‘A irmandade Lula-Dilma não tem nada a ver com Maluf-Pitta’

Entrevista com a senadora do PT, Marta Suplicy

Roberto Almeida, de o Estado de S.Paulo,

08 Dezembro 2010 | 23h01

SÃO PAULO - A senadora eleita Marta Suplicy (PT-SP) criticou nesta quarta-feira, 8, em entrevista ao Estado, a maneira como o aborto foi abordado na campanha, esquivou-se sobre pretensões ministeriais e disse que o PT paulista cometeu "erro" ao dar prioridade à candidatura de Netinho de Paula (PC do B) ao Senado. Leia os principais trechos da entrevista.

 

Veja a entrevista na íntegra:

 

A senhora assume pela primeira vez uma cadeira no Senado. Como vai ser sua atuação nesse princípio de governo Dilma?

 

Vou com enorme apetite, com muita vontade de trabalhar e ser o braço direito de Dilma no Senado. É um desafio e uma responsabilidade gigantesca representar o Estado de São Paulo e, para mim, um novo momento, de experiência absolutamente nova, para o qual eu me sinto muito preparada.

 

A senhora sempre teve uma bandeira muito forte, de defesa da mulher. Essa bandeira será levada ao Senado?

 

Eu tenho uma história de vida de defesa das questões da mulher. Mas eu fiquei extremamente satisfeita que no primeiro discurso como presidenta eleita, ela fez nas primeiras frases uma referência à importância da questão da mulher no cenário nacional e no crescimento de ocupação de espaços de poder. Eu senti que tenho uma parceira. E eu quero ser parceira muito forte dela nessas questões.

 

Uma questão que a senhora sempre trouxe durante sua trajetória foi dos direitos reprodutivos. Pretende tratar disso novamente, nesse momento?

 

Pretendo, mas não é o assunto principal, na medida em que tratei dessas questões como deputada de forma muito forte. Tanto nas questões das pessoas discriminadas pela sua sexualidade como nas questões de direito reprodutivo. Eu me vejo hoje como uma pessoa que tem uma luta que rendeu muitos frutos no Brasil, mas que hoje tem uma bagagem e responsabilidade em muitos temas também.

 

Eu pretendo sim, porque principalmente acredito que ninguém mais no Brasil hoje tem vontade de, daqui a quatro anos, passar pelo que nós passamos na última eleição - principalmente em relação ao aborto. Acho que devemos caminhar, mas com uma visão muito mais ampla do que foi focada, numa questão de disputa eleitoral. Se hoje nós temos a incidência de um número de mortes gigantesca por questões de aborto - mais de um milhão de mulheres por aborto anualmente - nós temos de pensar que chegam lá porque não tiveram nenhuma assistência preventiva. Nós não temos educação sexual. Aqui em São Paulo, desde meu mandato, nunca mais tivemos. Nós não temos postos de saúde que acolham essa mulher com anticoncepção, não temos a pílula do dia seguinte respaldada e de fácil acesso. Então nós temos uma situação onde a mulher está à deriva, o que é confirmado pelo número de aborto que nós temos. Essa questão não pode mais ser colocada embaixo do tapete. E não pode ser discutida em época eleitoral. Temos de discuti-la como cidadãos, homens e mulheres, que vive essa situação.

 

Por que a senhora acha que na campanha eleitoral a discussão do aborto tomou o rumo que tomou?

 

Por uma manipulação da direita, que achou que levaria vantagem nessa discussão, e que acabou se dando mal. Encontrei várias pessoas, não de direita, mas que votavam no PSDB, e que deixaram de votar quando viram essa postura ser incentivada pela candidatura da oposição.

 

A senhora acha que o desenrolar da discussão sobre o aborto pode levar à adoção de novas políticas públicas?

 

Eu acho que ninguém ganhou ou perdeu a eleição por causa disso. Essa é a primeira constatação. Mas acho que é um tema muito importante para nós mulheres. E que então vamos ter de ter discussões sobre isso. Se vamos conseguir chegar a um avanço? Eu acredito que sim. Talvez não em termos legislativos necessariamente, mas em relação à prevenção, certamente seria indesculpável, nesses quatro anos, nós não termos um avanço concreto nessa situação.

 

A senhora já fez uma reunião com o PMDB. De que forma pretende se articular no Senado e trabalhar com os partidos?

 

Tive uma reunião com algumas pessoas do PMDB e várias reuniões com a bancada do PT. Eu acredito que nós temos de ter uma coligação muito forte para dar sustentabilidade ao governo. Eu pretendo me relacionar muito bem com a oposição e com os coligados. Sem essa possibilidade de conversa e de troca de ideias de forma respeitosa, não vamos ajudar a presidenta. E eu quero ser um elo forte nisso.

 

Almeja ser líder?

 

Não pensei nisso. Estamos em disputa pela primeira vice ou pela primeira secretaria. O PT não tem uma decisão. Acho que são opções bastante diferentes porque a primeira vice significa uma opção pela política e a primeira secretaria significa uma opção pelo poder e moralização. Mas o momento que nós vivemos hoje é de renovação no Senado em dois terços. A maioria dos senadores foram eleitos com a bandeira da moralização. O clamor popular exige isso. Não importa a configuração.

 

Então acredito que essa primeira secretaria vai ter de desempenhar esse papel. E isso já começou nos últimos seis meses dessa presidência, quando foi feita uma comissão, com Tasso, Antonio Carlos Junior, Suplicy, Pedro Simon, para elaborar um relatório sobre as condições do Senado, mostrando os caminhos de desmonte e melhorias que deveriam ser implementadas na nova legislatura. Eu acredito que é um trabalho que não tivemos ainda acesso a tudo, mas que certamente vai servir de material para quem for primeiro secretário. Não tem mais retrocesso nisso. A população não aceitaria um Senado que não trabalhasse nessa direção. Então o PT tem uma opção aí mais política ou de mais poder.

 

Nesse sentido, qual o problema específico do Senado nesse momento?

 

O grande desafio é arrumar, entre aspas, o Senado. Para que não tenhamos de viver situações como a de hoje, que está nos jornais, do Gim Argello. Isso é inadmissível. E a estrutura gigantesca que lá se criou. Que também a população clama por moralização do que foi acumulado em sucessivas gestões, e que hoje temos um quadro que é insatisfatório para senadores e para a população. Vai ter de mudar. O outro desafio que acho que interessa tanto quanto é a governabilidade dentro da decência. E que isso a gente quer ser partícipe.

 

A senhora sempre foi um dos nomes cotados para ministérios por proximidade com Dilma. Pensa em voltar à Esplanada?

 

Tenho oito anos no Senado. É muito tempo, para acontecer de tudo. E tenho um desafio gigantesco, de chegar como protagonista de um Estado como São Paulo. Com mais de oito milhões de votos, e tendo sido ex-prefeita. Vou com enorme apetite para trabalhar, ajudar e ser um braço direito dela lá.

 

Como vê Dilma politicamente?

 

A Dilma é brilhante e tem sido sempre avaliada como menor do que realmente é. E todo mundo que teve o privilégio de conviver um pouco com ela percebeu isso. O primeiro a perceber foi o Lula. Então tenho certeza que é um momento de enorme importância para o Brasil, não só por termos a primeira mulher presidente. Mas por termos uma mulher tão qualificada e, eu diria, experiente como ela. E como ela está conduzindo as primeiras entrevistas e a elaboração do ministério tem mostrado isso. As críticas que dizem que ministério Lula invade, faz isso, faz aquilo...a Dilma foi eleita como continuidade com mudanças do governo Lula. Ela tem perfeita consciência desse processo. Então ali existe uma irmandade entre ela e Lula que não tem nada a ver com Fleury-Quércia, Maluf-Pitta.

 

Aquilo não tem possibilidade de ser montado. Nesse sentido, é visto com muito bons olhos, eu acredito, por ela, e pelo Lula que tem a liberdade de falar o que fala, e pela população, que queria votar no Lula e votou na Dilma. Não vejo isso como um problema, assim como ela não vê.

 

Partidos reclamam que Dilma tem sido ausente das negociações. A senhora acredita que ela deveria aparecer mais?

 

Não. Um chefe de Estado tem de se poupar em alguns momentos das negociações, e ela tem alguém muito capacitado para fazer essas conversas, que é o Palocci - que está ajudando muito bem, sob a direção dela.

 

Sobre sua campanha ao Senado, petistas diziam que sra. se afastou do partido durante a corrida eleitoral. Chegou até a contratar um marqueteiro em separado - Duda Mendonça. Como vê isso hoje? Houve esse afastamento?

 

Em alguns momentos sim. Mas acho que o PT fez um erro, que inclusive suscitou um pouco esse afastamento em alguns momentos. Que foi não ter priorizado a candidatura ao Senado pelo PT. E com isso nós arriscamos nossa cadeira.

 

Acho que foi uma avaliação equivocada, que o Aloysio Nunes não teria chances. Equivocada por quê? Equivocada porque quem é candidato ao Senado de um candidato que tem 50% dos votos e tem uma prefeitura favorável e tem o governo estadual nas mãos e uma candidatura a presidente forte no Estado muito dificilmente não vai crescer. Então acho que fizemos uma avaliação errada nesse sentido, mas graças a Deus tudo deu certo e o PT manteve a cadeira.

 

A senhora está se referindo à aposta que foi feita na candidatura de Netinho de Paula (PC do B)?

 

É. Foi feita uma aposta que dava para eleger dois candidatos do mesmo campo. E foi uma aposta equivocada. É raríssimo São Paulo eleger dois candidatos do mesmo campo.

 

Esse seu afastamento deixa alguma sequela com o PT estadual?

 

Da minha parte não. Vira-se a página e é um novo momento. Estou muito satisfeita que o Mercadante tem a chance de ser ministro.

 

Como avalia a hegemonia tucana em São Paulo? Por que no Palácio dos Bandeirantes não houve, nos últimos 16 anos, espaço para outras correntes?

 

Certamente, devido a bastante acertos deles, mas ainda mais por erros nossos. Porque senão já teria mudado. Acho que administramos melhor que eles. Nós temos maior competência pegando governos em cidades arrasadas e conseguimos recompô-las. Para ter uma ideia, eu avalio esse governo da prefeitura de hoje extremamente medíocre.

 

Nós pegamos a prefeitura depois de oito anos de devastação e trabalhamos no final do governo com R$ 15 bilhões. A prefeitura Serra pegou um governo muito organizado, ao contrário do que ele dizia, com as finanças em ordem, e trabalha hoje com R$ 30 bi. E é um governo hoje que não tem uma marca. Então nós devemos ter errado muito em nossas campanhas.

 

É preciso mudar o discurso?

 

Nunca aprofundamos o peso de uma mídia que raramente é neutra em relação ao PT com a enorme classe média que existe na cidade de São Paulo. Isso tem de ser repensado. Porque essa classe média lê jornal no papel ou na internet e se informa através dessa experiência. Não usa serviços públicos. Nunca aprofundamos no PT essa reflexão. Não é conquistar, porque não se conquista dando flor ou fazendo discurso bonito, mas se conquista com projetos e compreensão dos projetos do que se quer para um País, para uma cidade. Dos que usam serviço público e serviço privado.

 

Quando você faz um CEU e diminui a violência naquela região, você também afeta a violência nos lugares mais ricos. Quando faz bilhete único, privilegia quem anda em transporte público, mas privilegia também todas as pessoas que andam de carro e trabalham, têm funcionários que usam o bilhete único. Tudo isso, acho que muitas vezes não conseguimos transmitir. Parte um pouco, acredito, é de um ranço ideológico contra o PT, porque aqui o PT nasceu, onde o sindicalismo é muito forte, onde as pessoas que não são desse campo se sentem marginalizadas em relação a essa força, sem pensar que essa força as beneficia.

 

 

Considera voltar a disputar um cargo em São Paulo?

 

Não fecho portas na vida, porque já aprendi que o mundo gira. Mas nesse momento meu enfoque é um trabalho muito concentrado no Senado, pensando em contribuir para o Brasil e para o Estado de São Paulo. Tenho muitas ideias de como fazê-lo. Mas a política é sempre uma questão de conjuntura. Eu não pensei em ser candidata ao Senado. E a conjuntura me levou a ser candidata ao Senado, Então na política você não fecha porta. Mas se você me perguntar o que eu penso hoje, é em ser uma boa senadora.

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