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A hora da criatura

VERA ROSA, RICARDO GALHARDO - O Estado de S.Paulo

06 Julho 2014 | 02h 05

As batalhas internas da presidente da República para dissipar o 'volta, Lula' e o desafio de reinventar uma gestão abalada pelas manifestações de junho de 2013

Cinquenta dias antes da convenção do PT que oficializou sua candidatura à reeleição, Dilma Rousseff teve uma conversa franca com Luiz Inácio Lula da Silva. Faltavam poucas horas para o encontro petista que aprovaria as diretrizes do programa de governo da presidente, quando ela e Lula se reuniram no Comando Militar do Sudeste, em São Paulo. Ali, longe dos holofotes, os dois acertaram as diferenças para, momentos depois, aparecerem sorridentes no Centro de Convenções do Anhembi.

Dilma estava incomodada com o coro do "volta, Lula", que, em abril, atingira proporção ainda maior. Com a popularidade em queda e acossada no próprio partido por vozes que pediam o retorno do ex-presidente, ela queria saber se o padrinho político gostaria de chefiar sua campanha. Lula respondeu que o papel dele era o de percorrer o País como caixeiro-viajante para "vender" as obras do governo, confrontar os projetos com os do PSDB e resgatar a imagem do PT, mas cobrou mais "sangue nos olhos" de Dilma.

André Dusek/Estadão
Dona de temperamento explosivo, Dilma tenta emplacar fisionomia mais "humana" nessa campanha

"Você também precisa fazer a disputa política, defender o governo desses ataques", disse Lula à presidente, naquela sexta-feira, 2 de maio. Mais tarde, no auditório do Anhembi, ele repetiu à plateia o que afirmara a portas fechadas para a herdeira, escancarando o mal-estar com a apatia do Palácio do Planalto.

"Se você reunir o seu ministério, Dilma, 80% não vai saber nem 30% do que nós fizemos. Se eles não sabem, o povo também não sabe. Quem tem que falar bem de você é você mesma", discursou o ex-presidente.

Ficou acertada ali a nova etapa da estratégia definida pelo marqueteiro João Santana como "marmorização" de criador e criatura, pela qual os governos Dilma e Lula se fundem e são apresentados como "uma coisa só". A tática permite que indicadores econômicos negativos da era Dilma, como inflação e crescimento, sejam vitaminados nos 12 anos de "governo do PT", desde 2003, quando Lula chegou à Presidência.

Tudo foi planejado para abafar o coro do "volta, Lula", formar uma grande aliança para ampliar o tempo de TV de Dilma no horário eleitoral e desconstruir as candidaturas de Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB), o parceiro que se desgarrou do Planalto. Naquele 2 de maio, Lula e Dilma subiram ao palco do Anhembi juntos, de mãos dadas, sob o temor de que os aplausos ao "ex" ofuscassem a presidente. Com o roteiro ensaiado vingou a simbiose, mas o fogo amigo no PT, as brigas por mais poder na campanha, os ruídos com o PMDB e o desempenho tímido da economia, aliados aos protestos de junho de 2013, mudaram várias vezes o script dessa história.

"A vida é mais complexa do que parece", disse Dilma ao Estado, no último dia 25, logo após ceder à pressão do PR e trocar o ministro dos Transportes para conseguir o apoio do partido.

A frase usada por Dilma para resumir as inquietações da atual temporada embala a música do uruguaio Jorge Drexler, que cita um "véu de desassossego" no ar. Quando está de bom humor, coisa não muito frequente no Planalto, a presidente tem o hábito de recorrer a letras de canções para fugir das "cascas de banana" da imprensa.

"Eu tenho uma voz que faz chover, mas gosto de cantar", conta ela, que vira e mexe responde com um "Deixa a vida me levar", sucesso de Zeca Pagodinho, ao ser questionada sobre o rol de dificuldades no relacionamento com os aliados. "Nada me deprime. O meu couro é de jacaré", desconversa.

Sem passado. Dona de temperamento explosivo, conhecida por passar descomposturas nos auxiliares, Dilma tenta emplacar uma fisionomia mais "humana" nessa campanha, aproximando-se de quem se afastou no governo, de políticos a empresários, da imprensa aos movimentos sociais.

Na convenção que formalizou sua candidatura, no mês passado, Dilma chegou até a fazer um mea culpa. "Sou, hoje, uma governante ainda mais madura e disposta a enfrentar desafios. Pronta para ouvir e propor novas ideias", assegurou. Quem convive com ela no Planalto, porém, garante que essa nova Dilma na praça é apenas uma peça de marketing eleitoral.

Acostumada a distribuir broncas, a presidente gosta de cultivar o medo dos subordinados. "Eu não tenho tempo para o passado", interrompeu ela, ríspida, ao ouvir as explicações de um técnico do Ministério da Agricultura que, antes do lançamento do Plano Safra, em maio, tentava lhe contar como eram pagos os fornecedores. "Só tenho tempo para a presente data."

Apesar das resistências no PT ao jeito Dilma de governar, alheio às reivindicações do partido, o ex-presidente dobrou a aposta na sucessora e começou a construir o palanque da reeleição ainda no ano passado, quando uma primeira onda do "volta, Lula" contaminava o ambiente. Em 25 de janeiro de 2013, os dois passaram quatro horas na suíte presidencial do Hotel Renaissance, em São Paulo, "lavando roupa suja". Dias antes, sem esconder a contrariedade com a demora de Lula em implodir o "queremismo", Dilma não se conteve. "Acho que ele quer voltar e espera que eu me retire", comentou a presidente, de acordo com relato de um ministro ao Estado.

Em conversas reservadas, Lula dizia que não tinha interesse em concorrer agora, mas queria influir em eventual segundo mandato da herdeira, na política e na economia. Nos jantares com empresários, porém, ele censurava a política econômica e o secretário do Tesouro, Arno Augustin, alvo de críticas públicas no mês passado. Dizia que o crescimento deveria estar bem melhor, atacava a escassez de crédito e afirmava que era um erro enxergar investimento como gasto. O intervencionismo de Dilma na economia, com o controle das tarifas de energia e do combustível, também assustou o mercado, que não "comprou" o programa de concessões de portos e ferrovias.

Três jantares do movimento "volta, Lula", com a nata do PIB, foram promovidos pela ministra da Cultura, Marta Suplicy, dois deles tendo o ex-presidente como convidado de honra. Ao menos um desses encontros também ocorreu na casa do empresário Josué Alencar, que se filiou ao PMDB, a pedido de Lula, para disputar o Senado na chapa do PT em Minas.

"A antecipação da candidatura da Dilma foi um antídoto para acabar com esse coro do 'volta, Lula' ", admitiu o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, ao lembrar da noite de 20 de fevereiro de 2013.

Naquele dia, Lula aproveitou a comemoração dos 10 anos do PT no Planalto para lançar Dilma ao segundo mandato. Só fez o gesto, no entanto, após receber recado do ministro Aloizio Mercadante, hoje na Casa Civil, sobre o inconformismo da presidente com seu silêncio.

Os protestos de junho foram o divisor de águas do governo. Até então com uma aprovação de 55%, segundo o Ibope, Dilma ultrapassava pela primeira vez a "barreira" do PT, conquistando a classe média. Com a imagem de "gerente" durona, ela foi a comandante da "faxina ética" que derrubou seis ministros acusados de corrupção, no primeiro ano de governo, em 2011. Era quase uma "negação da política", nas palavras de um coordenador de sua campanha.

Nem mesmo o julgamento do mensalão e a condenação de petistas históricos, como o ex-ministro José Dirceu, provocaram tantos estragos no Planalto quanto a revolta de junho, época em que a popularidade de Dilma despencou para 31% e ela foi obrigada a se escorar em Lula, cedendo às pressões.

No rastro da crise mundial vieram a alta da inflação, o pífio crescimento e a ofensiva dos tucanos. As manifestações contra os gastos da Copa do Mundo, a CPI da Petrobrás e até escândalos como o protagonizado pelo ex-vice-presidente da Câmara André Vargas, então no PT, completaram a quadra negativa de Dilma. "Foi um coquetel maldito", resumiu Santana, contabilizando aí os xingamentos a Dilma na abertura da Copa. "Mas o pior já passou."

Serpentário. Diante da romaria de políticos e empresários que bateram à porta do fiador para reclamar da inquilina do Planalto, nos últimos tempos, o Instituto Lula foi batizado na Esplanada de "serpentário do Ipiranga". Era uma referência ao bairro que abriga a ONG do ex-presidente, em São Paulo.

"Dilma é que nem o Tite. Não deixa o time jogar", comparou Lula mais de uma vez, numa alusão ao técnico que comandou o Corinthians, de 2010 a 2013, e preferia a retranca ao ataque.

A senadora Kátia Abreu (PMDB-TO) tentou avisar Dilma de que Lula fazia reparos à atuação dela, durante reuniões com empresários. Ao ser alertada por Kátia, a presidente revirou os olhos, indicando que Miriam Belchior, ministra do Planejamento e próxima de Lula, estava no gabinete e podia ouvir a conversa. Mesmo com divergências, porém, Dilma mantém a reverência ao padrinho, a quem ainda chama de "senhor" e "presidente Lula".

Com estilo centralizador e sem paciência para os salamaleques da política, Dilma isolou, ao longo do governo, os ministros indicados por Lula e enfrentou rebeliões de aliados no Congresso, além de um racha no PMDB do vice, Michel Temer.

Pesquisas em poder do Planalto mostram agora que, apesar da ligeira recuperação nas intenções de voto, Dilma perdeu eleitores que votavam no PT e hoje não associam a melhoria de vida aos programas sociais do governo, como o Bolsa Família.

O tom da reação para reabilitar a imagem da presidente provocou atritos entre Santana e o ex-ministro Franklin Martins. Responsável pelas redes sociais da campanha, Martins sempre achou que Dilma deveria adotar a linha "bateu, levou". Santana, por sua vez, afirma que esse papel é de Lula.

A "dosagem" de Lula na disputa, para não ofuscar Dilma, continua sendo objeto de discórdia. Irritada com os gritos do Ipiranga, a presidente ordenou que seu período no governo seja "destacado" nos 12 anos de gestão do PT. A dúvida, agora, é com que fisionomia a ex-guerrilheira vai encarnar "mais mudanças, mais futuro", slogan de sua nova corrida ao Planalto, sem ficar à sombra do criador.