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Sem açúcar nem afeto

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DORA KRAMER

Para fins de análise do ambiente pré-eleitoral, muito mais significativos que os números da pesquisa do Ibope divulgados na noite de quinta-feira foram os efeitos provocados pela boataria nos três dias anteriores, de que a presidente Dilma Rousseff apresentaria acentuada queda nos índices de intenção de votos.

Era pura especulação. Ou, a julgar pela euforia prévia que se via nos corredores do Congresso e pelo otimismo do mercado financeiro materializado na valorização das ações da Petrobrás, Eletrobrás e Banco do Brasil na Ibovespa, torcida forte.

A pesquisa mostrou Dilma no mesmo patamar de 43% na preferência do eleitorado, bem à frente dos oponentes e ainda dentro do limite em que o Palácio do Planalto considera ser possível acreditar em vitória no primeiro turno.

Conviria, porém, que assessores palacianos prestassem atenção a esse dado de realidade algo inusitado. Não é normal que notícias de caráter negativo para o governo gerem uma expectativa positiva na economia e na política.

Natural, principalmente no caso de governante que se posiciona com o favoritismo da presidente da República, seria o contrário. O porto visto como seguro para políticos, investidores e empresários em geral é o governo. Em tese, a oposição representa a dúvida.

Quando se tem um acontecimento como esse da semana passada é sinal de que há mudança de ares. No mínimo. Durante três dias o zunzum correu em Brasília e São Paulo. Dizia-se que uma pesquisa do Ibope registraria uma queda significativa de Dilma.

No Congresso, notadamente na Câmara, os deputados cumprimentavam-se numa alegria quase infantil. Vingativa. Como se a suposta derrocada confirmasse que a opinião pública teria dado razão aos parlamentares no embate que haviam tido com a Presidência, sob o comando do PMDB.

Na Bolsa de Valores, três dias seguidos de alta nas ações das estatais atribuídas pelos próprios operadores à expectativa da queda de Dilma nas pesquisas é o reflexo do desagrado com a política governamental.

O esperado, porém, não aconteceu. Mas os boatos e a reação a eles evidenciaram o ambiente de mau humor generalizado com a presidente. No ambiente do Congresso, uma pergunta simples - "Se Dilma não ganhar, para onde vai a base hoje governista?" - recebe uma resposta objetiva: "Para Eduardo Campos ou Aécio Neves, qualquer um dos dois, tanto faz, pois são políticos e compreendem muito melhor o mundo político".

A preocupação desse pessoal é com a perspectiva de piora nas relações de Dilma com o Congresso caso ela seja reeleita. Como não poderia mais concorrer a mandato algum, os parlamentares acham que a tendência seria que ela deixasse de lado de vez o Legislativo. Por esse raciocínio, a recomposição da harmonia no Parlamento passaria pela eleição de um dos candidatos da oposição. Ou pela candidatura do ex-presidente Lula.

Dentro do PT já começam a se inquietar mesmo aqueles que não achavam que era hora de voltar. Ninguém sabe a confusão que o voluntarismo de Dilma é capaz de arrumar e se reduz a esperança de que ela se reinvente a fim de transpor os percalços da campanha.

Refém. A necessidade de barrar a CPI da Petrobrás e nova série de convocações para explicar a compra da refinaria em Pasadena reforçam o poder do PMDB, que na crise ficou ao lado da presidente. Vale dizer, o vice Michel Temer, o presidente do Senado, Renan Calheiros e o senador José Sarney.

A bancada da Câmara não pretende ajudar e espera que o Palácio não atue em tom de retaliação. Se houver ameaças e confrontos, a animosidade latente pode se tornar de novo evidente.

A saída para o governo nesse caso será fingir que quer "apuração rigorosa" e, nos bastidores, atuar com suavidade e habilidade para que nada aconteça.

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