é que ela aceite um pouco nossas opiniões, revise o planejamento para este ano. Esperamos que ela discuta a reforma da Previdência com os trabalhadores, os sindicatos. Que não mande a reforma, como disse o ministro Nelson Barbosa, independente de acordo com sindicatos. Se fizer isso, será um passo quase de rompimento com setores de sua base social.

Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Estadão.
É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O Estadão poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.

Você pode digitar 600 caracteres.

Mais em PolíticaX