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A anticampanha eleitoral

Serão só 45 dias, entre uma Olimpíada em casa, uma crise política interminável e uma recessão econômica inesquecível. Ainda pior para os candidatos: sem dinheiro oficial de empreiteiras. Como será, então, a campanha eleitoral de prefeitos e vereadores? Dissimulada, negativa e móvel. 

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

20 Junho 2016 | 05h00

Pesquisa inédita do Ibope revela que, pela primeira vez, a maioria absoluta dos eleitores brasileiros (51%) recebeu informações sobre política pelo Facebook, Twitter ou pelo WhatsApp. O recorde foi batido nos últimos 12 meses. 

Mais jovem e escolarizado o eleitor, maior a probabilidade de ele ter recebido mensagens políticas pelas redes sociais nesse período: 184% mais chance de ter lido do que de não ter entre eleitores até 24 anos, e 258% mais chance entre quem cursou faculdade. A tendência também é mais forte entre os mais ricos, nos moradores do Sudeste e entre quem mora em capitais.

Para confirmar a tendência de que as redes terão papel decisivo na eleição, em apenas um ano triplicou a proporção daqueles que pretendem usar mensagens de redes sociais para decidir seu voto - mostra o Ibope.

Isso significa que os candidatos a prefeito mais atentos deverão dedicar um esforço inédito para a campanha via telefone celular. É na tela desses aparelhos que o eleitorado mais conectado se informa via Facebook e Twitter, além, obviamente, do WhatsApp. Na disputa pelo tempo do público, os iPhone e Galaxy da vida são a única tecnologia que absorve uma fatia crescente da atenção das pessoas. É natural que os candidatos se aproveitem disso.

Se não bastasse, eles têm outro motivo para investir em uma plataforma de campanha móvel: é muito mais difícil de monitorar. Ao contrário do horário eleitoral na TV, as mensagens via redes sociais são individuais e customizadas, muito mais frequentes do que os spots televisivos e tendem a se misturar ao ruído da comunicação digital. O que os olhos não veem a Justiça Eleitoral não fiscaliza. Os candidatos podem gastar fortunas nesse tipo de comunicação com muito menos risco de exagerar na ostentação.

Por que eles teriam tal preocupação? Com a proibição das doações empresariais, a arrecadação oficial deverá ser bem menor do que no passado. Sem dinheiro no caixa 1, os candidatos não poderão justificar despesas ostensivas com propaganda. Daí o estímulo à propaganda disfarçada na forma e com sujeito oculto.

Isso nos leva ao segundo motivo para os partidos camuflarem suas campanhas no Facebook, no Twitter e no WhatsApp. O tipo de propaganda que funciona nessas redes é a negativa: contra alguém ou contra uma ideia, muito mais do que a favor de um candidato. 

Na campanha ao governo de Minas Gerais em 2014, mensagens anônimas via WhatsApp colaram no candidato do PSDB o apelido “Turista da Veiga”, reforçando o fato de Pimenta morar em outro Estado. Esse tipo de guerrilha virtual ajudou a derrotá-lo.

A pesquisa Ibope confirma o que a experiência dos marqueteiros lhes ensinara. Ao longo dos últimos 12 meses, apenas 27% do eleitorado diz ter mudado para melhor a imagem que tinha de um político ou partido graças a mensagens que recebeu via redes sociais. Ao mesmo tempo, o dobro de pessoas - 56% dos eleitores - afirma que mudou para pior a imagem que faz de políticos e partidos por causa do que leu no Facebook, Twitter e WhatsApp.

Isso mesmo: mais da metade dos brasileiros tem hoje uma opinião mais negativa do que tinha um ano atrás dos atores da política por causa do que leu sobre eles nas redes sociais. É demolidor.

Esse poder destrutivo provoca oscilações cada vez mais abruptas das intenções de voto, retardando para a última hora a definição das eleições. Mas não só. O efeito acumulado dessa propaganda negativa é uma ressaca e uma desilusão com a política que ainda vai dar muita dor de cabeça, e não só para os políticos.

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