2018 chegou

As delações da Odebrecht e o crescimento de Lula anteciparam a campanha; a de Joesley Batista tornou-a urgente

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

18 Maio 2017 | 05h00

Na véspera do terremoto, João Doria virou candidato assumido à Presidência. 2018 começou, e ele percebeu. As delações da Odebrecht e o crescimento de Lula anteciparam a campanha; a de Joesley Batista tornou-a urgente. Se os outros presidenciáveis tucanos já perdiam voto antes das gravações de Aécio e Temer virem a público, agora, só sobrou o prefeito paulistano no PSDB.

Doria não aparece na Lava Jato, não se colou às reformas de Temer e projeta-se como antípoda do establishment político.

Com 19% de eleitores que votariam com certeza nele e em mais ninguém (Ibope), Lula é o nome a ser batido por todos os demais. Após a delação de Joesley, ficou mais favorito: o petista ganha força para tentar se livrar da imagem de que representa o que há de pior na política. Seus adversários correrão a dizer que nem todos estão na lama. Doria não está sozinho nessa corrida, porém. O Brasil não é São Paulo, 2018 não será reprise de 2016.

Para começar, Jair Bolsonaro (PSC) não é Celso Russomanno (PRB). O dublê de militar e deputado aparece com 7% de intenções de voto espontâneas (Datafolha). São aqueles que dizem que votariam nele para presidente sem que o entrevistador precise mostrar quais são os candidatos. Lula tem 16% na espontânea. Doria, 1%.

O neotucano tem tudo para crescer, mas não será às custas de Bolsonaro. Ao contrário de Russomanno, que sai na frente e chega atrás, o rival de Doria tem militância aguerrida e representa um segmento ideológico do eleitorado que tem nostalgia idealizada da ditadura (a maioria era bebê ou não tinha nascido quando os militares mandavam no País). Bolsonaro não vai se liquefazer.

Qual o tamanho desse eleitorado radicalmente antipetista, anticomunista e que cultua expressões como “esquerdopata”? Não há medidas precisas, mas o Ibope fez um exercício que ajuda a estimá-lo: 13% dos eleitores brasileiros não votariam de jeito nenhum nem em Lula, nem em Ciro Gomes, nem em Marina Silva. É uma aproximação, obviamente incompleta, mas que mostra como a disputa por esse voto será dura entre Doria e Bolsonaro.

Entre os que declaram essa tríplice rejeição, tanto o prefeito quanto o deputado têm um terço de eleitores potenciais: 32% e 34%, respectivamente, dizem que votariam com certeza ou poderiam votar neles. É o segmento no qual ambos vão melhor (alcançam o dobro da penetração que têm no eleitorado geral) e também onde superam todos os outros presidenciáveis do PSDB, por exemplo.

Bolsonaro tem pequena vantagem sobre Doria nessa ponta: 10% dizem que votariam nele e só nele, contra 7% no prefeito. Mas nenhum dos dois pode contar que conquistará automaticamente o resto dos votos da antiesquerda. Ambos são rejeitados por mais de um terço dela (39% dizem que não votariam em Bolsonaro de jeito nenhum, e 37%, em Doria). Para crescer aí, precisarão dos 26% e 31% que, respectivamente, não os conhecem o suficiente.

Essas taxas mostram que Bolsonaro tem uma base difícil de Doria capturar. Por isso, o foco principal do tucano deve se voltar aos cerca de 60% de eleitores menos ideológicos, que admitem votar, com certeza, em mais de um candidato a presidente e que não são nem lulistas exclusivos nem antipetistas radiciais.

Pouco mais da metade dessa maioria do eleitorado não conhece Doria, 29% o rejeitam e 18% votariam nele, com maior ou menor convicção. Bolsonaro tem potencial de crescimento mais limitado nesse grupo. Embora seus simpatizantes se equivalham aos de Doria (17%), sua rejeição é maior: 38%. É aí que há espaço para surpresas. Nesse segmento volúvel, Ciro, Marina e até Joaquim Barbosa vão melhor, hoje, do que Doria e Bolsonaro.

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