PSB prefere PT em Minas e abala relação de Aécio com Campos

Lula agiu para afastar o PSB mineiro do PSDB e aproximá-lo dos petistas; relação de senador com prefeito também azedou

CHRISTIANE SAMARCO / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

27 Maio 2012 | 03h06

O PSB do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, que sempre operou em Minas Gerais como linha auxiliar do PSDB do senador Aécio Neves, mudou de direção política e caminha rumo ao PT. Isto, graças à influência do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que plantou seu ex-ministro Walfrido Mares Guia no comando do PSB mineiro, com a missão de afastar os socialistas dos tucanos e aproximá-los dos petistas.

A operação ainda está em curso, mas já abalou as relações política e pessoal de Aécio com o prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda (PSB), e segundo cálculos de dirigentes do PSB estadual ameaça destruir metade das parcerias seladas na disputa municipal de 2008. Isto sem falar no distanciamento entre Aécio e Eduardo Campos, hoje vistos como dois líderes políticos popstars e presidenciáveis de campos opostos - governo e oposição -, que podem se confrontar em 2014 ou 2018.

O clima é tenso entre as duas legendas e nem mesmo uma conversa reservada e a sós entre Aécio e Campos, uma semana atrás, em Recife, foi suficiente para reverter o distanciamento que vai além das montanhas de Minas. Que o diga o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), que mantém socialistas no secretariado, mas já dá por perdida a aliança eleitoral para eleger o tucano José Serra prefeito da capital paulista.

Decepção. Aécio mostrou-se desanimado especialmente em razão do comportamento de Lacerda. Tucanos e socialistas lembram que o prefeito chegou a dar declarações simpáticas à reeleição da presidente Dilma Rousseff, embora Aécio, um de seus padrinhos na política, tenha anunciado que pretende disputar a Presidência.

Na quinta-feira passada, foi a vez de um expoente da ala aecista do PSB mineiro alertar o governador pernambucano e presidente nacional do partido. O interlocutor de Campos falou claramente que Mares Guia está "atropelando" acordos fechados com os tucanos para compor com o PT.

Campos foi advertido de que está havendo um "alinhamento automático" do PSB com o PT em Minas. E não apenas em pequenos municípios do interior, mas também em cidades-pólo, como Uberlândia, onde o PSB municipal já compôs com o PT, e em Governador Valadares, um dos locais em que o acerto com os petistas é iminente.

Os socialistas também tendem a fechar com o PT em Poços de Caldas, Teófilo Otoni, Ipatinga, Divinópolis e Betim.

"O Aécio acreditou na aliança e no Marcio, mas o prefeito está seguindo o Walfrido", conclui um dirigente do PSB mineiro, para quem o erro do tucanato foi não ter preparado uma alternativa eleitoral da própria legenda. Este dirigente está convencido de que, se o PSDB tivesse um nome "minimamente viável" para enfrentar Lacerda em Belo Horizonte, o jogo de forças estaria mais equilibrado.

Apesar das dificuldades, este socialista afirma que ainda aposta na relação com Aécio e trabalha pela reaproximação. Mas em um cenário em que o prefeito passa a ser contabilizado como expoente da ala do PSB petista de Mares Guia, fica difícil imaginar que o PSDB repita o erro de não ter opção própria para disputar o Palácio Tiradentes, sede do governo de Minas, em 2014.

Pimentel. Em recente reunião em São Paulo, o ex-prefeito de Belo Horizonte e ministro da Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel (PT), comunicou aos socialistas que não deseja mais ser candidato a governador de Minas daqui a dois anos.

Pimentel teria dito que o candidato será Marcio Lacerda e a direção nacional do PSB avalia que o prefeito é mesmo o nome natural do partido ao governo. Lacerda só não é mais o "trunfo" que Aécio um dia imaginou negociar com o PSB de Campos - na época o ex-governador tucano tinha como principal ponte na legenda socialista o ex-ministro Ciro Gomes, atualmente sem a mesma força na sigla -, ofertando-lhe o governo de Minas em troca do apoio à sua candidatura ao Palácio do Planalto.

Ninguém tem dúvidas de que, depois da vitória da reeleição com mais de 80% dos votos válidos e do sucesso administrativo do governo pernambucano, Campos tem cacife para se lançar na disputa presidencial.

Ele e Aécio só não devem se confrontar diretamente na próxima corrida pela Presidência porque Lula já interveio, oferecendo ao socialista a vice de Dilma em 2014.

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