Quanto vale o show

Na geleia geral vigente no cenário político sobram pouquíssimas vozes moralmente abalizadas para condenar a aliança do PT com Paulo Maluf na eleição municipal de São Paulo.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

19 Junho 2012 | 03h07

Dizer o quê, se apoios são pagos com cargos de maneira explícita, variando apenas se a quitação ocorre à vista e com pronta entrega de cargos - como no caso de uma secretaria no Ministério das Cidades entregue ao PP de Maluf - ou a prazo na forma de promessa de ocupação de espaços na máquina pública?

Espantar-se com mais o quê, se não há resquício de preocupação com identidades, nem falemos ideológicas, mas minimamente programáticas, e se a referência única é o tempo de televisão a ser acumulado pelo carro-chefe da coalizão e beneficiário principal da negociata?

Criticar quem poderá, se todos agem segundo a mesma ausência de critério?

O principal adversário do PT em São Paulo, o PSDB, é que não haverá de ser, pois até outro dia estava negociando apoio com o mesmo personagem. Inimigo tradicional dos petistas no plano regional, mas há quase dez anos aliado deles em âmbito federal.

Questão resolvida e do ponto de vista da coerência superada lá atrás, quando Lula atraiu a legenda para a base do governo da qual nunca mais saiu.

Portanto, não há razão para tanto espanto, para tão efusivos ataques à "incoerência" do PT. Ou mesmo para o "desconforto" expresso pela deputada Luiza Erundina indicada para vice de Fernando Haddad em composição com o PSB nem para o "pesadelo" apontado pela senadora Marta Suplicy.

Maluf é diferente, um emblema, nome que já virou verbo e destaque na lista de procurados pela Interpol?

Pois nesses tempos em que réus acusados de integrar organização criminosa ocupam postos de direção partidária, ganham cargos na estrutura federal, presidem comissões importantes no Congresso, apresentam-se como candidatos ao eleitorado que gentilmente lhes dão votos para representação legislativa e executiva, francamente, Paulo Maluf é mera peça de composição do ambiente.

Digam com sinceridade o senhor e a senhora se, na essência, há diferença entre a pose de Lula ao lado de Maluf e Haddad agora e dos atos de defesa que, como presidente, assumiu em prol de protagonistas de escândalos?

Não estamos diante de nenhuma novidade. O que vemos é resultado do acúmulo de abusos cometidos nas barbas de uma sociedade que aceita tudo e ainda bate palmas.

Não reage nas urnas aos exotismos cada vez mais exóticos dos partidos que não se distinguem mais no mérito de suas propostas nem fazem questão de disfarçar a sanha em que se lançam a um vale tudo desmoralizante por um minuto a mais na televisão.

Pior que isso só a falsidade dos indignados de ocasião. Onde estavam nos últimos anos enquanto um presidente da República usava repetidas vezes do argumento do "todo mundo faz" para amenizar efeitos de denúncias que envolvessem qualquer um que pudesse lhe propiciar ganhos políticos?

Onde estavam quando esse mesmo presidente zombava da Justiça, menosprezava as instituições, desqualificava o Congresso com uma ofensiva de cooptação explícita como nunca se viu?

Alguns quietos, outros na linha de frente da defesa da política das "mãos sujas". Ora, uma aliança do PT com Maluf em São Paulo é mais um entre tantos outros atos de pragmatismo exacerbado e mistificação de resultados que fazem as normas da casa.

Está demais? Sem dúvida, mas já faz muito tempo que se passou da conta.

Anonimato. O Tribunal Regional Federal da 1.ª Região livrou a Justiça de um vexame ao decidir pela legalidade das provas obtidas pela Polícia Federal contra Carlos Cachoeira e companhia.

O argumento da defesa, de que denúncia original era anônima e por isso inválida, equivaleria a considerar nulas todas as investigações decorrentes de informações dos disque-denúncia, cujo trabalho (exitoso) se baseia exatamente na preservação da identidade do denunciante.

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