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Entrevista.

Para pré-candidato do PSB, o que o diferencia de adversários é ser capaz de 'romper com a velha prática política' do País

'Presidente tem que dialogar', diz Campos

Ana Fernandes

08 Maio 2014 | 07h 11

SÃO PAULO - O pré-candidato do PSB à Presidência, Eduardo Campos, acredita que a chapa composta por ele e pela ex-ministra Marina Silva é a "possibilidade de romper com a velha prática política". A declaração foi dada em entrevista ao Broadcast Político em resposta a uma pergunta sobre o que o diferencia do senador Aécio Neves (PSDB-MG), um de seus prováveis adversários nas urnas em outubro.

Campos também pontuou como diferencial o que chamou de capacidade de conversar com diversos setores da sociedade. "É fundamental um presidente que possa dialogar com todos os brasileiros." Tanto Aécio quanto a presidente Dilma Rousseff são criticados porque sofreriam resistências, respectivamente, de setores mais populares e de parte do empresariado.

Nas relações com os partidos em um eventual governo, o ex-governador de Pernambuco disse que vai buscar quem o ajude a "renovar" o presidencialismo. "Conheço gente no PMDB no Brasil afora que é de um PMDB que tem uma outra visão de prática política."

Crítico da atual política econômica do País, Campos afirmou que o governo não deve usar só as taxas de juros para cumprir a meta de inflação e defendeu mais austeridade e transparência fiscal.

O que é o "novo desenvolvimentismo" que o senhor propõe?

No Brasil não cabe mais improviso. Precisamos ter clareza no planejamento de longo prazo, um rumo estratégico. Esse rumo precisa de uma governança macroeconômica segura, que tenha compromisso com o centro de uma meta inflacionária, que deve iniciar nos 4,5%, mas deve ser projetada para, nos próximos cinco anos, apontar para abaixo disso. Uma garantia de que vamos manter o tripé dos fundamentos macroeconômicos. Uma governança no Banco Central independente. Uma governança na política fiscal com controle social, com conselho fiscal da República, para que se acompanhe o gasto público.

Como o senhor avalia a política econômica da atual gestão?

Ficou muito bem provado nos últimos anos que o improviso na tentativa de trocar algum crescimento pela taxa de inflação deu no que deu... Inflação batendo no teto, preços administrados represados e o menor crescimento da história republicana do País. Fora isso, uma quebra da confiança dos agentes no futuro do Brasil, com redução dos investimentos. Teremos uma agenda macroeconômica com condução completamente segura e uma agenda do crescimento sustentável que precisa resgatar o clima de confiança e retirar do papel investimentos estruturantes.

Como fazer a inflação convergir para o centro da meta e, depois, reduzir esse centro?

Não se pode imaginar que a tarefa de botar a inflação no centro da meta é uma tarefa só da taxa de juros. Não é. É da articulação de uma política fiscal responsável com uma política monetária independente que garanta o centro da meta.

Como lidaria com a questão dos preços administrados?

Precisamos resolver esse passivo. Precisamos definir regras claras para que não se dê a oportunidade no futuro de o País administrar a inflação como administrou no período pré-Real, contendo os preços administrados de maneira artificial.

No primeiro dia de um eventual governo do senhor, os preços da gasolina seriam reajustados?

Não sei nem se o atual governo vai conseguir segurar esses preços até a eleição. É preciso chegar o primeiro dia de governo para a gente poder pôr em prática o que estamos colocando como regra. Não é saudável para a economia, para os cidadãos, muito menos para a Petrobrás e para o setor do etanol, que está pagando um preço muito caro. Talvez, se você adiar muito e alongar demais, termine carregando no efeito arrasto a expectativa inflacionária e isso acabe sendo pior para a população mais pobre.

De forma geral, o senhor se diria favorável a medidas mais ortodoxas na economia? Seria contra o controle de preços?

Já me coloquei publicamente contra isso e não é hoje, que sou candidato. É possível, e o Brasil vai percebendo cada dia mais, que o único caminho para um desenvolvimento sustentável é o de quem tem uma boa governança macroeconômica. Todas as grandes nações que se desenvolveram não o fizeram a partir de piques, mágicas, pacotes. O crescimento econômico continuado é obtido em função de uma narrativa de longo prazo, de uma política previsível e de uma agenda de desenvolvimento nos mais diversos setores.

Qual a sua proposta para a política fiscal do País?

Vamos usar a criatividade para ter a mais larga transparência, para a população saber quanto custa o Bolsa Família, quanto custam os subsídios aos juros, quanto custa a renúncia fiscal e a que setores atende. Vamos ver quantos não têm direito nem à renúncia fiscal nem a subsídios a juros, para que a sociedade possa nos ajudar a fazer as escolhas justas. Porque, neste caminho, vão se acumulando injustiças e desequilíbrios que não são saudáveis ao País.

Seria um compromisso: o fim da contabilidade criativa?

Esse é compromisso nosso, da mesma forma que, quando fui governador, assumi colocar as contas públicas na internet e tive a alegria de ver o portal de desenvolvimento, com 90 dias de eleição, ser considerado um dos melhores do Brasil.

Como seria a política cambial?

A autoridade monetária vai atuar respeitando o tripé e fazendo a leitura dos movimentos de outros países que afetem o Brasil. Pode haver intervenções estáticas, não pode ser uma estratégia permanente, se não você quebra o sentido do próprio tripé. Você tem que fazer leituras de conjuntura permanentemente, porque, em determinados momentos, países fazem movimentos em relação ao câmbio e isso gera desequilíbrios importantes em setores que precisam da atenção do País.

Qual seria o limite da intervenção cambial?

Tudo tem que ser feito a partir de uma leitura dos compromissos assumidos. Tem tripé, tem câmbio flutuante, tem meta de inflação, tem Banco Central independente, mas precisamos posicionar o País em função de conjunturas que, vez por outra, acontecem no cenário internacional, onde você não vive em perfeito equilíbrio.

A atual gestão adotou medidas de controle de fluxo, como o IOF. Como lidaria com essa questão?

Podemos ter um ambiente de mais estabilidade, com regras claras para setores que atraem capital. Regras claras e ambiente jurídico saudável. O governo precisa ser visto como um governo que não tem preconceito com o capital.

O que o senhor tem a oferecer a mais ou de diferente em relação a Aécio Neves?

Eu e a Marina somos a possibilidade de romper com a velha prática política que cerca todos os governos e leva a uma visão imediatista, de uma governança que às vezes descamba para o fisiológico, para o patrimonialismo, que precisa ser vencida pelo novo ciclo, um ciclo de expressão da cidadania.

Como pretende convencer o empresariado de que é uma melhor opção do que Aécio?

O empresariado brasileiro tem consciência de que um presidente precisa conversar com empresários, mas precisa conversar com trabalhadores, estudantes, artistas, com a agricultura familiar, o agronegócio. É fundamental um presidente que possa dialogar com todos os brasileiros.

Num eventual governo, o PSDB seria bem-vindo?

Tem quadros no PSDB que serão importantes no ato da nossa governança, mas parece uma coisa indelicada com o PSDB, que tem uma candidatura agora.

O senhor já disse que não teria o PMDB em sua base, que não governaria com José Sarney.

Na verdade, tem símbolos. Eu sempre estive na oposição no Maranhão. É hora de uma renovação e acho que, no PMDB, tem pessoas que podem ajudar na renovação mesmo tendo mais idade, como Pedro Simon, Jarbas Vasconcelos, Luiz Henrique, Ricardo Ferraço, Nelson Trad. Conheço gente no PMDB no Brasil afora que é de um PMDB que tem uma outra visão de prática política.

Acredita na possibilidade de um segundo turno contra Aécio?

Se você perguntasse isso há um ano, era uma coisa completamente impossível. Hoje é uma coisa provável. Amanhã pode ser até o mais provável.