Mônica Zarattini/Estadão
Mônica Zarattini/Estadão

Suplicy dá adeus ao Senado após 24 anos na casa

Considerado um idealista, autor do renda mínima voltará a dar aulas e cogita até acompanhar os filhos nos Estados Unidos

Christian Carvalho Cruz, O Estado de S. Paulo

06 Outubro 2014 | 00h40

Quantas estradas um homem deve andar antes que possam chamá-lo de homem?* Difícil calcular nesses 24 anos de atividade como senador da República, mas, na última quinta-feira de campanha ao que seria o seu quarto mandato consecutivo, Eduardo Suplicy (PT) rodou uns 40 km até Diadema, no ABC paulista, e lá uma senhora gordinha o chamou: “Vem cá tirar uma foto comigo, ô homem bonito!”. Ele foi, como sempre vai. E, como em quase todos os outros dias, seja qual for a estrada, ainda o chamaram de honesto, digno, coerente, idealista, romântico, ingênuo e... meio devagar.

A partir de 1.º de janeiro, contudo, Suplicy será chamado mesmo é de ex-senador, pois no domingo perdeu a disputa para José Serra (PSDB), por 58,49% a 32,53% dos votos válidos. E assim Brasília se despedirá do único senador que despacha em um gabinete transparente, de paredes de vidro; e de um caso raro de político que admiradores e detratores chamam da mesma coisa na hora de elogiar ou criticar. “O bom do Suplicy é que ele não muda”, dizem uns. “O ruim do Suplicy é que ele não muda”, os outros. “Eu gosto de dormir tranquilo, em paz com a minha consciência”, ele resume.

Suplicy foi o primeiro senador eleito pelo PT, em 1990. De lá pra cá, conta, só perdeu o sono uma vez: depois que vestiu uma tanga vermelha sobre a calça e desfilou no Congresso a pedido da apresentadora Sabrina Sato. “Eu quis ser gentil, colaborar com a brincadeira. Não achei que fosse um problema”, relembra. Quando se deu conta da encrenca, o então corregedor do Senado, Romeu Tuma, tinha aberto investigação para saber se ele faltara com o decoro. Até o tucano Álvaro Dias disse que se tratava de “um exagero” contra Suplicy. Não deu em nada, mas ele se sentiu mal. Tinham-no chamado de indecoroso. E para Suplicy isso dói mais do que todas as chamadas na chincha recebidas do PT nas vezes que agiu contra as orientações do partido.

A mais emblemática foi em 2005, quando assinou o requerimento de instalação da CPI dos Correios, que culminaria no processo do mensalão. Depois de muito matutar, consultar o travesseiro e até seus alunos na FGV, considerou que botar o nome na lista (como tinha feito em 1992 na CPI do PC Farias) era a melhor decisão “para o presidente Lula, o governo dele, para o PT e para a nação brasileira”.

Tem mais. Dias atrás, ele subiu à tribuna do Senado para condenar os ataques da campanha da presidente Dilma Rousseff à ex-companheira Marina Silva. E, em 2012, contrariando os cardeais cubanófilos, defendeu a vinda da blogueira dissidente Yoani Sánchez ao País. “O direito à liberdade de expressão está nos estatutos de fundação do PT”, argumentou. “Deixá-la vir e manifestar suas opiniões aos olhos dos Estados Unidos configurava um passo importante na direção do que todos do partido queremos, que é o fim do bloqueio econômico a Cuba.” Chamaram-no de “aquele senador tucano filiado ao PT”.

Diz um petista antigo que, por causa da “falta de solidariedade à agenda coletiva do partido”, Suplicy é chamado internamente de ING, Indivíduo Não Governamental. No popular, um bicho solto. “Ele é um sujeito exótico. E o exotismo é natural nele, basta imaginar que nos anos 1950 ele era um filho da burguesia que lutava boxe. Agora, o que não é natural, é coisa calculada, é o fato de ele transformar o exotismo em ativo político. Tipo um Forrest Gump.”

Entra eleição, sai eleição e a vontade de muitos correligionários é negar a legenda para Suplicy se candidatar. Mas aí alguém na mesa pergunta: “Ok, se não vamos de Suplicy, vamos com quem?” Logo se vê que o partido não tem outra opção tão boa de voto em São Paulo. Vai-se, pois, de Suplicy. Pelo menos os eleitores ele parece não decepcionar. Frequentador contumaz dos rankings de melhores parlamentares do País, Suplicy ultimamente tem gostado de destacar o levantamento do Atlas Político, que tem base científica. Idealizada por dois Ph.Ds. de Harvard (Andrei Roman, cientista político, e Thiago Costa, matemático) e patrocinada pela Fundação Lemann, a avaliação se baseia numa equação montada com base em cinco indicadores: representatividade, relação gastos de campanha/número de votos obtidos, ativismo legislativo, debate parlamentar e fidelidade partidária. Noves fora a complexidade do cálculo, Suplicy é o primeirão da lista entre todos os congressistas brasileiros, deputados e senadores.

Apesar do fogo amigo, ele diz que sempre se sentiu respeitado no partido e prestigiado pelo amigo Lula. Naquela quinta-feira em Diadema, Lula estranhou que Suplicy estivesse empoleirado num carro de som diferente do dele. Num gesto com a cabeça, chamou o senador para se juntar aos “tubarões” no palco ambulante principal da carreata. E, quando um militante levantou um pacote de pastéis de feira à turma lá de cima, Lula pegou o seu e deu outro a Suplicy.

Logo depois, o senador tomou o microfone para contar “algo muito grave ao presidente Lula”, que parou de dar autógrafos para ouvir. Havia três dias, Suplicy estava engasgado com o vereador coronel Paulo Telhada, do PSDB, que lhe chamara de bandido num portal de internet. “Esse indivíduo aí só pensa em apoiar bandido. Pessoas que defendem bandido são iguais a bandido”, afirmou Telhada. Ele disse também que Suplicy estava por trás de uma “falsa” acusação de estupro que uma jovem fizera contra policiais da Rota na desocupação da área do Pinheirinho, em São José dos Campos, em 2012. Segundo Telhada, a jovem voltou ao quartel dizendo que havia mentido, que Suplicy a mandara dizer que tinha sido estuprada.

O senador pode ser romântico, meio devagar, mas não é bobo. Sentindo cheiro de baixaria de reta final de campanha, disse: “Se fosse alguém do meu partido fazendo uma acusação dessa gravidade contra o meu adversário, eu o repreenderia veementemente. Então, eu quero saber o que o meu adversário, José Serra, tem a dizer sobre esse episódio lançado por um membro do partido dele contra mim e a minha biografia”.

Segundo o promotor Laerte Levai, que acompanhou o inquérito, o ouvidor da polícia, Júlio Neves, e o deputado federal Renato Simões (PT-SP), que trabalhou no caso como membro do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, não há registro oficial na delegacia ou no Ministério Público de que a jovem tenha se retratado. Procurados, Telhada disse, por meio de assessor: “Nada a declarar”. Serra não disse nada.

Idealismo. Ao sair do Congresso, Suplicy deixa lá a sua única fonte de nervosismo, que é discursar no plenário (“é que é sempre algo tão importante...”) e a maior bandeira da sua vida: o projeto da Renda Básica de Cidadania (RBC), que julga ser o futuro do Bolsa Família. Como o nome esclarece, o RBC prevê o pagamento, pelo governo, de uma renda básica a todos os brasileiros e estrangeiros com pelo menos cinco anos de residência, pobres e ricos, a fim de que todos, tendo atendidas as suas necessidades vitais, “possam viver com mais liberdade, justiça e fraternidade”. O projeto foi aprovado no Senado, na Câmara, e sancionado por Lula em 2004. Falta regulamentar e aplicar.

Aos 73 anos, Suplicy mantém a esperança. Em janeiro, mandou uma carta à presidente Dilma sugerindo a criação de um grupo de trabalho que, formado por notáveis (de Delfim Netto a Marilena Chauí), pensará a melhor maneira de tirar o RBC do papel. O ministro da Casa Civil, Aloysio Mercadante, pediu que esperasse um pouco mais, pois neste ano de eleição seria complicado mexer nisso. Então Suplicy vai esperar. A diferença é que, agora que os moinhos momentaneamente venceram Quixote, ele vai esperar dando aulas e cantando. “Tenho convites para voltar a ser professor. Ou quem sabe me junte a meus filhos numa turnê musical pelos Estados Unidos”, brincou no domingo.

Se ele vai se abater com a derrota? A resposta, meu amigo, is blowin’ in the wind: “Vai, porque ao contrário do Zé Dirceu, que é um político que gosta de ser temido, o Suplicy é um político que gosta de ser amado”, diz, parafraseando Maquiavel, um outro petista conhecedor das entranhas do partido. “Mas ele se recupera logo. Em 2016 se elegerá vereador com mais de 1 milhão de votos e ficará em paz.”

* How many roads must a man walk down / Before you can call him a man? (Versos iniciais de Blowin’ in the Wind, de Bob Dylan, a canção preferida e tantas vezes cantada por Suplicy).

 

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