A cara do pai

Às vésperas de completar 30 anos, o PSDB se assemelha nas práticas e no desgaste ao PMDB

O Estado de S.Paulo

12 Novembro 2017 | 05h00

Em 25 de junho de 1988, um grupo de filiados do PMDB deixou o partido por não concordar com os rumos do governo de José Sarney e com as práticas fisiológicas da sigla. Nascia assim o PSDB, com um programa social-democrata baseado em alguns pilares: defesa de uma máquina pública mais enxuta e menos fisiológica, adoção do parlamentarismo e de uma economia de mercado em que o Estado atuasse mais na regulação.

O partido foi um case de sucesso eleitoral: em seis anos, elegeu um presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, o segundo depois da restituição de eleições diretas no País. Governou por oito anos e, desde então, tem sido um dos polos da política nacional, se revezando com o PT no poder.

Às vésperas de completar 30 anos, o partido dos tucanos é a cara do pai. Não dos pais fundadores, políticos como Mário Covas, Franco Montoro e Fernando Henrique Cardoso, que se distinguiam no discurso e nas biografias daquele PMDB então já carcomido pela velha política. Do pai PMDB, mesmo.

O processo de peemedebezação, que já era verificável ao longo dos anos pela condescendência com práticas fisiológicas e mesmo com a corrupção, pela frouxidão programática e a falta de nitidez ideológica e pela transformação das seções regionais em feudos de caciques e famílias de políticos, agora pode se consumar de vez a partir de uma diáspora de filiados.

Caso a convenção marcada para dezembro resulte na vitória do governador de Goiás, Marconi Perillo, e consequentemente da ala que prega a permanência do partido na administração Michel Temer (mais parecida impossível com a de Sarney, para completar o dèja vu histórico), um grupo considerável pode debandar para outras plagas.

Um dos destinos possíveis é o Livres, nome retrofit do nanico PSL. A dissidência teria como base o grupo dos chamados “cabeças pretas” do PSDB – cabeças essas que são pretas mais à base de tintura ruim do que de ideias realmente novas, diga-se. Seria puxada pelo deputado federal Daniel Coelho (PE), na Câmara, e poderia incluir até alguns senadores, como Ricardo Ferraço (ES).

Diferentemente de 1988, nada leva a crer que o movimento dissidente tenha consistência programática e igual peso político. O que fala muito sobre o fato de que, mesmo sem perder filiados, o PSDB já perdeu densidade ao longo das últimas décadas.

Trata-se de um partido que nunca conseguiu construir uma narrativa virtuosa para seus dois mandatos à frente da Presidência do País, que se envergonhou de defender as privatizações e que nunca hesitou em fazer alianças com o que FHC chamou, em tom professoral, de “o atraso” para vencer eleições. E que agora vê seu destino atrelado ao de Aécio Neves, mantido na presidência da sigla e dando as cartas mesmo denunciado na Lava Jato.

Tal jornada ladeira abaixo deverá ter consequências em 2018, qualquer que seja o vaticínio da convenção de dezembro. Se vencerem os governistas, o risco é a diáspora e uma campanha com Geraldo Alckmin tendo de carregar Temer nas costas e justificar seu governo. Nesse caso, as preces tucanas devem ser todas pela melhora da economia, caminho para que a aliança prospere nas urnas.

Se, por outro lado, o partido decidir desembarcar do governo e conseguir manter seus vários grupos internos, ainda que com fissuras, o risco é esse bloco governista rachar em duas ou mais candidaturas – por exemplo, a de Henrique Meirelles pelo PMDB ou pelo PSD, para defender o “legado” de Temer. Nesse caso, aumenta a chance de o chamado centro dividir o eleitorado e ficar fora do segundo turno.

Seria o ato final de peemedebezação do PSDB, que pode repetir o fiasco do PMDB em 1989, com a candidatura do “velhinho” Ulysses Guimarães.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.