Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Vitorioso, Serra resgata liderança

Após 2 derrotas consecutivas nas últimas eleições, tucano bate Eduardo Suplicy, afasta aposentadoria e demonstra força política

Fausto Macedo

05 Outubro 2014 | 20h04

Texto atualizado às 23h15

José Serra, do PSDB, furou neste domingo uma supremacia histórica de 24 anos do PT no Senado. Ao eleger-se com 58,5% dos votos, segundo a contagem anunciada pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE), o tucano suplantou seu oponente maior, Eduardo Suplicy (32,5%), que almejava uma nova reeleição para a cadeira que ocupa desde 1991.

Derrotou não apenas a velha estrela petista, mas também uma aflição que carregou nesses últimos dias, qual seja, o seu próprio número de urna, 456.

Aos 72 anos de idade, tão calejado e tão habituado aos grandes embates e às armadilhas da arena política, desde que voltou do exílio nos idos de 1982, o tucano, quem diria, perdeu o sono na reta final da campanha por um mísero algarismo. “O pessoal, muitas vezes, acha que o número é 45 do Senado, mas não tem voto de legenda, na verdade é 456, muita gente acha que é 45. Isso tá preocupando. Tem de escrever três números, colocar só dois a máquina não aceita”, alertou, antes mesmo de se deslocar à seção eleitoral, no Alto de Pinheiros.

O domingo começou bem cedo para um Serra que foi às ruas e se apresentou aos eleitores com semblante sereno. A seu modo fez boca de urna, sempre de olho nos números.

Duas moças lhe pediram uma selfie, tão logo desceu da van que o levou com Geraldo Alckmin ao Colégio Santo Américo, no Morumbi, onde vota o governador. Eram 10h10.

“Qual é o número do Serra?”, ele indagou.

“45, não é?”, disse a morena de roupas apertadas no corpo e cabelos escorridos.

“Seis”, ele sussurrou.

“Ah, 46”, ela devolveu.

“Não, 456. Pra mudar o Brasil. Você tem colinha? Votou em quem pra senador?”

“Senador não sei. Pra presidente foi o Aécio.”

Até descontraído ele estava, mesmo acossado pelos programas de humor da TV que, nessas ocasiões, marcam políticos sob forte pressão.

Não se fez de rogado. Um desses comediantes o abordou. “Serra, você perdeu pra mim, você perdeu pra Dilma”, disse o rapaz, imitando a voz do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu algoz em 2002 na disputa à Presidência.

“Você também perdeu pro Fernando Henrique”, não deixou por menos o novo senador pelo Estado de São Paulo.

Alguém arriscou uma provocação, questionando-o se em 2018 deixará o mandato pela metade - como fez na Prefeitura de São Paulo, em 2006 - para concorrer ao Palácio do Planalto mais uma vez. “Você vai tentar mais uma Serra?” “Senador, senador”, ele respondeu.

Desafio. Assim foi o dia do tucano, tranquilo, como de resto foi a campanha. Seus aliados destacam um 2014 sem desaforos e sem entreveros, dois anos depois do revés que experimentou na disputa com outro petista, Fernando Haddad, para a Prefeitura de São Paulo.

Alguns passos adiante, ainda no pátio da escola, um outro o desafiou a decorar a letra de um grupo rap. “Eu conheço muita música também, mas o que eu sei fazer melhor é estar no Senado, é estar no governo, já tem bastante gente que canta e dança e dá espetáculo”, disse o tucano.

Alguém insinuou que José Aníbal, seu suplente, afinal iria assumir o mandato de senador. “Não, não vai. Eu vou assumir, vou ficar no Senado. O Zé Aníbal vai me ajudar.”

Não foi sempre assim, um tucano com desempenho tão suave e contido. Nos palanques e nos programas de TV “Serra senador” ele foi mais incisivo, provocador. Nessas oportunidades, escolheu o PT como seu alvo predileto. Bateu pesado na agremiação rival e na gestão Dilma Rousseff.

O slogan da coligação Aqui é São Paulo, que reúne 14 partidos, era “Serra, Serra, pra defender São Paulo”. No horário eleitoral gratuito queixou-se da falta de apoio do governo federal ao contribuinte paulista. “Você sabia que o nosso Estado contribui com 42% dos impostos federais, mas recebe de volta apenas 10%?”

Buscou o apoio do eleitorado com promessas para a área do saneamento. “O governo federal é muito bom pra arrecadar impostos em São Paulo, sem dúvida. Mas na hora de devolver os benefícios não é assim. Quer um exemplo? Saneamento básico. Na sua conta de água, pode conferir lá, têm dois tributos federais, o PIS e o Cofins. Sabe quanto isso dá no Brasil inteiro? R$ 2 bilhões por ano, R$ 1 bilhão só de São Paulo.”

E prosseguiu. “Quanto eu estiver no Senado vou fazer um projeto para que esse dinheiro, em vez de ficar em Brasília, seja investido nos Estados. São Paulo teria um bilhão a mais para aplicar em despoluição de rios, de córregos, abastecimento de água, coleta e tratamento de esgotos, mais saúde e melhor meio ambiente. É isso o que as pessoas querem e é por isso que eu vou lutar.”

Drogas. Apontou para o PT. “Desde que eu deixei o Ministério (da Saúde, em 2002), o PT vem reduzindo os recursos. Se você me perguntar qual é o inimigo número 1 do Brasil eu respondo: são as drogas. O Brasil é o primeiro do mundo no consumo do crack, o segundo no uso da cocaína. Sabia disso? No entanto, você não vê nenhuma campanha do governo federal contra as drogas.”

E falou grosso. “Todo mundo sabe que a maior parte das drogas consumidas no Brasil vem da Bolívia e o governo federal não faz nada! Vou exigir do governo federal que patrocine campanhas nacionais contra as drogas.”

À saída do Santo Américo, Serra ouviu declaração acalorada da dona Olga Maria, há 28 anos na liderança da comunidade do Jardim Colombo, ali perto. “Tô torcendo pro senhor ganhar, viu? Nós estamos apoiando todos os tucanos.”

Às 11h20, já no Colégio Santa Cruz, no Alto de Pinheiros, onde vota na seção 0069, Serra disse, ainda pautado pela prudência: “Acabamos de votar e agora é o povo que vai falar.

Estou muito confiante, mas respeitando a vontade dos eleitores. Agora são eles falando, mais tarde a gente vai ouvir o que eles disseram.”

Caminhou até a urna eletrônica, levando pela mão a neta, Gabriela, de 6 anos, filha de Verônica Serra.

Depois, ele e Alckmin, que o acompanhou, fizeram o tradicional gesto da ocasião, o “V” da vitória para a alegria dos fotógrafos alvoroçados.

Mas, ao ouvir que seu triunfo coloca fim na era Suplicy, uma vez mais ele evitou o litígio. “Eu espero vencer, mas não estou querendo vencer pra tirar ninguém, estou querendo vencer pra entrar e ir para o Senado”, afirmou Serra. “Tem muita coisa para fazer, inclusive tabelinha com o nosso queridíssimo governador Alckmin pela defesa de São Paulo, defesa da democracia, da mudança da política brasileira.”

Despediu-se sem falar do seu time do coração. “Palmeiras? Não é hora, segundo a minha filha é melhor não falar de futebol.”

Veio cumprimentá-lo Aloysio Nunes Ferreira, desde 2010 senador pelo PSDB. “Aí, Zé”, saudou o recém-chegado. “Ô, Aloysio, tudo bem?” Os militantes logo os aplaudiram. “Eu voto em São José do Rio Preto, voltei correndo para poder chegar aqui e abraçar o Serra”, declarou Aloysio. “Jura?”, surpreendeu-se Serra.

Aloysio disse que Aécio está preparado para o segundo turno. “Muito entusiasmo, eu tenho certeza que nós vamos para o segundo turno e iniciar um processo de mudança profunda no Brasil, com o Geraldo, o Serra, o Aécio.”

‘Voando’. Após cinco anos longe do poder - desde 2010, quando foi derrotado por Dilma, ele não ocupa função pública -, Serra “está voando”, segundo avaliação dos mais próximos. Alguns chegaram a lhe conferir o rótulo de “aposentado”, depois dos insucessos de 2010 e 2012. Agora, ele quer ficar marcado como “um grande líder do PSDB”.

São muitos os projetos do tucano para a longa jornada de oito anos que o espera no Senado.

O voto distrital nas eleições para vereador, daqui a dois anos, é uma de suas metas. O texto está pronto. Para ele, o procedimento reduziria os custos de campanha. A capital que administrou, entre 2005 e 2006, tem 55 vereadores.

Planeja implementar a nota fiscal brasileira, nos moldes da paulistana, que lançou quando prefeito de São Paulo, e da paulista, quando governou o maior e mais rico Estado. “Vamos devolver também uma parcela dos impostos federais para os consumidores.”

Na Saúde, a meta é ampliar o universo dos genéricos, criação sua quando exerceu o cargo de ministro no governo FHC.

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