Márcio Fernandes/Estadão
Márcio Fernandes/Estadão

Com impeachment suspenso pelo STF, Dilma tenta adotar discurso otimista

Em tom mais moderado que na véspera, quando falou em 'golpismo escancarado', presidente visitou obras do Minha Casa Minha Vida e garantiu que programa será mantido

Ricardo Galhardo, Mário Braga, Francisco Carlos de Assis, Mateus Fagundes e Ricardo Chapola - enviado especial a São Carlos, O Estado de S. Paulo

14 Outubro 2015 | 12h53

Atualizado às 16h25

São Paulo - Um dia depois de o Supremo Tribunal Federal sustar o processo de impeachment no Congresso e dar um fôlego novo ao governo, a presidente Dilma Rousseff tentou, nesta quarta-feira, 14, adotar um discurso otimista, baseado em uma agenda positiva. Durante inauguração do Laboratório de Biotecnologia Canavieira em Piracicaba (SP), a presidente disse que a crise é um momento de oportunidades que não podem ser desperdiçadas, garantiu que o País tem melhores condições de superar as dificuldades do que em outros momentos e que o aumento do dólar em relação ao real pode estimular o crescimento das exportações e a substituição de importações. 

"Acredito que este momento de dificuldades é algo muito doloroso para o Brasil desperdiçar. Esta é a hora para nos unirmos e buscarmos fazer aquelas mudanças, aquelas alterações, iniciativas e obras que vão de fato construir a ponte que nos levará para um novo estágio do desenvolvimento do nosso país", disse a presidente.

A frase foi inspirada em uma confidência feita a ela em 2011, por uma autoridade dos EUA, em referência à crise econômica iniciada em 2008, segundo a qual "a crise é um momento muito doloroso para ser desperdiçado". Seguindo a linha otimista, Dilma disse que o País hoje tem melhores condições para superar a adversidade do que em outros momentos históricos. 

"O Brasil sem dúvida é mais robusto, mais resiliente, mais forte agora do que foi em qualquer um dos momentos anteriores. Agora nós, para enfrentar a crise, não precisamos voltar para trás. Agora, para enfrentar a crise, nós temos que seguir adiante", afirmou.

De acordo com ela, a alta do dólar é uma oportunidade para o aumento das exportações. "Se o câmbio se desvalorizou é hora apostarmos no que já está acontecendo que é o aumento das nossas exportações. Saímos praticamente de um déficit comercial de US$ 4 bilhões para um superávit que já atingiu US$ 12 bilhões e certamente chegará ao fim do ano a valores maiores". 

Para a presidente, o câmbio estava "extremamente valorizado" e nova realidade pode ser aproveitada por empresas preparadas para substituir produtos importados. "Sem sombra de dúvida também esta desvalorização cambial, até porque nosso câmbio estava sem sombra de dúvida extremamente valorizado, vai implicar numa alteração das condições de substituição de importações. Vai implicar em que vários setores podem e devem sair na frente".

O discurso otimista faz parte da estratégia de reação à crise econômica e política combinada com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nesta terça, na abertura do 12º Congresso Nacional da Central Única dos Trabalhadores (CUT), em São Paulo, Lula cobrou de Dilma uma nova agenda que não seja baseada apenas no ajuste fiscal iniciado no início do ano. Um dos pontos desta nova pauta é tentar mostrar que o governo não está paralisado diante das ameaças de impeachment e da recessão e econômica e que Dilma está trabalhando para superar a situação.

Minha Casa. Dilma também aproveitou a agenda desta quarta para comentar os resultados do "Minha Casa, Minha Vida", e destacou que já foram contratadas 4,1 milhões de moradias e que, deste total, 2,3 milhões já foram entregues. "De todos os programas do meu governo, o que mais me orgulha é o 'Minha Casa, Minha Vida', porque tem poder de mudar a vida de cada um", afirmou. Em defesa dos programas sociais, a presidente disse ainda que tem que garantir que todos tenham oportunidades iguais. "Meu governo vai lutar todos os dias para que o nosso País volte a crescer, volte a gerar emprego na quantidade necessária para que todos os brasileiros e todas as famílias tenham uma vida melhor", disse, já no fim do discurso.

Também participaram do evento desta quarta-feira, em São Carlos, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e os ministros da Agricultura, Kátia Abreu, da Defesa, Aldo Rebelo, de Minas e Energia, Eduardo Braga, e da Comunicação Social, Edinho Silva. De uma plateia formada majoritariamente por beneficiários do programa habitacional do governo federal, a presidente ouviu gritos de "olê, olê, olê, olá, Dilma, Dilma" e "Dilma, deixa o povo te defender".

Ao todo, foram entregues 3.422 residências nos municípios de São Carlos, Leme e Itanhaém, em São Paulo, João Monlevade, em Minas Gerais, e Campo Formoso, na Bahia. Em cada cidade, um ministro e a presidente da Caixa Econômica Federal, Miriam Belchior, participaram de cerimônias presenciais e faziam a entrega das chaves. O investimento total é de R$ 370 milhões, segundo o governo federal.

União. Mais tarde, durante a cerimônia de inauguração do Laboratório de Biotecnologia Agrícola do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), em Piracicaba, no interior paulistaque, a presidente afirmou que o atual momento de dificuldade que o País atravessa é "muito doloroso" para o Brasil desperdiçar. "É hora de nos unirmos para buscar e fazer mudanças, iniciativas e obras que vão de fato construir a ponte que nos levará a um novo estágio de desenvolvimento", disse. Dilma afirmou ainda ter certeza que haverá uma travessia para um novo ciclo de crescimento sustentável, com estabilidade da economia e controle da inflação, além da formação de um "grande mercado interno" por meio da inclusão social.

A presidente afirmou que, atualmente, o Brasil é mais robusto e resiliente que em qualquer outro momento. "Agora, para enfrentar a crise, não precisamos voltar para trás. Para enfrentar a crise, temos que seguir adiante", disse. Neste momento, ela ressaltou como é possível usar a favor do País consequências recentes da crise. "Se o câmbio se desvalorizou, é hora de aproveitarmos o aumento das exportações", destacou. Ela afirmou que a balança comercial brasileira saiu de déficit de US$ 4 bilhões para superávit de US$ 12 bilhões, valor que deve crescer até o fim do ano, em sua avaliação. Outro reflexo da valorização do dólar ante o real, ressaltou Dilma, é um processo de substituição das importações no País.

Ressaltando a importância do desenvolvimento de pesquisas sobre etanol no CTC, Dilma disse que uma nova matriz de combustíveis é uma das bases da meta de redução de poluentes que o País assumirá internacionalmente em dezembro, em Paris, na conferência global do clima, a COP 21. Em seu discurso na Organização das Nações Unidas (ONU) em setembro, a presidente anunciou o compromisso brasileiro de cortar em 43% até 2030 a emissão de gases de efeito estufa com base nas emissões de 2005. "Temos todas as condições para cumprir e até superar esta meta, que é audaciosa, mas factível", afirmou.

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e os ministros de Minas e Energia, Eduardo Braga, e da Agricultura, Kátia Abreu, também participaram do evento desta quarta-feira, em Piracibaca (SP). Ainda hoje, a presidente vai a São Bernardo do Campo (SP), onde discursa no I Congresso Nacional do Movimento dos Pequenos Agricultores.

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