Marcos de Paula/AE
Marcos de Paula/AE

A insustentável arte de 'desencarnar'

Agenda do ex-presidente ainda lembra a agitação do Planalto, com direito a conversas de bastidores, viagens e inauguração no exterior

Vera Rosa, de O Estado de S.Paulo,

19 Fevereiro 2011 | 21h50

SÃO PAULO - Nada de ajuste fiscal, juros altos ou cotoveladas na base aliada. Cinquenta dias após deixar o Palácio do Planalto, o que atormenta mesmo a vida do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é uma teimosa goteira dentro de seu apartamento de São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Sem avarias no relacionamento com a presidente Dilma Rousseff, ele atribui as "fofocas" sobre atritos entre criador e criatura à tentativa da oposição de criar fatos.

 

"Eu não tenho uma vírgula de discordância com a Dilma e, quando tiver divergência, ela terá sempre razão", disse Lula ao Estado, na sexta-feira, durante viagem de volta do Rio para São Paulo, no voo 1517 da Gol.

 

Enquanto lia A Nova Toupeira, de Emir Sader, que trata dos desafios da esquerda na América Latina, o ex-presidente reclamava com o assessor Paulo Okamotto da falta de pedreiro para consertar a goteira de três anos e traçava planos para o Instituto Lula. Quer criar um portal na internet e instalar um Memorial das Lutas Sociais no centro de São Paulo, na região conhecida como Cracolândia. Tenta encontrar um imóvel com o auxílio do prefeito Gilberto Kassab, que pode migrar do DEM para o PSB.

 

Disposto a não causar embaraços a Dilma, a quem chama de "essa menina", Lula faz de tudo para protegê-la. Na quarta-feira, dia da votação do salário mínimo de R$ 545 na Câmara, ele conversou com a herdeira várias vezes por telefone, do Rio, e transmitiu uma série de orientações. Na quinta, ligou para cumprimentá-la pela vitória no primeiro teste parlamentar. "Foi justo o que foi aprovado. As centrais sindicais não podiam quebrar as regras. Acordos são para ser cumpridos porque, se você não age assim, perde o respeito", afirmou.

 

Quando é cercado por jornalistas, porém, Lula não parece nada à vontade ao falar sobre o governo. Embora admita dificuldades no seu processo de "desencarnação", por ter passado a faixa presidencial com 87% de popularidade, quer um tempo para "maturar" as ideias antes de dar entrevistas. A quarentena vai até a Quarta-Feira de Cinzas. "Eu combinei com a Dilma que, ou eu vou ajudar, ou vou ficar calado. Sempre fui assim. Quando deixei o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e quando saí da presidência do PT, não ficava dando palpite. Acho isso uma coisa abominável", insistiu.

 

A atuação de Lula na seara política ocorre nos bastidores, longe dos holofotes. Na noite de quinta, ainda no Rio, ele jantou com empresários que lhe pediram para traçar um panorama econômico, com perspectivas para os próximos anos. Antes, naquele mesmo dia, havia almoçado com a economista Maria da Conceição Tavares (PT). Diante da queixa da ex-deputada de que não conseguia ser atendida por Dilma, passou a mão no telefone e ligou para o Planalto.

 

"Fale aqui com ela agora", disse Lula, entregando o aparelho para a amiga. "Quem tem um padrinho desse não morre pagão", devolveu a economista. Conhecida por críticas contumazes à ortodoxia econômica, Maria da Conceição marcou encontro com Dilma para os próximos dias, mas garantiu que não dará bordoadas no corte de R$ 50 bilhões do Orçamento. "Eu não sou maluca. Estou do jeito do Lula, numa nice", brincou.

 

Viagens e conferências. Depois de participar do Fórum Social Mundial, no Senegal, o ex-presidente viajará amanhã para a Guiné. Em seus dois mandatos, ele visitou 29 países do continente africano. Agora, mesmo longe do poder, Lula tem programação típica de governante: a convite da Vale do Rio Doce, lançará a pedra fundamental da ferrovia Trans-Guiné, destinada ao transporte de passageiros e cargas leves.

 

Na prática, o homem mais importante do País nos últimos oito anos não conseguiu, até hoje, vestir o figurino de "ex" nem mudar a rotina. Por todo lugar onde anda, é tratado como popstar. Ao ser assediado, nunca ouve cobranças. Ninguém menciona crises como o escândalo do mensalão, de 2005. Na ponte aérea do Rio a São Paulo, por exemplo, Lula distribuiu autógrafos, posou para fotos com passageiros e foi até convidado para um churrasco pelo operador de abastecimento da aeronave. Antes, parou para abraçar a cantora e compositora Dona Ivone Lara, que estava no voo.

 

"Parabéns pelo seu governo, pelo que o senhor fez pelo Brasil e vai continuar fazendo", elogiou o ator Camilo Bevilacqua, que se dirigiu até a poltrona 10 A, onde estava Lula, pouco antes da aterrissagem, às 11h45. "Eu já fiz tudo o que quero na vida. Não tenho mais projetos", afirmou o ex-presidente, que, a essa altura, foi interrompido por Okamotto. "Como não tem mais projetos? Tem, sim, senhor."

 

Lula ainda não definiu o formato do instituto que ganhará o seu nome. Avalia a possibilidade de abrigar cursos de gestão pública e pôr à disposição de outros países experiências bem sucedidas adotadas no Brasil. O Instituto Cidadania, organização não-governamental que ele mantinha no Ipiranga, antes de chegar ao Planalto, está agora em reforma para se transformar em uma espécie de encubadora da nova fundação.

 

Palacete. Embora o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), tenha sugerido o Palacete Linneo de Paula Machado, em Botafogo, para sede do Instituto Lula, o ex-presidente prefere ficar mesmo em São Paulo. "Vou voltar para o lugar de onde saí para o Planalto", garantiu ele ao Estado.

 

Mesmo sem bater o martelo sobre as diretrizes da nova entidade, Lula tem uma certeza: não quer nada parecido com o Instituto Fernando Henrique, comandado por seu antecessor na Presidência. "É muito personalista", resumiu. "Eu também não quero ficar só fazendo conferências."

 

Além dos 40 títulos de Doutor Honoris Causa que tem a receber no Brasil e no exterior, o ex-presidente já acertou palestras em Nova York, Madri e Londres, a partir de março. O valor das palestras é mantido em sigilo, mas, em geral, cobra-se na faixa de R$ 200 mil por cada apresentação internacional.

 

Quem conversou com Lula, nos últimos dias, saiu com a impressão de que ele gostaria de ser um "embaixador" da luta pela erradicação da miséria no mundo. É por isso que a África está na sua mira. "Lula é o Nelson Mandela tupiniquim", comparou o pesquisador Marcelo Neri, da Fundação Getúlio Vargas.

 

Neri revelou que Lula não quer pendurar as chuteiras tão cedo na política. Quando o economista apresentou a ele, na quarta-feira, pesquisas indicando que a população em idade ativa começará a cair a partir de 2024, observou uma interrogação na sua fisionomia. "Marcelo, você acha que depois de 65 anos as pessoas param de trabalhar?", perguntou. Ele mesmo respondeu: "Nem pensar. Nada de pijama". As chuteiras também não serão aposentadas no futebol. "Acertamos de jogar uma pelada no Rio", contou o amigo Chico Buarque.

 

Por enquanto, o "gabinete" de Lula funciona na suíte de um elegante hotel, em São Paulo. No seu apartamento, em São Bernardo, ele diz não conseguir achar um terno, de tanta caixa empilhada. O ex-presidente que lava louça ainda precisa voltar a fazer coisas da rotina de um cidadão comum, como ir ao oculista. "Estou com esses óculos desde 2002 e não enxergo mais nada", reclamou, com dificuldade para ler o livro do amigo Sader. Antes de fechar as páginas, fez uma confidência: "Ele acha que eu enganei a direita e a esquerda."

 

Sob nova direção

 

"Eu não tenho uma vírgula de discordância com a Dilma e, quando tiver divergência, ela terá sempre razão"

Mais conteúdo sobre:
Lula presidência especial

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.