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Se houve sangria na Petrobrás, ela já foi estancada, diz Dilma

Em entrevista ao 'Estado', presidente afirma que em 'nenhum momento' teve conhecimento das suspeitas de corrupção delatadas pelo ex-diretor Paulo Roberto Costa

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Rafael Moraes Moura e Tânia Monteiro ,
O Estado de S. Paulo

08 Setembro 2014 | 16h46

Atualizado às 0h

A presidente Dilma Rousseff, candidata do PT à reeleição, disse nesta segunda-feira que não tinha “a menor ideia” de malfeitos na Petrobrás, admitiu a possibilidade de ter havido corrupção, mas garantiu não existir hoje mais “sangria” na estatal. Ao participar da série Entrevistas Estadão, no Palácio da Alvorada, Dilma definiu como “estarrecedor” o fato de haver um esquema criminoso com a participação de um funcionário de carreira da Petrobrás.

“Se houve alguma coisa, e tudo indica que houve, eu posso te garantir que todas, vamos dizer assim, as sangrias que eventualmente pudessem existir estão estancadas”, afirmou a presidente, na primeira entrevista concedida ao Estado desde que foi eleita, em 2010. “Eu não tinha a menor ideia de que isso ocorria dentro da empresa”, afirmou.

Na delação premiada, feita na semana passada, o ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa - preso na Operação Lava Jato, da Polícia Federal -, acusou políticos do PT, PMDB e PSB de participação no desvio de dinheiro da empresa. As denúncias causaram preocupação no Palácio do Planalto e na coordenação da campanha de Dilma porque o escândalo pode ressuscitar a memória do mensalão, que atingiu o PT e o governo Luiz Inácio Lula da Silva.

Na tentativa de fragilizar a presidente, o candidato do PSDB, Aécio Neves, chegou a chamar as denúncias de “mensalão 2”. Em situação de empate técnico com Dilma nas pesquisas, a candidata ao Planalto Marina Silva (PSB) afirmou que tudo precisa ser apurado.

Lobão. Dilma contou ter solicitado ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que enviasse um ofício à Polícia Federal e ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pedindo acesso aos depoimentos de Costa. À PF, o ex-diretor disse que deputados federais, senadores, governadores e o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, integravam um suposto esquema de cobrança de propina nos contratos da estatal.

Na entrevista, a presidente afirmou que Lobão negou participação no caso. “Ele deu explicações para mim e por escrito. Ele nega veementemente tais fatos. (...) Quem faz a delação pode não gostar de uma pessoa e acusá-la ou estar protegendo alguém. Já que foi divulgado (o conteúdo do depoimento pelo portal do Estado e pela revista Veja), eu tenho obrigação de querer saber.”

Dilma assegurou que qualquer funcionário público que estiver envolvido em malfeitos será demitido. “As providências serão proporcionais ao comprometimento da pessoa. Se a pessoa estiver comprometida, é afastamento puro e simples”, insistiu. “É interessante que a gente lembre que esse diretor da Petrobrás é quadro de carreira da empresa, o que é ainda mais estarrecedor.”

Imprensa. Para a presidente, é “inadmissível” a imprensa saber e o governo não ter ideia do que está sendo acusado. “Eu não quero dentro do meu governo quem esteja comprometido com qualquer malfeito. Agora, também não quero dar à imprensa um caráter que ela não tem perante as leis brasileiras. A imprensa não tem nenhum fórum inequívoco para dizer para mim se uma pessoa é corrupta ou não. Quem vai falar isso para mim é quem investiga, quem tem as provas”, disse a presidente.

Ao longo da entrevista, Dilma foi questionada novamente sobre irregularidades na Petrobrás e amenizou o tom. “Eu não disse isso. Por favor, eu sou presidenta da República. Não posso fazer uma coisa dessas. Baseada em informações da imprensa, eu não posso condenar ou perdoar ninguém.”

Com o discurso de que seu governo investiga tudo, “doa a quem doer”, Dilma citou mais uma vez o afundamento da plataforma P-36, da Petrobrás, ocorrido no governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) - um problema que, segundo ela, foi esquecido. “Você acha que é tranquilo uma plataforma que custa US$ 1,5 bi afundar? E ninguém investigar? A plataforma de US$ 1,5 bi, quero lembrar, é duas vezes Pasadena.”

Pasadena. Ao comentar sua participação na compra da refinaria de Pasadena (EUA), em 2006, a presidente repetiu, como fizera em nota ao Estado em março, que a decisão foi motivada por relatório falho encaminhado ao Conselho de Administração da Petrobrás, presidido por ela, que na época era ministra da Casa Civil. “O conselho só aprovou a compra de 50%”, afirmou a candidata do PT, ao lembrar que o Tribunal de Contas da União isentou o conselho de responsabilidade no negócio. 

Dilma assegurou que a decisão de mudar diretores da estatal ao assumir a Presidência, em 2011, não teve relação com suspeitas envolvendo a refinaria e definiu a presidente da Petrobrás, Graça Foster, como uma “gestora plenamente competente”. “Acho estranhíssimo alguém falar em destruição da Petrobrás. Tirando esta questão que tem aparecido neste momento da campanha, a Petrobrás hoje é uma empresa primorosa”, afirmou.

Marina. Questionada se achava certo comparar no horário eleitoral Marina Silva com os ex-presidentes Jânio Quadros e Fernando Collor - que não terminaram os mandatos -, a presidente afirmou que não fazia críticas pessoais. “Eu disse que acho a Marina uma pessoa bem intencionada. Não estou fazendo comparação pessoal. O que eu fiz de comparação com o Jânio e o Collor é que ambos governaram sem apoio.” Para ela, quem governa sem partido tem “uma pessoa muito poderosa por trás, geralmente os mais ricos”. “Isto não é nova política, é a política que levou o País a um tipo de visão que a democracia pode ser feita apenas por uns poucos.”

Sobre o coro de “Volta, Lula” entoado por integrantes do PT, Dilma disse que a movimentação pelo retorno do ex-presidente não a incomoda. Para ela, todo mundo que apostou em algum conflito entre ela e Lula “errou”. “Temos uma relação fortíssima, pessoal”, disse, lembrando a convivência diária com o ex-presidente na época em que comandou a Casa Civil. “Eu gosto muito do Lula. Tenho absoluta certeza de que ele tem o mesmo afeto por mim. Para mim não incomoda nem um pouco o ‘Volta, Lula’. O que ele quiser fazer, eu vou apoiar. Estarei com ele em todas as circunstâncias.”

Tarifaço. A candidata à reeleição considerou um “absurdo” os comentários da oposição de que haverá um “tarifaço” após o pleito de outubro. Indagada a respeito, Dilma respondeu que, “se reajuste houver, não será tarifaço”. “Nós faremos tudo muito moderadamente, não somos a favor de tarifaço. E olha que demos vários aumentos, nunca demos um aumento abusivo. ‘Tarifaço’, por quê? Não sou contra aumentar (preço), se tiver de aumentar, aumenta”, afirmou. “Eu não falo em reajuste de gasolina nem de quanto vai ser.” A presidente destacou que “não há lei divina” que obrigue o governo a atrelar qualquer ajuste de preço ao mercado internacional, mas considerou “normal” a reivindicação da Petrobrás.

Sobre a tarifa da energia elétrica, Dilma garantiu que não há “nenhum represamento” ou “defasagem”. “No caso da energia elétrica, você sabe por que deu esse aumento nesse mês (de agosto) de 0,25% (no Índice de Preços ao Consumidor Amplo)? Por conta desse aumento na tarifa de energia elétrica, não há nenhum represamento”, disse. “Tudo que está previsto pela legislação em relação à energia elétrica está sendo passado. Não tem nada atrasado em energia elétrica. Desafio alguém a me mostrar algum atraso no pagamento de energia elétrica, de tarifa de energia. Isso, eu desafio.” 

Reforma política. Ao falar sobre reforma política, Dilma lembrou que apoiou um plebiscito sobre o tema e frisou que “99% da população quer uma melhoria na representatividade”. A bandeira da reforma, já levantada no programa de governo da petista em 2010, foi retomada pelo Planalto após as manifestações de junho de 2013. “Tenho uma convicção de que, sem reforma política, sem participação popular, sem regras de financiamento de campanha, não tem essa questão de nova política. A nova política implica termos o povo participando por um plebiscito. Temos de retomar tudo que foi dito nas manifestações.”

A presidente afirmou que, caso se acabe com a possibilidade de reeleição, deve-se estabelecer um mandato de cinco anos. Dilma se posicionou contrária à coincidência de todas as eleições. “Acho que o Brasil tem de continuar votando, o voto popular tem um poder benéfico”, avaliou. “Acho tão importante que o País vote em plebiscito, que só o ato de participar já muda o País.”

Espionagem. Depois de ter cancelado, no ano passado, a visita oficial aos Estados Unidos, em retaliação à descoberta da espionagem ao Brasil, denunciada pelo ex-funcionário da NSA Edward Snowden, a presidente afirmou que não existe problema na relação dela com o presidente americano, Barack Obama.

“Talvez vocês não saibam, a minha relação com Barack Obama, em relação ao vazamento de informações e espionagem, foi uma relação entre presidentes que estavam percebendo que havia um problema político sério nesta questão. Nós suspendemos, de comum acordo, minha ida lá, e ele entendeu”, disse Dilma, defendendo o cancelamento. “Manteremos a relação normal com os Estados Unidos, assim que eles normalizarem esta questão”. A presidente reconheceu, porém, que Obama já “tomou várias medidas”.

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